Não é de hoje que o Brasil escolhe sua história com a efervescência de uma torcida – mas nunca o campo esteve tão marcado e as arquibancadas tão armadas.
De um lado, a crença inabalável de que a salvação está numa pauta moralista, repetidamente recheada de fetiches legislativos e nostalgia autoritária.
Do outro, a ideia de que o progresso é monopólio de uma virtude iluminista, messiânica e que tudo se justifica em nome de um suposto bem coletivo.
No meio desse duelo narrativo – e não necessariamente democrático –, jornalistas e juristas se veem obrigados a escolher não um lado, mas um campo semântico.
O binarismo político que atualmente contamina o debate público brasileiro não é só ruidoso, mas é performático, é histriônico. E como toda boa performance, vive de manchetes. Votar se tornou verbo de palco.
O problema é que, nesse teatro, o contraditório virou sinônimo de traição. E isso vale tanto no plenário do Congresso Nacional quanto na editoria de Política, bem como no meio social, entre família e amigos.
A propósito: quem não tem alguma história para contar de familiares que deixaram de se falar por conta de opiniões políticas divergentes, amigos que desfizeram laços de convivência longevos e se bloquearam nas redes sociais e na vida, hein?
Eu mesma tenho um monte de historinhas do tipo, inclusive entre colegas jornalistas, mas deixo isso para contar em uma roda de conversa pessoalmente.
Entre Linhas e com reflexos na realidade, essa dicotomia transformou o ambiente jurídico em uma extensão do noticiário político, e vice-versa.
Decisões judiciais são repercutidas como editoriais. Operações da Polícia Federal viram atos de campanha eleitoral (mais eleitoreira, por sinal).
E pareceres técnicos, antes redigidos em juridiquês insondável, agora são peças de retórica pública – com direito a hashtags, emojis, stories e threads explicativas e simplórias.
As partes são bem definidas e há advogados improvisados em cada esquina das redes sociais – e, por que não dizer, jornalistas (ou “jornaleiros”) com as suposições e as próprias convicções travestidas de firmeza no famoso “segundo fontes confiáveis”.
A judicialização da política já é fato antigo; o que temos hoje é a politização da jurisprudência e a editorialização da sentença.
O fenômeno é visível também nas rotinas do jornalismo jurídico – esse ofício que vive na fronteira entre a letra fria da lei e o calor das interpretações públicas. Se antes o repórter jurídico se dedicava a traduzir tecnicamente as decisões do STF ou do STJ, agora precisa decifrar o subtexto emocional de cada voto.
A repercussão, muitas vezes, chega antes mesmo da publicação do acórdão. É como se o contraditório – pilar da democracia e do devido processo legal – tivesse migrado do processo judicial para a arena digital, onde toda opinião é uma contestação e todo silêncio, uma confissão.
Nesse cenário, o desafio do jornalismo jurídico, esse universo híbrido entre toga e deadline, é duplo: manter a precisão técnica sem se deixar arrastar pela lógica da torcida. É fundamental compreender as entrelinhas e os entreleis.
Afinal, a cobertura de julgamentos que envolvem grandes temas – como as ações sobre liberdade de expressão, regulação de plataformas digitais (em discussão no PL 2.630/2020, o chamado “PL das Fake News”) ou o alcance das imunidades parlamentares, debatido na PEC das Prerrogativas (Proposta de Emenda à Constituição 3/21) – não pode ceder à tentação de reduzir a complexidade do Direito a slogans de ocasião diante da disputa pela narrativa da legalidade, onde cada lado tenta capturar o símbolo máximo da institucionalidade para si.
Entre Leis, o artigo 93, IX, da nossa Carta Magna, exige que todas as decisões judiciais sejam fundamentadas. Essa exigência, além de técnica, é ética: permite ao cidadão entender o raciocínio do magistrado e confiar na transparência do processo.
O mesmo deveria valer para a informação – o que, em tempos de polarização, precisa também ser fundamentada, contextualizada e responsável.
E cabe à Imprensa, sobretudo à jurídica, manter-se como a instância que não julga, mas revela; que não sentencia nem interpreta além do que foi decidido, simplesmente noticia (e ponto).
Afinal, no Brasil das certezas afiadas, a dúvida bem colocada ainda é a mais aguerrida forma de resistência, já que faz com que o expectador tire as próprias conclusões, que pense e repense sem meras ilações, sem se conter apenas com manchetes.
Em tempo: Na nossa primeira coluna mensal de 2026, pensei em abordar assunto relacionado a política pelo fato de este ser ano de eleições aqui no Brasil.
Desejo que nos próximos meses, a gente, com o poder do voto, possa adquirir/aumentar o discernimento para encarar as urnas.
A gente se encontra aqui!
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