Outro dia, fui acusada de não existir. É isso mesmo!
Não foi em uma petição, nem em um acórdão particularmente ácido, daqueles que fazem a gente reler o próprio nome como parte, sabe?
Foi pior: disseram que minha voz era artificial; que eu, jornalista no Superior Tribunal de Justiça (STJ), havia sido substituída por uma inteligência artificial; que um tribunal, “do porte do STJ”, havia perdido o pudor; e mais: “se lá usam IA para substituir gente, imagine nas instânciasinferiores!”, escreveu um indignado, com uma convicção que só os enganos públicos costumam ter.
O curioso é que eu estava lá. Fui eu quem gravou o boletim. E provo (provei ao seguidor indignado de uma das plataformas de áudio do STJ).
Jornalista há mais de 15 anos só nessa corte superior, repercuto decisões de seus ministros diariamente na Voz do Brasil, apresento e edito podcasts e outros produtos nos quais a minha imagem também aparece.
Isso não tinha sido percebido pelo seguidor indignado, até eu lhe explicar que “eu era eu mesma”, que aquela voz era minha de verdade. Pediu-medesculpas. Desculpas aceitas, claro.
Em outra ocasião – sim, uma segunda vez – para um setor inteiro do STJ, eu era IA na leitura de um poema que estava entre os vencedores de um concurso literário interno. Virei algoritmo.
A autora não se conteve e foi até onde eu trabalho diretamente (Coordenadoria de TV e Rádio) pedir aos meus chefes para colocarem uma voz humana no poema que escreveu tão inspirada e que não deveria ter sido interpretado por uma IA.
Ela só se convenceu quando ouviu meus chefes e um colega, editor de imagens do material, falarem que minha voz era de humana. E eu cheguei no momento, “IA em carne e osso”, para bater o martelo e resolver de vez o imbróglio. Respirei antes da vírgula, hesitei no enjambement do verso, engoli uma sílaba – tudo aquilo que nos denuncia como humanos.
Talvez isso diga mais sobre o nosso tempo do que sobre a minha voz. Digo talvez, porque até pensei que estava entrando em crise profissional, com o dilema de que eu deveria mudar minha personalidade vocal para não ser confundida com inteligência artificial.
Para a minha filha, o que vivenciei se pareceu com episódio da série Black Mirror. Quem dera se tivesse sido apenas ficção...
Entre Leis, no Brasil, a Constituição de 1988 já nos oferece lentes úteis: a dignidade da pessoa humana (art. 1º, III), a proteção da imagem e da voz (art. 5º, X) e o devido processo legal (art. 5º, LIV) são pontos de partida inevitáveis para qualquer discussão sobre IA e outros tantos infindáveis temas.
Mais recentemente, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) introduziu princípios como transparência, finalidade e não discriminação – todos diretamente tensionados por sistemas automatizados.
O próprio Poder Judiciário não está alheio. A Resolução nº 332/2020 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estabeleceu diretrizes éticas e de governança para o uso de inteligência artificial nos tribunais, exigindo, entre outros, supervisão humana eauditabilidade.
A Resolução nº 615/2025 revogou a norma original para abranger novas tecnologias, como IA generativa. Não se trata de proibir a tecnologia, mas de, digamos,domesticá-la.
E aí começa o paradoxo. Enquanto discutimos como limitar a atuação da máquina, passamos a desconfiar do humano.
O erro deixou de ser um indício de humanidade e passou a ser visto como falha de programação. A fluidez virou suspeita. A clareza, prova de automatização.
No meu caso, a acusação veio com um tom quase moral: seria “falta de vergonha” substituir pessoas por IA. Contudo, o que se seguiu foi mais revelador: a certeza de que aquilo só poderia ser artificial. Não era. Nunca foi. Se será, ainda não tenho a resposta.
Nos Estados Unidos, a discussão sobre deepfakes já levou a iniciativas legislativas para proteger a identidade vocal e visual das pessoas. O AI Act, que é a primeira regulamentação de inteligência artifical da União Europeia, em vigor desde agosto de 2024, avança na classificação de riscos e na imposição de obrigações conforme o grau de impacto dos sistemas.
Em ambos os casos, há uma preocupação comum: evitar que a tecnologia dilua a autoria, a responsabilidade e, em última instância, a própria noção de verdade.
No Brasil, ainda engatinhamos em um marco legal específico para IA, embora projetos tramitem no Congresso. Enquanto isso, aplicamos, por analogia, princípios existentes – o que é, ao mesmo tempo, prudente e insuficiente.
A situação que experimentei poderia ser descartada como um mal-entendido trivial, não fosse o seu subtexto: a ideia de que o humano já não é mais facilmente reconhecível como tal.
Que a nossa produção (de texto, de som, de sentido) se tornou replicável a ponto de perder a própria assinatura, a própria identidade.
Há algo de irônico nisso tudo. Passamos décadas instruindo máquinas a falarem e agirem como nós. Agora, somos confundidos com elas. Talvez o problema não seja a inteligência artificial, mas o nosso critério de humanidade.
Se a emoção precisa de ruído para ser autêntica, se a clareza é suspeita, se a cadência correta soa programada, então estamos redefinindo o humano por suas imperfeições – e não por sua consciência, intenção ou responsabilidade.
E isso, convenhamos, é juridicamente perigoso. Porque o Direito não se ocupa apenas do que é, mas de quem responde pelo que é. Atribuir autoria é essencial. Distinguir agente de ferramenta é fundamental.
E, nesse ponto, confundir um jornalista com uma IA não é apenas um erro curioso. É um sintoma. Um sintoma de que talvez precisemos, antes de regular as máquinas, reaprender a reconhecer as pessoas.
No fim das contas, (ainda) continuo sendo eu. Gravo, escrevo, erro, reviso, refaço. Às vezes acerto o tom; outras, não. E sigo assinando o que produzo – não porque a lei, o direito, ou o trabalho exigem, mas porque a responsabilidade começa no nome. No meu nome. E como diria meu saudoso pai: “a gente tem um nome a zelar, minha filha”.
Se um dia minha voz for, de fato, substituída por um algoritmo, espero ao menos que ele saiba fazer uma pausa antes do verso final. Não por perfeição. Mas por humanidade.
A gente se encontra (ainda na realidade) aqui!
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