A pedido de um leitor, no texto deste mês vou falar sobre a experiência de ser a voz do STJ na Voz do Brasil. Lá vamos nós, “começando lá do começo”...
Nasci em Cajazeiras, no alto sertão paraibano, onde o rádio nunca foi só um aparelho doméstico. Era companhia, calendário, ponte com o mundo e, muitas vezes, tribunal invisível da vida cotidiana. Antes de compreender o peso das palavras escritas, eu já entendia o impacto da palavra falada. O rádio chegava antes da chuva e das cartas e, em alguns momentos, antes da esperança.
Desde a infância, aprendi que notícia não era apenas informação. Era presença. Havia algo quase litúrgico no horário oficial d’A Voz do Brasil. Enquanto muita gente mudava de estação, eu aumentava o volume. Por vezes, também ficava na pracinha em frente à casa de uma tia, ouvindo a transmissão por alto-falantes em postes de luz.
Talvez eu intuísse que aquela voz solene carregava mais do que atos oficiais: carregava a ideia de pertencimento nacional. O Brasil passava por ali, diariamente, em ondas curtas e longas, alcançando lugares onde até o asfalto e a água demoravam a chegar.
Cajazeiras me ensinou cedo o valor da escuta. Cidade do interior forma observadores atentos, viu? A gente aprende a decifrar silêncios, pausas e olhares.
Aprende também que toda narrativa possui pelo menos duas versões e que a verdade costuma morar justamente no espaço entre elas. E foi na escola radiofônica, ainda adolescente, que comecei a carreira profissional na Comunicação. Sem saber, eu já ensaiava o Jornalismo, paixão que só foi aumentando.
Quando deixei a Paraíba no ano de 2000, após concluir a faculdade de Jornalismo em Campina Grande, onde também atuei em rádios locais, levei comigo mais do que malas. Levei a memória sonora do sertão. E após breve passagem por emissoras de Rádio e TV de Fortaleza (Ce), eis que a vida me trouxe a Brasília, que parecia outro planeta: monumental, racional, geométrica. Cajazeiras era curva, conversa de calçada, improviso.
Foi justamente nessa travessia que compreendi algo essencial: o Jornalismo não pertence ao CEP de origem; pertence à capacidade de transformar experiência em compreensão pública e à vontade de levar a notícia em sua versão mais verdadeira possível.
Após vários freelas, trabalhos em rádio comercial e em assessoria parlamentar na Câmara dos Deputados, a oportunidade surgiu no Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde encontrei um país narrado em processos. Como repórter, produtora, editora e apresentadora (TV e Rádio), percebi que cada decisão judicial conta uma história humana antes de se tornar jurisprudência.
Por trás dos termos técnicos, existem famílias, conflitos, perdas, danos, recomeços e direitos disputando espaço na arena democrática. Acho que por isso eu nunca tenha conseguido separar completamente Jornalismo e Justiça. Ambos lidam com versões, responsabilidades e consequências. Ambos exigem rigor e podem ferir quando exercidos sem ética.
Foi no STJ que comecei minha história n’A Voz do Brasil. Entre Linhas e A Voz, não é missão tão simples – embora muito prazerosa para mim – contar em até 50 segundos, em média, alguma decisão judicial para que seja entendida pelo maior número de pessoas possível.
Meu trabalho na redação do Tribunal da Cidadania começa, na prática,por volta das 14h, porém, ao longo da manhã, já tenho lido o noticiário de destaque do STJ, o que me dá ideia do que poderei escolher para ir ao ar. Redijo o texto que gravo e o que é lido pelos âncoras da Rádio Justiça antes de me anunciarem. Tudo é metrificado na locução.
Quem pensa que é sempre a mesma coisa, uma rotina sedimentada, engana-se. A cada decisão judicial, o peso da responsabilidade de narrá-la, levando a conhecimento fatos que impactam o nosso dia a dia. E é tudo isso o que me faz ter a certeza de que, entre todas as experiências profissionais as quais já vivi e senti, existe esta, que ainda me atravessa emocionalmente: falar n’A Voz do Brasil.
Minha mãezinha (pasmem!) afirma que ainda se emociona, mesmo após me ouvindo há mais de 15 anos sendo a voz do STJ n’A Voz do Brasil – fora que, em algumas ocasiões, também apresento o programa pela Câmara dos Deputados.
Pouca gente imagina o que significa, para uma menina do extremo sertão paraibano, ocupar aquele microfone. Não é apenas um trabalho. É um reencontro simbólico com a criança que ouvia o programa em Cajazeiras sem imaginar que um dia iria fazer parte daquela transmissão histórica.
É nesse instante que passado e presente se tocam. E talvez seja exatamente isso o que o Jornalismo faz quando é exercido com verdade: cria pontes improváveis entre quem fomos e quem conseguimos nos tornar.
Ao completar neste mês de julho um ano da coluna Entre Linhas & Leis aqui no Lead Notícia, percebo que escrevi muito sobre tribunais, precedentes judiciais e bastidores do Poder. Contudo, no fundo, sempre escrevi sobre pessoas. Inclusive sobre mim mesma, ainda que nas entrelinhas.
E hoje entendo que minha trajetória nunca foi apenas uma história de ascensão profissional. Foi uma travessia sustentada pela palavra – falada, escrita, transmitida e escutada. A menina de Cajazeiras continua aqui.
Agora com microfone, texto, câmera e jurisprudência, mas ainda movida pela mesma curiosidade de infância: a vontade de compreender o Brasil e de contá-lo para os outros. Acredito que essa, afinal, seja a verdadeira voz que nunca saiu do ar.
Feliz aniversário de um ano para nós! Obrigada por me fazer companhia aqui no Entre Linhas & Leis, n’A Voz do Brasil, seja onde for... Que estejamos juntos celebrando mais encontros.
E a gente se encontra aqui (também)!
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