“São todos iguais”: uma frase perigosa da política contemporânea

O discurso da falsa neutralidade pode enfraquecer a democracia e abrir espaço para quem promete estar “fora do sistema”.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
19/08/2026 às 18h19 Atualizada em 19/08/2026 às 18h43

"Nenhum político está nem aí para você, são todos iguais, não importa o lado."

Você já ouviu essa frase, ou já a disse no grupo de família, no comentário de uma notícia, na roda de bar, sempre com um aceno de cabeça geral, como se fosse a última verdade que sobro.

Ela dá a sensação de enxergar através da encenação, imune à manipulação que captura todo mundo. Por isso merece desconfiança: frases que trazem esse alívio instantâneo raramente foram feitas para informar. Foram feitas para fechar o assunto.

Existe um atalho mental que explica por que ela soa tão verdadeira. Ao avaliar "os políticos" como categoria, o cérebro puxa da memória os exemplos mais disponíveis, quase sempre os escândalos, porque escândalo é o que vira manchete.

Daniel Kahneman chamou isso de WYSIATI, what you see is all there is: o que você vê é tudo o que existe.

Ninguém noticia o vereador que passa quatro anos numa agenda de saneamento básico sem escândalo, então essa história nunca entra na conta, e o resultado fecha, mas apenas com parte dos dados.

Diante da dualidade ideológica que domina o pensamento político das nações do hemisfério ocidental, quem não se sente representado por nenhum dos dois lados tende a resolver esse desconforto comparando os extremos até achar equivalência, farinha do mesmo saco.

Isso cria um sentimento de independência que parece racional, mas é construído sobre um atalho, não uma análise, e não é um erro inofensivo: deslegitima a política e abre espaço para as figuras autoritárias e oportunistas que se vendem como alternativa "de fora do sistema".

O político mais cínico do mundo ainda depende de você

Imagine dois prefeitos: um acredita genuinamente em servir a população, o outro só quer poder e prestígio. Daqui a quatro anos, algum dos dois pode ignorar completamente o que a população quer?

Nenhum dos dois pode, porque a integridade moral do político é irrelevante para o que importa: a permanência no cargo depende da escolha popular periódica, tanto para o santo quanto para o cínico.

Isso não é dizer que ele se importa de verdade, questão de foro íntimo, impossível de verificar. É dizer que precisa responder aos desejos do eleitor para se manter no poder, o que é observável e estrutural, e é isso que move a ação política.

A expectativa de que esses desejos sejam ao menos parcialmente atendidos faz até o cínico agir como se se importasse, produzindo o mesmo resultado prático de um altruísta genuíno. O sistema não precisa de santos, só de bons incentivos, e o principal deles chama-se eleição.

 

Por que mentir sem entregar não dura

Manipular desejos, prometer sem entregar, é estratégia real, mas de vida útil curta, como um fornecedor que engana o cliente uma vez e não sobrevive ao segundo pedido.

No jogo político o ciclo é mais longo, mandato, reeleição, pesquisas, mas a lógica é a mesma: manipular repetidamente corrói o capital que o político mais precisa preservar.

E "poder" vai além do cargo: é aprovar pauta no partido, negociar com outras forças, manter base de apoio, deixar legado, tudo dependendo de entrega percebida, não de discurso.

É isso, não a bondade de ninguém, que empurra os políticos a atender aos desejos da população no máximo que puderem: a alternativa é perder, aos poucos, todo poder que vale a pena ter.

A isenção também é uma ideologia, e talvez a mais perigosa de todas

Toda ideologia compartilha um traço, além do conteúdo que defende: oferece uma lente simplificada para a realidade, cria identidade em quem a compartilha e se protege contra evidências contrárias, reinterpretando-as em vez de se deixar refutar.

O discurso da isenção cumpre os três critérios: reduz toda a pluralidade política a duas caixas intercambiáveis, farinha do mesmo saco; cria identidade de grupo ("eu sou independente"), frase que soa neutra, mas funciona como bandeira sem escudo; e é praticamente imune a contraexemplo, porque quando um político cumpre o prometido, o discurso não é revisado, é reinterpretado como fachada ou sorte.

Karl Popper usou um critério simples para separar ciência de pseudociência: uma teoria só é científica se algum resultado possível puder refutá-la.

Uma teoria que se ajusta para explicar qualquer resultado, inclusive o oposto do que previa, está se protegendo do mundo, não descrevendo-o.

É nesse teste que a expressão "são todos iguais" reprova: funciona mais como ideologia camuflada de bom senso do que como ausência de ideologia, e escapa do escrutínio que aplicamos às posições assumidas. Por isso podemos falar em pseudoisenção.

A porta que essa frase deixa aberta

"São todos iguais" costuma vir seguida de "por isso eu voto em quem é diferente de tudo isso." Quem se apresenta como "de fora da política" empresta a força dessa falsa neutralidade e colhe o benefício mais valioso dela: escapar do escrutínio.

Um programa de governo pode ser debatido e cobrado; um "eu sou diferente de todos eles" não pode, porque não fez promessa verificável nenhuma, só prometeu não ser o que você já decidiu odiar.

Quando esse tipo de figura chega ao poder, os dois mecanismos de responsabilização descritos acima, a dependência do voto e o desgaste da entrega não cumprida, costumam ser os primeiros alvos: imprensa, fiscalização, mandatos, alternância de poder.

Não por acaso: quem se vendeu como isento tende a tratar a responsabilização como obstáculo, não como regra do jogo.

O discurso que promete colocar você acima da manipulação política acaba sendo, ele mesmo, uma forma eficiente de manipulação, disfarçada, porque não parece manipulação. Parece bom senso.

Da próxima vez que alguém disser "são todos iguais" perto de você, devolva uma pergunta simples: iguais em quê, e comparado com quem?

Frases que não sobrevivem a essa pergunta não são conclusões, são atalhos, e atalhos, na política, sempre levam alguém a algum lugar, só que nem sempre é você quem escolhe para onde.

 

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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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