Habeas Corpus para o cansaço: negado!

Quando a rotina feminina vira regime fechado, mas ainda assim encontra brechas para respirar, amar-se, amar e seguir.

Por: Fátima Uchôa | coluna Entre Linhas & Leis
11/05/2026 às 06h00
rotina acelerada

Há dias em que minha vida se parece mais com um roteiro rejeitado de Grey’sAnatomy: plantões intermináveis, decisões urgentes e a nítida sensação de que ninguém avisou que seria tão complexo assim.

Mas, no meu caso, o bisturi é substituído por processos judiciais, microfones, câmeras, deadlines e, claro, halteres – porque entre o trabalho no Judiciário e freelas em outras searas (como a política), ainda há uma tentativa honesta de manter em dia o shape e a sanidade.

Ser jornalista e radialista no âmbito jurídico diariamente não é apenas narrar o Direito, mas é traduzi-lo, humanizá-lo e, muitas vezes, sobreviver a ele. A Constituição Federal de 1988, no seu artigo 5º, assegura a liberdade de expressão, e curiosamente não menciona o direito a um cochilo após uma madrugada revisando roteiros e textos sobre jurisprudência.

Sim, sou dessas que se acorda na madrugada para revisar e acrescentar o que redigiu no dia anterior. O fato é que meus maiores insights surgem em momento inapropriado, contudo, não posso deixá-los escapar, né? Lacuna relevante, convenhamos.

Entre resoluções e Protocolo de Julgamento com Perspectiva de Gênero, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tem delineado importantes orientações para a magistratura sobre a chamada “dupla jornada” feminina.

Embora não exista uma lei específica que resolva o caos logístico de ser mãe, esposa, filha, profissional e, em momentos de ousadia, atleta amadora, o ordenamento jurídico brasileiro reconhece, por exemplo, a proteção à maternidade como direito social (art. 6º da Constituição).

Na prática, isso significa que o Estado sabe que a gente sofre, só ainda não descobriu exatamente como ajudar na correria das 24 horas que claramente precisariam ser 30 ou até mais.

E talvez seja por isso que o Mês de Maio carregue um simbolismo tão potente. Mais do que flores e homenagens no Dia das Mães, ele funciona como um lembrete quase institucional ainda que não previsto em lei de que por trás de cada rotina exaustiva existe uma rede invisível de afeto, herança e resistência.

Ser mãe e filha, ao mesmo tempo, é viver em uma espécie de linha sucessória emocional, onde o cuidado se aprende e se transmite, como um precedente qualificado que nunca perde a validade.

Teoria Geral do Cansaço Aplicado

dia acelerado

E é nessa matemática impossível que a rotina se constrói: de manhã, antes das decisões judiciais, treino funcional improvisado na sala de casa – porque o artigo 196 da Constituição diz que a saúde é direito de todos e dever do Estado, mas, sinceramente, a calistenia e a musculação são por minha conta mesmo; à tarde, o próprio trabalho jornalístico no tribunal; full-time para o Entre Linhas & Leis, já que é preciso leituras e mais leituras com o objetivo de acessar meu lado mais criativo e crítico para escrever aqui na nossa coluna; e à noite, quando volto para casa, a mãe entra em ação, com conversas em família até meu adormecer, sem nem saber o que eu disse ou ouvi por último antes de a minha filhota ir para o próprio quarto.

O mundo tentando regular o trabalho

No direito comparado, a coisa também não é exatamente um spa. Nos Estados Unidos, a Fair Labor Standards Act (FLSA) na tradução livre: Lei de Normas Justas do Trabalho, de 1938, regula jornada e salário, mas não resolve o dilema universal de responder e-mails enquanto se pensa no jantar.

Já na França, há o chamado “direito à desconexão”, previsto no Code du Travail ou Código do Trabalho, em vigor desde 2017 –, que permite ao trabalhador ignorar comunicações fora do expediente. Um sonho distante, quase uma ficção científica mixada com comédia surrealista mais ousada que Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

No Brasil, está em debate o fim da escala 6 X 1 e a redução da jornada semanal para 40 horas. O modelo elencado deve se basear no prisma da escala 5 X 2, com 40 horas por semana e sem redução salarial. Se a proposta vencer nos intermináveis debates entre Congresso Nacional e Executivo Federal, valerá para todos os gêneros.

Artigo sem previsão legal: ser mulher em tempo integral

mulher contemporânea

No meio desse caos coreografado existe uma verdade jurídica não escrita: a mulher contemporânea opera sob um sistema de multitarefas que desafiaria qualquer tese de repercussão geral. E, diferentemente dos autos, a vida não permite pedido de vista.

Talvez o mais curioso seja perceber que, mesmo sem previsão legal expressa, criamos nossos próprios precedentes. Decidimos, todos os dias, que é possível ainda que improvável – o equilibrar tudo. E quando não é, recorremos ao bom e velho princípio da razoabilidade, não aquele dos tribunais, mas o da vida real: hoje deu, amanhã a gente tenta de novo.

Porque, no fim, Entre Linhas & Leis, o que sustenta mesmo não é só o ordenamento jurídico, mas a capacidade quase sobre-humana de seguir em frente, de preferência com um café expresso na mão e um tênis de corrida já na porta. E se isso não estiver previsto em lei alguma, talvez esteja na única norma que realmente importa: a de não desistir no meio do processo.

A gente se encontra aqui!

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Maria PaulaHá 3 meses Brasília-DFExcelente texto, como sempre! Tema muito relevante no contexto hodierno. À nível de aprofundamento, deixo aqui a indicação do livro Sociedade do Cansaço, do escritor Byung-Chul Han.
Fátima Uchôa Há 3 meses BrasíliaMeus (minhas) leitores(as), fico muito feliz ao saber q estamos juntos nesta jornada de leitura mensal. Cada mensagem recebida é um incentivo para q eu leia cada vez mais, perceba cada situação a qual vivencio e, assim, traga +conteúdo para refletirmos. É a minha verdade q escrevo aqui. Se quiserem sugerir algum tema, fiquem à vontade. Estarei atenta. Agradeço a todos a leitura. Obs.: Em Julho, qndo celebraremos 1 ano da estreia do Lead e da nossa coluna, abordarei tema sugerido por um leitor.
Patrícia Alves Há 3 meses Boa Viagem, RecifeOs colunistas do Lead sempre com artigos ótimos. Fátima, gostei muito da abordagem do seu texto. Conteúdo de qualidade
Lucas PachecoHá 3 meses Tijuca, Rio de JaneiroFátima, acompanho sempre seus artigos por aqui. Achei esse texto extremamente necessário. A forma como vc trata o esgotamento da rotina moderna. Parabéns pelo conteúdo
Fernanda Goes Há 3 meses Araras MGMaravilhosa! Amo seus textos, suas ideias, sua visão. Por mais textos assim! Obrigada!!!!
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Fátima Uchôa
Fátima Uchôa
Jornalista, radialista, especialista em assessoria de comunicação (com curso latu sensu na área) e mestre de cerimônia. Natural de Cajazeiras (Pb), foi lá que começou a carreira, no rádio, aos 16 anos de idade. Em 2000, concluiu a graduação em Comunicação Social (Jornalismo) na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Atualmente, lida com jornalismo jurídico voltado para a TV e a Rádio Justiça, além de ser freelancer em outros órgãos públicos, como a Câmara dos Deputados.
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