
Há histórias que parecem se recusar a terminar. A de Diego Armando Maradona é uma delas.
Ele morreu em novembro de 2020, mas, quase seis anos depois, a Argentina ainda tenta responder a uma pergunta aparentemente simples: houve responsabilidade médica em sua morte?
A resposta está cada vez mais distante. Não exatamente porque o caso seja simples de investigar.
O segundo julgamento sobre a morte de Maradona ganhou nesta semana um capítulo que seria cômico se não tratasse da morte de alguém.
Descobriu-se que exames médicos analisados por uma junta de especialistas e incorporados à investigação podem pertencer não a Diego Maradona, o jogador, mas a Diego Maradona, o pai.
Ao todo, 19 exames renais foram analisados por peritos. Os resultados ajudaram a compor o relatório de uma junta médica que investigou as circunstâncias da morte do ex-jogador e serviu como uma das bases para a abertura do processo contra os profissionais de saúde.
Segundo a imprensa da Argentina, o erro apareceu justamente quando um nefrologista sustentava que o craque sofria de doença renal crônica com base em estudos realizados entre 2012 e 2015. Havia um pequeno problema: parte daquela documentação era de Don Diego.
A Justiça tenta descobrir o que aconteceu com Maradona e, no meio do caminho, já não consegue ter certeza sequer de qual Maradona está nos documentos.
Seria apenas mais um erro processual grave não fosse este o segundo julgamento. O primeiro desmoronou em 2025 depois que veio à tona que uma das juízas participava, sem autorização, da produção de um documentário sobre o caso.

Meses de audiências foram jogados fora e tudo precisou começar novamente. Agora, o novo processo se vê diante de outra dúvida capaz de atingir uma das provas centrais da acusação.
Nesta quinta-feira (20), a situação levou o tribunal a interromper a audiência enquanto analisa os próximos passos, e a Promotoria pediu buscas na Swiss Medical e no Sanatorio Los Arcos para esclarecer a origem dos documentos.
O episódio não significa automaticamente que o julgamento será anulado, mas obriga a Justiça a descobrir até onde o erro contaminou as conclusões dos peritos.

Há algo profundamente argentino nessa dificuldade de encerrar Maradona. O país transformou o jogador em santo popular, personagem político, memória afetiva e patrimônio nacional.
Sua morte, portanto, nunca poderia ser apenas uma morte. Precisava de explicações.
O problema é que uma Justiça que procura respostas precisa, antes de tudo, inspirar confiança nas perguntas que está fazendo.
Maradona passou a vida driblando adversários. Depois de morto, parece preso a um processo que dribla a si próprio.