O fio invisível que sustenta a Imprensa contemporânea

Entre regulação das big techs, combate ao assédio judicial e proteção autoral, o Judiciário redefine pilares de um jornalismo economicamente viável na era digital

Por: Fátima Uchôa | coluna Entre Linhas & Leis
03/12/2025 às 06h00 Atualizada em 10/01/2026 às 21h52
imprensa no Brasil

A sustentabilidade do jornalismo na era digital é um desafio multifacetado, que ultrapassa a mera adaptação de formatos e passa necessariamente por um redesenho de seu suporte institucional, inclusive jurídico.

A sobrevivência das empresas de comunicação, hoje ameaçada por modelos econômicos baseados em cliques fáceis (e com informações brevíssimas ou apenas manchetadas), algoritmos e redes sociais, requer mais do que estratégias de monetização.

Exige um amparo regulatório coerente com a missão da imprensa: informar, fiscalizar e fortalecer a cidadania.

O Judiciário e o novo ambiente institucional do jornalismo

No Brasil, tal amparo vem ganhando contornos concretos no Judiciário, que está redesenhando o terreno onde o jornalismo precisa sobreviver e prosperar na era digital. Um exemplo recente e simbólico é a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), nas ADIs 6.792 (proposta pela ABI) e 7.055 (proposta pela Abraji), que reconheceu como inconstitucional o assédio judicial praticado contra jornalistas e veículos de imprensa – caracterizado pelo ajuizamento de múltiplas ações sobre os mesmos fatos, em comarcas distintas, para constranger órgãos de imprensa.

Na jurisprudência consolidada, o STF fixou que a responsabilidade civil do veículo só se configura em caso de dolo ou culpa grave, protegendo, assim, o exercício livre do jornalismo.

O STF também firmou a Tese 995, segundo a qual a imprensa pode ser responsabilizada por entrevistas que contenham acusações falsas –, mas somente se houver indícios concretos da falsidade, combinados com má-fé ou negligência grave, e desde que não haja oportunização razoável ao contraditório. Essa lógica traduz a ideia do binômio liberdade X responsabilidade, sem recorrer à censura prévia.

Marco Civil da Internet e a regulação das plataformas

Do ponto de vista regulatório mais estrutural, a Corte suprema demonstrou sensibilidade à sustentabilidade digital da comunicação ao revisar o Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014). No último mês de junho, o STF declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 dessa legislação, que até então resguardava as plataformas digitais de responsabilidade civil sem ordem judicial prévia.

A nova tese exige que as referidas empresas adotem deveres de vigilância mais proativos, transparência na moderação e rapidez na remoção de conteúdo ilegal.

Essas são medidas que reforçam a regulação das big techs, impactando diretamente o regime de circulação da informação, e potencialmente beneficiando modelos de Jornalismo sério (com letra maiúscula em sua literalidade).

sede do Superior Tribunal de Justiça

Sob outro prisma, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem destacado a importância do direito autoral como elemento de valorização econômica do conteúdo jornalístico digital. Em julgamentos recentes, o tribunal entendeu que a exposição não autorizada de obra protegida, por exemplo, em plataformas de comércio eletrônico, configura ato ilícito, permitindo sua retirada sem depender de ordem judicial específica.

Além dos posicionamentos jurídicos, não se pode ignorar o debate legislativo: Entre Leis, o PL 2630/2020, conhecido como “PL das Fake News”, propõe um marco de transparência, identificação de contas e responsabilização das plataformas.

Embora ainda em tramitação no Congresso, ele simboliza como o Parlamento enxerga a regulação como pilar para a sustentabilidade do ecossistema de informação, ancorando o jornalismo profissional numa estrutura jurídica mais justa.

Entre Linhas, em outras palavras: para que o jornalismo sobreviva – e não apenas resista de modo pontual – na era digital, ele precisa além de receita publicitária ou paywalls. Precisa de um ambiente regulatório robusto, que equilibre liberdade com responsabilidade, proteja contra práticas intimidatórias (a exemplo do assédio judicial), valorize economicamente a criação intelectual e imponha deveres claros às plataformas que dominam a distribuição da notícia.

jornalismo digital

O Judiciário, com suas recentes decisões, tem dado sinais claros nesse sentido: não só reconhece os riscos para a liberdade de expressão, mas também atua para proteger o jornalismo como pilar da democracia. É a arquitetura jurídica que pode garantir vida longa às redações digitais.

Esse é, enfim, o novo alicerce para a sustentabilidade de um jornalismo que não apenas sobrevive, mas cumpre seu papel constitucional, na interseção de mercado, transparência e lei. Entretanto, acrescento que talvez o ponto crucial esteja no que ainda nem está escrito nas entrelinhas desse rearranjo institucional que começa a tomar forma.

A travessia do jornalismo para um futuro sustentável depende, acima de tudo, de nossa capacidade coletiva de reconhecer que informação não é mero produto de consumo instantâneo, mas um bem público que exige cuidado, perícia e lastro jurídico.

Se o século digital fragmentou audiências e acelerou narrativas, cabe agora ao Direito – e a nós, que habitamos essa ponte entre fatos e normas – reconstruir as bases de confiança os quais permitem à sociedade continuar se enxergando no espelho da notícia.

No fim das contas, Entre Linhas & Leis, sobreviver será pouco: é preciso garantir que o jornalismo continue sendo o lugar onde o país aprende a ler a si mesmo.

A gente se encontra aqui!

 

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Fabi Há 5 meses Goiânia incrível o texto!
Fátima Uchôa Há 6 meses Brasilia - DFAgradeço a todos a leitura da nossa coluna mensal Entre Linhas & Leis. Uma honra para mim contar com o olhar de cada um. Lamento não poder respondê-los individualmente, como merecido, mas tenham certeza de que leio todos os comentários e os recebo com muito carinho e atenção. Sobre uso dos textos aqui da nossa coluna, fiquem à vontade, desde que não o façam com finalidade comercial e que sejam devidamente citados o nome do autor (nesse caso, o meu) e o do portal Lead Notícia. Um abraço a todos.
Rogério Lindauro Há 8 meses Barretos SPimportante que o Judiciário como todo tenha a visão e saiba da importância de uma imprensa livre. Todos podem criticar, mas nao proibir a empresa
dr. João AlmeidaHá 8 meses Curitiba PRParabéns pelo excelente texto, Fátima Uchôa. Sua reflexão sobre os desafios da imprensa contemporânea é lúcida, bem construída e extremamente oportuna para quem acompanha, do ponto de vista jurídico, o impacto das plataformas digitais e a necessidade de fortalecer a proteção ao trabalho jornalístico. A forma como a jornalista articula os aspectos institucionais, legais e sociais revela sensibilidade e profundo domínio do tema. Uma leitura necessária para todos que defendem a democracia.
Gabriel César Há 9 meses Tocantins Lead faça podcast desses conteúdos da Fátima , são muito esclarecedores para a comunidade acadêmica
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Fátima Uchôa
Fátima Uchôa
Jornalista, radialista, especialista em assessoria de comunicação (com curso latu sensu na área) e mestre de cerimônia. Natural de Cajazeiras (Pb), foi lá que começou a carreira, no rádio, aos 16 anos de idade. Em 2000, concluiu a graduação em Comunicação Social (Jornalismo) na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Atualmente, lida com jornalismo jurídico voltado para a TV e a Rádio Justiça, além de ser freelancer em outros órgãos públicos, como a Câmara dos Deputados.
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