Rumo ao Oscar: “O Agente Secreto” reinventa a memória da ditadura no cinema

coluna | Pós-Créditos

Por: Demetrius Silva | coluna Pós-Créditos
16/09/2025 às 10h51 Atualizada em 06/03/2026 às 17h54
Foto: Vitrine Filmes / Victor Jucá

Ditadura, cinema e memória

Recife, 1977. Kleber Mendonça Filho cria uma imersão que prende o espectador e remete aos thrillers de espionagem dos anos 70. A trama acontece em plena ditadura militar, revelando um país que insiste em esquecer a janta fria do fascismo e destacando a importância da memória coletiva. 

Marcelo, interpretado por Wagner Moura em atuação que pode levá-lo ao Oscar, retorna à sua terra natal para enfrentar um passado que tenta enterrar. Quem o acolhe é Dona Sebastiana (Tânia Maria), figura de humor e respeito, que o esconde em seu condomínio.

O espaço, diverso em origens, funciona como refúgio improvisado. Marcelo é perseguido, mas o filme mantém o mistério sobre os motivos, criando uma atmosfera mais importante que a explicação em si.

O país retratado é politicamente decadente, onde traição e incompetência se misturam à violência de quem detém o poder. Pouco a pouco, descobrimos mais: o filho Fernando (João Vitor Silva) é o motivo central da volta, mas Marcelo precisa resolver pendências antes de ficar com ele. O sogro, Alexandre (Carlos Francisco), trabalha no Cine São Luiz, espaço em que Kleber retoma sua cinefilia, já explorada em Retratos Fantasmas.

Memória e perseguição

Sob disfarce, Marcelo busca pistas sobre sua mãe no Instituto de Identificação. Essa caçada traduz a importância do resgate da memória, tanto pessoal quanto histórica. É uma metáfora de um país corroído pela ditadura e pelo apagamento.

A alegoria dos tubarões, familiar aos recifenses, ganha força. Pode ser o Tubarão de Spielberg ou os tubarões do poder: delegados e burocratas. Entre eles está Ghirotti (Luciano Chirolli), funcionário do governo que encarna o preconceito contra nordestinos. Misógino, cruel, sem nuances, ele representa a repressão e a censura, despertando no público indignação.

Maria Fernanda Cândido surge como Elza, símbolo de organização política e resistência. Mesmo com pouco tempo em cena, reforça a ideia de subversão coletiva.

Carnaval e barbárie

O Carnaval adiciona ironia cruel ao retorno de Marcelo. A manchete “91 mortos no Carnaval” não choca os poderosos: é apenas estatística banal. O antagonista Euclides (Robério Diógenes) chega a afirmar que “ainda vai morrer mais”. A festa popular se torna cortina de fumaça, escondendo violência e banalizando a barbárie.

Udo Kier retorna em parceria com Kleber, agora como Hans, judeu alemão que fugiu do nazismo. No Brasil, porém, é confundido com um soldado nazista. A inversão cruel transforma vítima em algoz e reforça a crítica à manipulação da memória em tempos autoritários. Hans surge como símbolo de integridade e eco da diáspora judaica.

O Cine São Luiz volta a ser protagonista. Suas cenas evocam ecos de Cinema Paradiso em versão brasileira. A ficção aparece como ferramenta de sobrevivência: na perna encontrada dentro do tubarão, nos desenhos do filho de Marcelo, nas conversas de Dona Sebastiana ou nos tropeços dos vilões.

O Agente Secreto assume tom de pulp brasileiro, em que até o agente secreto é alguém da resistência, mas sem crachá,  secreto por agir fora do olhar do regime.

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho nas filmagens
foto: Victor Jucá

 

Grande chance

Em outubro de 2025, a Academia Brasileira de Cinema escolheu O Agente Secreto para representar o Brasil no Oscar 2026. A decisão era esperada: o longa já tinha distribuidora internacional e conquistou dois prêmios inéditos em Cannes, melhor ator para Wagner Moura e melhor diretor para Kleber Mendonça Filho. Quem sabe não seja a segunda estatueta de um país que precisa, enfim, deixar de fingir que esqueceu seu passado.

foto: Virtine FIlmes / Victor Jucá

Abertura em Brasília

No ano passado, o filme abriu o 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no Cine Brasília .A sessão de abertura reforçou a importância simbólica do filme, que além de premiado em Cannes, agora ganha espaço no festival mais tradicional do cinema nacional.

Assista ao trailer oficial

 

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Caio Há 1 ano BsbEstou super na torcida por esse filme!!
Fabíola SiamosHá 1 ano SPO Wagner Moura está impecável nesse filme. Assistam mesmo!
Ribamar Oliveira Há 1 ano Vitória Eu amei esse filme!!! Candidato fortíssimo ao Oscar!!!
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Demetrius Silva
Demetrius Silva
Formado em Publicidade e Cinema. Adoro assistir filmes e séries, mergulhando em histórias e universos diversos. Essa paixão me permite explorar diferentes narrativas e estilos visuais. Sou fascinado pela arte de contar histórias através da tela. É um prazer me perder em boas histórias.
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