Ao assistir Marty Supreme, não compreendi seu final de imediato. O filme pede digestão. Marty Mauser, interpretado por Timothée Chalamet, é um grande jogador de tênis de mesa norte-americano.
Tão talentoso quanto arrogante, ambicioso, imoral e, em muitos momentos, patético.
A direção de Josh Safdie, conhecido por Joias Brutas e Bom Comportamento, deixa ainda mais claro quem era o Safdie mais afetado da dupla que formava com o irmão Ben.
Josh sempre pareceu interessado em personagens que avançam sem freio, mesmo quando o abismo está escancarado à frente.
É impossível ignorar a polêmica envolvendo os irmãos Safdie após uma denúncia de maus-tratos feita por uma atriz de 17 anos durante as filmagens de Bom Comportamento, em 2017.
A informação não invalida o filme, mas adiciona uma camada incômoda quando se observa o prazer com que a narrativa flerta com limites éticos constantemente ultrapassados.
Há ecos evidentes de Joias Brutas na linguagem. A montagem caótica, o som invasivo e a sensação permanente de colapso criam um cinema que não quer conforto.
Em Marty Supreme, uma das transições mais emblemáticas leva o espectador de um beijo entre os protagonistas a uma viagem visual por espermatozoides em processo de fecundação.
Em Joias Brutas, o movimento é semelhante, quando uma opala negra retirada de uma mina na Etiópia se transforma, por associação, em um exame de colonoscopia. O gesto é claro. Safdie gosta de fundir o grandioso ao grotesco, o épico ao corporal.
Essa cena da fecundação não está ali por acaso. Ela ressoa diretamente no ato final do filme.
Marty é um mesa-tenista disposto a arriscar tudo, ignorando consequências, para disputar um campeonato em Tóquio. Ele engana todos ao seu redor com a mesma facilidade com que manipula a bolinha sobre a mesa. Seus argumentos são tão afiados quanto sua raquete.
Chalamet transborda em cena e entrega, até aqui, a melhor atuação de sua carreira, talvez o concorrente mais incômodo de Wagner Moura no Oscar 2026.
Fora das telas, o ator parece ter levado o método às últimas consequências, tornando-se o próprio Marty Mauser em entrevistas, acumulando declarações vazias e posturas insuportáveis, em uma campanha que beira a autoparódia. Tudo em nome do Oscar.
Nada disso, porém, retira o mérito do filme. Separando a obra do artista, Marty Supremeé eficaz ao narrar a trajetória de Marty Reisman, conhecido como The Needle, apelido que traduz tanto sua técnica de raquete dura quanto sua personalidade agressiva.
Curiosamente, o filme pouco se interessa pelo tênis de mesa em si. O esporte é apenas o motor inicial. O foco real está na obsessão pela vitória e na necessidade quase doentia de apagar a humilhação sofrida ao perder um campeonato anterior para um jogador japonês com deficiência auditiva.
Safdie preenche o filme com trilhas sonoras dos anos 1980, mesmo situando a história nos anos 1950. O anacronismo não é um capricho estético, mas uma estratégia de deslocamento.
Marty nunca pertence completamente ao tempo em que vive. Isso também se manifesta em falas como “sou o produto final da derrota de Hitler”, uma frase que expõe como os Estados Unidos absorveram imigrantes judeus e os converteram em símbolos de ambição extrema, eficiência e triunfo a qualquer custo.
Tudo isso se entrelaça com Rachel, vivida por Odessa A'zion, parceira do beijo citado anteriormente, Kay Stone, interpretada por Gwyneth Paltrow, uma atriz decadente que se envolve romanticamente com Marty quase por inércia, o ricaço Rockwell, vivido por Kevin O'Leary, que o estimula a transformar sua imagem em mercadoria para vender canetas, um mafioso interpretado por Abel Ferrara (que este, envolve uma das cenas mais absurdas do filme), uma banheira em um hotel caindo aos pedaços e um cachorro.
O ritmo é frenético e ambicioso, exatamente como o protagonista. Há pouquíssimos momentos de calmaria, e cada decisão desencadeia algo potencialmente desastroso. Safdie aposta no incontrolável, empurrando a narrativa para territórios onde o espectador jamais tem certeza do próximo passo.
Alguns torcem por Marty. Outros se angustiam com suas escolhas tomadas de decisões tão equivocadas e egoístas. Quanto mais o filme amadurece na mente, mais clara fica a associação. Marty Mauser não é apenas um personagem. Ele é uma metáfora.
Perder não faz parte do sonho americano, formulado pelo historiador James TruslowAdams (em seu livro The Epic of America (1931).
Marty incorpora esse ideal em sua versão mais crua e perigosa. Ele é carismático, talentoso e insuportável ao mesmo tempo. Assim como certos traços da identidade dos Estados Unidos, combina “genialidade” com arrogância, inovação com destruição e vitória como justificativa moral absoluta.
Essa leitura se torna ainda mais evidente no desfecho. Mesmo após todas as manipulações, Marty é premiado com a paternidade. O nascimento de seu filho com Rachel é filmado como um momento de pura emoção, quase redentor.
No entanto, o gesto não nasce de transformação genuína. Marty reconhece a paternidade por puro sofisma, apenas para não sair perdendo. Ele se reposiciona como o homem correto, o vencedor moral, ignorando todas as consequências de seus atos anteriores. É a encenação do arrependimento, não o arrependimento em si.
Aqui, o filme atinge sua camada mais desconfortável. Marty age como os Estados Unidos em sua política externa recorrente, intervindo, destruindo, desestabilizando e, ao final, reescrevendo a narrativa para ocupar o papel do salvador. Lares são destruídos, culturas são apagadas e, ainda assim, o discurso oficial insiste na ideia de boa intenção.
Marty Supreme é um filme potente sobre um personagem asqueroso que recebe mais uma chance. Não porque mudou, mas porque o sistema recompensa quem sabe manipular o jogo.
Marty seguirá fazendo o que faz de melhor. Enganar, extorquir e destruir. A diferença é que agora ele tem uma nova história para contar sobre si mesmo.
E talvez seja exatamente isso que o filme queira nos perguntar, sem jamais responder de forma confortável.
Quantas vezes a vitória serve apenas para encobrir o estrago deixado pelo caminho? Quantas paternidades simbólicas são reconhecidas apenas para limpar a própria imagem? Marty vence, sim. Mas o que sobra quando a vitória é apenas mais uma forma de fuga?
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