A Copa chegou, frio na barriga, pessimismo com a seleção, um país dividido até no futebol. Mas o futebol é o sincretismo do povo brasileiro, e isso não se perde em confraria a cada quatro anos.
Tem a glória, tem a tragédia, tem o coletivo e tem o gênio solitário que carrega o time nas costas.
O cinema percebeu isso faz tempo. Por isso separei seis obras para você assistir entre um jogo e outro, do documentário experimental que parece exposição de museu à cinebiografia que dói, da poesia do drible à ferida política que ainda não cicatrizou. Bora?
A mais leve e, ao mesmo tempo, a mais humana da lista. Eric é um carteiro de Manchester com a vida em frangalhos, afundado numa crise que ele nem sabe nomear, até que começa a receber a visita (meio real, meio delírio) do seu maior ídolo: Eric Cantona, lenda do Manchester United, fazendo ele mesmo na tela.
O futebol aqui é a desculpa, o verdadeiro jogo é sobre amizade, depressão e a coragem de recomeçar. Ken Loach, que é o mestre do realismo social britânico, sabe como ninguém que o esporte também é aquilo que nos segura de pé quando o chão some. Dirigido por Ken Loach (de Eu, Daniel Blake).
Onde assistir: Prime Video
A Copa de 1954 contada pelos olhos de uma Alemanha em escombros, tentando se reerguer dos cacos da guerra.
O filme costura a campanha improvável da seleção alemã, aquela zebra que ninguém deu nada, com a história de um menino e seu pai, um soldado que volta do cativeiro soviético sem saber mais como olhar para a própria família.
Futebol como reconstrução de um país inteiro e, ali no miudinho, de um afeto perdido entre pai e filho. Sentimental? Demais. Mas funciona, e funciona bonito. Dirigido por Sönke Wortmann.
Onde assistir: Sem streaming fixo no momento (costuma circular em mostras e no YouTube; confira a disponibilidade atual)
Aqui, o futebol transcendental de Zidane, com seu controle de bola magnético e sua elegância (e um carrasco da seleção brasileira), é intensificado por este doc quase experimental.
A proposta é um tanto diferente do que costumamos ver, mas é um exercício interessante pro audiovisual: dezessete câmeras grudam no craque francês durante uma partida inteira, do apito ao apito, pouco se importando com a bola, com o gol ou com o placar.
O que interessa é ele, a respiração, o suor escorrendo, o tédio entre uma jogada e outra, a explosão repentina. Com trilha do Mogwai dando esse peso melancólico, é menos um filme sobre futebol e mais um ensaio sobre presença, solidão e o corpo do atleta exposto como espetáculo. Não é para todo mundo, eu sei, mas para quem se entrega é hipnótico. Dirigido por Douglas Gordon e Philippe Parreno.
Onde assistir: Sem opção de streaming no Brasil atualmente (disponível em mídia física / importado)
Não dá para falar de futebol e cinema brasileiro sem passar por esse clássico. Joaquim Pedro de Andrade, um dos grandes do Cinema Novo, filma o Anjo das Pernas Tortas no auge, mas vai muito além do craque em campo.
O filme é um ensaio sobre o povo brasileiro, sobre o que faz a arquibancada chorar e rir junto, e sobre essa relação quase cruel entre o gênio e a multidão que ama, idolatra e depois consome. Garrincha driblava como nenhum outro e sofria como qualquer um de nós.
Obra fundamental, dessas que todo brasileiro devia ver pelo menos uma vez. Dirigido por Joaquim Pedro de Andrade (de Macunaíma).
Onde assistir: Globoplay e Telecine
Asif Kapadia, o mesmo de Senna e Amy, faz aqui o que sabe fazer de melhor: montar uma narrativa que te engole inteiro só com imagens de arquivo, sem narração em off, sem aquela cabeça falante de documentário preguiçoso.
O foco são os anos de Maradona em Nápoles, quando um deus do futebol desembarca numa cidade pobre e desprezada do sul da Itália e vira santo, padroeiro, milagre ambulante, até despencar. Drogas, máfia, glória e ruína no mesmo balaio.
É tragédia grega contada em chuteira, a distância dolorosa entre Diego, o menino, e Maradona, o mito que acabou devorando o homem. Dirigido por Asif Kapadia.
Onde assistir: Netflix e Prime Video
E como é que eu ia fechar essa lista sem ela, que estreou bem no embalo da Copa? A minissérie da Netflix reconstrói a campanha da seleção de 1970 no México, que para muita gente (puxa orelha de pai e avô aqui) foi o maior time que já pisou num gramado: Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho, Rivellino, Carlos Alberto Torres. Mas o que faz a obra ser mais que nostalgia embalada para vender saudade é o pano de fundo.
O Brasil vivia a ditadura militar, e a camisa amarela, essa mesma que a gente vê sequestrada por discurso autoritário ainda hoje, era disputada no tapa entre o regime que queria pendurar a taça no peito e o povo, que sempre foi o dono legítimo dela. Rodrigo Santoro brilha como João Saldanha, o jornalista e técnico comunista que foi afastado do comando da seleção, e a série conversa com o nosso presente sem pedir licença.
É pop, é ficção, tem seus exageros como toda boa paixão nacional permite, mas acerta no que precisa acertar: lembrar que aquele sincretismo da abertura, a maior alegria do nosso futebol, nasceu bem no meio do nosso período mais sombrio. E que a camisa, no fim, é sempre do povo. Dirigida por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles.
Onde assistir: Netflix