Desde o anúncio, no fim de 2019, muita coisa precisou acontecer para esse projeto, enfim, ganhar forma. A greve do sindicato SAG-AFTRA, em 2023, foi o primeiro grande obstáculo.
Depois veio o ponto mais delicado, quase um roteiro paralelo acontecendo fora das telas: um acordo firmado nos anos 1990 que, segundo a Vanity Fair, impediria o filme de retratar ou até nomear Jordan Chandler. Foi a partir daí que a produção precisou recuar, cortar, reescrever e refilmar.
O impacto disso é direto na espinha do filme. O que se vende como um retrato amplo vira um recorte seguro. A história é reorganizada para evitar zonas de conflito mais profundas, e o resultado é um longa que opta por preservar a imagem em vez de tensioná-la. O que coloca a obra em uma enorme bagunça.
MICHAEL é potente quando decide ser sobre arte. A infância é tratada como um campo de formação brutal, com Joe Jackson (pai do Michael) funcionando como força motriz e opressora. Colman Domingo entrega presença, mas o personagem parece contido, como se o filme hesitasse em mergulhar de fato na violência emocional que ele representa.
O primeiro ato é o ponto alto. Juliano Valdi não faz uma imitação, ele constrói um Michael em formação, com técnica e fragilidade convivendo em cena. Há verdade ali. Quando Michael cresce, o personagem dá lugar ao seu sobrinho, que conquistou o papel pela impressionante semelhança e pela forma como dança e se comporta como o próprio tio.
Assista o trailer oficial:
Jaafar Jackson entrega carisma e talento, e é empolgante, como aconteceu em Bohemian Rhapsody, revisitar momentos de shows e videoclipes que marcaram uma geração, além de continuar levando um público mais jovem ao êxtase com suas coreografias e canções emblemáticas.
Nas sequências de shows e videoclipes, MICHAEL se impõe. Figurino, direção de arte, reconstrução de época, tudo opera em alto nível. O filme entende o espetáculo e sabe reproduzi-lo com precisão. Há um prazer quase automático em revisitar essas imagens, como se o longa soubesse exatamente onde tocar o público.
Mas quando precisa construir drama, ele se perde.
A narrativa acumula eventos, sugere conflitos, mas raramente os desenvolve até o fim.
Situações entram e saem de cena sem consequência, personagens aparecem sem arco claro, e o roteiro passa a sensação de um mosaico desordenado. Em vez de progressão, há dispersão. Em vez de aprofundamento, há recuo.
Algumas escolhas escancaram isso. John Branca ganha um espaço considerável, enquanto Quincy Jones, peça fundamental na construção do som de Michael, aparece de forma surpreendentemente tímida.
A balança pende para o administrativo, quando o que deveria pesar é o processo criativo. É uma inversão difícil de justificar.
O sentimento ao assistir MICHAEL é uma mistura de fascínio e frustração. Fascínio porque a figura artística ainda é magnética, impossível de ignorar. Frustração porque o filme, conscientemente, evita os pontos de ruptura que dariam densidade à narrativa. É justamente aí que o longa se revela por completo.
MICHAEL não é um filme desinteressado. Pelo contrário. Ele é cuidadoso, tecnicamente sólido, visualmente sedutor. Mas é também um filme que escolhe onde pode e onde não pode pisar. E, ao fazer isso, abre mão de algo essencial: o conflito como motor dramático.
No fim, o que fica é um retrato que funciona como celebração, mas hesita como investigação. O espetáculo está lá, intacto, grandioso, reconhecível. Mas Michael Jackson nunca foi só espetáculo. Era também tensão, excesso, contradição. E quando o filme decide não encarar isso de frente, ele não protege o homem. Ele limita a própria obra.
Ficha técnica
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Produção: Graham King, John Branca, John McClain
Elenco principal:
Jaafar Jackson
Colman Domingo
Nia Long
Miles Teller
Laura Harrier
Juliano Valdi