Stephen King é conhecido como o mestre do terror, o criador de pesadelos literários que ficam rondando a mente mesmo depois de fechar o livro. Mas quem acompanha sua obra de perto sabe: ele é, acima de tudo, um grande contador de histórias sobre gente, sobre humanidade.
Mesmo nos enredos mais sombrios, há sempre uma fresta de esperança, uma centelha de compaixão, um lembrete de que a vida, apesar de tudo, vale ser celebrada. Quem não se lembra da força da amizade em Um Sonho de Liberdade ou da beleza trágica de À Espera de um Milagre? Até mesmo em filmes como O Nevoeiro e Carrie, a Estranha, o horror nunca está sozinho: ele é pano de fundo para mostrar o melhor, e também o pior de nós.
A Vida de Chuck segue essa linha. Baseado no conto presente na coletânea Com Sangue, o enredo começa pelo fim. Sim, King tem a ousadia de abrir a história com o apocalipse. E, ainda assim, consegue encher esse cenário de ternura e significado.
O filme, dirigido por Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill, Missa da Meia-Noite), abre com um poema de Walt Whitman, A Canção de Mim Mesmo. Nos versos, Whitman celebra a imensidão de cada ser humano e sua ligação com o universo:
“Eu sou grande, contenho multidões.”
“…cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.”
Esses trechos traduzem bem o espírito de King. Um autor que acredita que somos feitos de histórias entrelaçadas, de memórias que pertencem a todos. Flanagan entende isso como poucos. Depois de adaptar Gerald’s Game e Doutor Sono, ele mergulha novamente na obra de King, agora para explorar a profundidade interior de Chuck. Um homem comum, mas que carrega universos inteiros dentro de si.

Posso até parafrasear Stephen Hawking em O Universo Numa Casca de Noz: assim como ele dizia que todo o cosmos cabe em algo minúsculo, Flanagan mostra que todo um universo cabe dentro de uma vida humana. Cada memória, cada experiência, é um “cosmo pessoal”. O filme ainda cita Carl Sagan e seu Cosmos, lembrando que o universo existe dentro de nós, e que a vida humana é parte da vastidão cósmica. Chuck é esse cosmo em escala íntima: um homem pequeno diante do fim do mundo, mas cuja vida inteira é motivo de celebração.
A estrutura da narrativa é hipnotizante. Primeiro vemos ruas desertas, o mundo acabando, e uma atmosfera melancólica. Mas surge um detalhe curioso: cartazes, outdoors e comerciais de TV exibem a mesma mensagem — “39 GRANDES ANOS! OBRIGADO, CHUCK!” — acompanhada do rosto de Tom Hiddleston, o eterno Loki do MCU. É impossível não se perguntar: quem é esse Chuck? E por que o mundo agradece a ele justamente agora?
Flanagan, como bom contador de histórias, não apressa a resposta. O segundo ato mergulha no passado do personagem, e a cada cena também investigamos a nós mesmos. A Vida de Chuck não é sobre medo, mas sobre redescobrir a grandeza de existir. É sobre encontrar significado, mesmo quando tudo parece chegar ao fim.
Nos bastidores, há detalhes que só tornam a experiência mais especial. A cena de dança, um dos momentos mais catárticos do filme, foi coreografada por Mandy Moore (La La Land). Gravada sob um calor escaldante no Alabama, fez até o solado do sapato de Hiddleston queimar no asfalto. Flanagan contou que esse número foi pensado para capturar o “puro prazer de estar vivo”, e que era impossível filmar sem sorrir atrás das câmeras.
E o próprio Stephen King? Ao ver o corte final, disse que o longa é “uma celebração sem uma pitada de cinismo”. Vindo de um autor conhecido por finais amargos, essa frase diz muito. Não é exagero afirmar que A Vida de Chuck é um dos trabalhos mais humanos de toda a sua trajetória.
O resultado é um filme emocionante, contemplativo e necessário. Ao sair da sala, a sensação é de que recebemos um presente: a lembrança de que cada instante, cada memória, cada encontro é parte de algo muito maior.