Um romance é apenas uma história de amor?

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Por: Emílio Silveira | coluna Páginas e Literatura
13/08/2025 às 06h00 Atualizada em 04/09/2025 às 09h03

Um romance é apenas uma história de amor. Um romance é apenas uma história de amor?

Ontem sentei com um amigo e disse que estava lendo Se um viajante numa noite de inverno, um romance do italiano Ítalo Calvino. “Agora, além de relatos de viagem, você gosta de ler histórias de amor que se passam em viagens?”, ele perguntou. Lembrei-me de Milan Kundera, o escritor tcheco autor de A insustentável leveza do ser.

Kundera tem no romance um modo específico de explicar e descobrir a existência humana. Melhor dizendo: de descobrir e explicar a existência humana. Nesse sentido, é existencialista, mas bastante a seu modo, desvencilhando-se da criação de conceitos filosóficos estanques e abstratos (como se vê em Heidegger e Sartre). Em minha visão, Kundera desce aos escombros da existência, concretamente considerada, mesmo que encarnada em grandes cenários (da História, da Ciência, da Metafísica, do Progresso etc.).

Logo na entrada de sua Arte do Romance, título aliás bastante intrigante, já que não se trata de uma Teoria do Romance, tampouco, e muito menos, de uma Ciência do Romance, Kundera delineia o papel ou papéis que tem o romance: “o romance acompanha o homem constante e fielmente desde o princípio dos Tempos Modernos. A ‘paixão de conhecer’ (...) se apossou dele então para que ele perscrute a vida concreta do homem e a proteja contra ‘o esquecimento do sei’; para que ele mantenha ‘o mundo da vida’ sob uma iluminação perpétua”.

Entregando-me a esquemas cartesianos, o Romance é, pois: i) um “companheiro” do homem, desde o início dos Tempos Modernos (especialmente com Cervantes, quando o sujeito é colocado como provedor de significados em relação ao mundo); ii) uma forma de investigar a vida concreta do homem — e não abstrata, por meio de teoremas explicativos; iii) uma forma de evitar o esquecimento, sendo, portanto, um aliado na preservação da memória humana; iv) uma forma de evitar a “fossilização” da vida que, diferentemente do esquecimento (que a extirpa por completo), retira o material pulsante em que se dão as relações humanas.

Curiosamente, fui entender mais profundamente essas afirmações de Kundera lendo O Túnel, do argentino Ernesto Sábato, que tocou de perto, assim como Kundera, o problema da representação romanesca e da própria vida: o ser humano é contraditório e não representa as angústias do dia a dia sob a forma de ideias puras. E, se assim é, torna-se necessário um instrumento ambivalente e contraditório, elástico o suficiente que capte esse movimento. Em Heterodoxia, Sábato relata como o problema lhe apareceu quando escrevia O Túnel:

“Minha ideia inicial era escrever uma história, a história de um pintor que enlouqueceu por não conseguir se comunicar com ninguém, nem mesmo com a mulher que parecia entendê-lo através de sua pintura. Mas, ao acompanhar o personagem, descobri que ele se desviava consideravelmente desse tema metafísico para ‘descer’ a problemas quase triviais de sexo, ciúme e crime. Esse desvio não me agradou nem um pouco, e considerei repetidamente abandonar uma história que se afastava tão decisivamente do que eu pretendia. Mais tarde, compreendi a raiz do fenômeno. É que seres de carne e osso jamais podem representar ansiedades metafísicas no estado de ideias puras: eles sempre o fazem encarnando essas ideias, obscurecendo-as com sentimentos e paixões. Seres carnais são essencialmente misteriosos e movidos por impulsos imprevisíveis, mesmo para o escritor que serve de intermediário entre esse mundo estranho, irreal, mas verdadeiro, da ficção e o leitor que acompanha seus dramas.” (Heterodoxia, 1953, Sobre el Túnel. Tradução livre).

Também Kundera percebe como se dá a história humana, que é a história de indivíduos antes da de engrenagens maiúsculas da História, Filosofia, Sociologia, Física, Matemática (o próprio Sábato vem da matemática, aliás). Em Kundera, as palavras, que rotulam conceitos, passam pelo filtro do escritor, que procura desvendar o significado localizado de que se reveste.

Interesse notar que também o escritor tcheco se realiza do que está fazendo no momento mesmo em que o faz, o que corrobora sua fala quanto ao companheirismo de que o romance se imbui: “Ao escrever A insustentável leveza do ser me dei conta de que o código desse ou daquele personagem é composto de algumas palavras-chave. Para Tereza: o corpo, a alma, a vertigem, a fraqueza, o idílio, o paraíso”.

Se o significado das palavras é analisado no mundo concreto, isso não afasta a possível universalidade — ou aplicação em outros casos, digamos — que possa tomar. Citamos a personagem Tereza, da Insustentável Leveza do Ser, na qual o narrador se aprofunda para entender o que é vertigem. Kundera tira algo de um caso concreto para poder entender o que é o humano em suas ambivalências — lembremos que a mãe de Tereza, belíssima, por ter sido abandonada e traída pelo ex-marido, passa a desprezar o corpo e isso repercute na filha e nas idas e vindas desta com o amor. Sobre a palavra vertigem, assim escreve Kundera no romance em questão:

“O que são vertigens? Medo de cair? Mas então por que é que temos vertigens num miradouro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor”.

Não está em jogo aqui se esse conceito de vertigem é ou não verdadeiro. É mais sutil do que as verdades absolutas: é uma problematização artística a partir da experiência de cada um, com a qual podemos ou não nos identificar.

“Gosto de viagens, gosto de amor”, respondi. “E de romances”, pensei.

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*A republicação é gratuita desde que citada a fonte. Citação formato ABNT: 
SOBRENOME, Nome do Autor. Título do Artigo. Lead Notícia, 2025. Disponível em: [inserir o link da página do artigo]. Acesso em: [data].

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MoraesHá 1 ano Fortaleza Me fez repensar o que penso sobre romances
João Pedro Há 1 ano Paraná (PR) Li e Fiquei com vontade de conhecer esses autores.
Carla Menezes Há 1 ano Bahia gostei demais do texto! Nunca tinha pensado que um romance podia mostrar tanto sobre a vida
Marcos Vinícius Almeida Há 1 ano Pernambuco (PE)Excelente reflexão. Kundera e Sábato dialogam como companhia filosófica; este ensaio revive suas ideias com elegância e sensibilidade.
Helena Duarte Há 1 ano São PauloEste texto me fez redescobrir o romance não como narrativa de amor, mas como instrumento que ilumina a existência. Genial!
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Emílio Silveira
Emílio Silveira
Mestre em Literatura pela UnB e pesquisador em literatura comparada. Formado também em Direito pela UFMG, atua há mais de 20 anos como advogado, além de exercer o cargo de analista legislativo no Senado Federal. Une conhecimento jurídico e paixão pela literatura para analisar propostas legislativas, causas judiciais e textos literários. Política, Direito e Literatura — tudo em conexão.
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