Nas últimas semanas, diversas séries de TV foram lançadas nas plataformas de streaming e têm se destacado por diferentes motivos: produções bem realizadas, temas instigantes e estilos variados que agradam a públicos diversos. Se você está em busca de boas opções para começar uma nova maratona, confira algumas sugestões que selecionamos aqui no Lead:
CORTINA DE FUMAÇA
A série Cortina de Fumaça está na Apple TV+. A produção é inspirada no podcast estadunidense Firebug, produzido por Kary Antholis e dedicado ao caso real do investigador e incendiário serial John Leonard Orr, responsável por mais de dois mil incêndios na Califórnia e condenado por arsonismo e quatro homicídios.
Dennis Lehane, criador da série e produtor executivo, declarou ao TIME que o que o fascinou em Firebug não foi apenas os incêndios, mas “a área emocional louca que os rodeia” e que isso é o que “ele estava mirando”.
A trama é ambientada na cidade fictícia de Umberland, no Noroeste dos EUA. Dave Gudsen, interpretado por Taron Egerton, é um investigador de incêndios do Corpo de Bombeiros, e se une à detetive Michelle Calderone, personagem de Jurnee Smollett, para rastrear dois incendiários que aterrorizam a região. A dinâmica entre os dois explora medos pessoais, tensão e identidade fragmentada.
A série também se destaca pela trilha sonora inquietante, incluindo a música “Dialing In” de Thom Yorke, que reforça a atmosfera tensa e introspectiva (AP News). A fotografia e direção de Kari Skogland conferem textura visual que dialoga com os temas éticos e psicológicos que permeiam a trama (The Australian).
Recomendo evitar assistir ao trailer antes de ver os episódios iniciais, pois ele revela elementos importantes que ganham impacto na experiência completa da série.
Cortina de Fumaça não é apenas uma investigação de incêndios. É um mergulho estilizado e perturbador num estudo de caráter, identidade e negação. Disponível aos domingos na Apple TV+.
CHESPIRITO – FOI SEM QUERER QUERENDO
Conta a história de Roberto Gómez Bolaños (interpretado pelo ator mexicano Pablo Cruz), criador de Chaves e Chapolin, ícones da televisão mexicana que conquistaram enorme fama no Brasil e até hoje são adorados por muitos. Com ritmo de novelinha gostosa de assistir, a série mostra desde a infância de Bolaños até o gigantesco sucesso com seus personagens.
Com uma montagem esperta, que mistura infância, juventude e vida adulta já nos primeiros episódios, a série retrata não só os perrengues para produzir seus programas, mas também o afastamento da família e o envolvimento com Dona Florinda, a atriz Florinda Meza que, para se precaver de possíveis processos, teve o nome da personagem alterado para Margarita Ruíz. O mesmo acontece com o intérprete do Quico (Juan Lecanda), que de Carlos Villagrán passou a se chamar Marcos Barragán.
Florinda Meza, viúva de Bolaños na vida real, tem usado suas redes sociais para comentar cada episódio, quase sempre contestando o que a série mostra. Ela desaprovou o roteiro e a forma como foi retratada. Criada pelos filhos do comediante, a série nasce do desejo de homenagear o pai e, ao mesmo tempo, mostrar os bastidores de sua trajetória com mais autenticidade, incluindo as dores, os conflitos familiares e as decisões difíceis por trás do sucesso. Seguindo o estilo clássico dos filmes biográficos, a produção revela um artista genial, mas também um homem consumido pelo trabalho, distante da esposa e dos filhos.
RAUL SEIXAS: EU SOU
A minissérie Raul Seixas: Eu Sou retrata, ao longo de oito episódios, a trajetória fascinante e turbulenta de um dos maiores ícones da música brasileira. Com uma narrativa minuciosa da vida do artista, com momentos marcantes da carreira e o declínio causado pelos seus vícios, a série mergulha fundo na complexa personalidade de Raulzito.
Interpretado com intensidade pelo magnético Ravel Andrade, Raul ganha vida na tela com todas as suas contradições: o gênio criativo, o provocador, o místico, o anárquico. A série mostra desde seus primeiros passos como produtor musical, como quando ajudou a lançar Bloco na Rua, de Sérgio Sampaio, até seu envolvimento com o esoterismo e a filosofia alternativa, que influenciaram fortemente sua obra.
Um dos pontos altos da narrativa é a conturbada, mas frutífera, parceria com o escritor Paulo Coelho, vivido por João Pedro Zappa, cuja caracterização impressiona pela semelhança vocal e gestual. Juntos, criaram clássicos como Gita e Sociedade Alternativa, inspirados na filosofia de Aleister Crowley e no desejo de contestar o sistema.
A produção ainda resgata momentos marcantes, como suas participações no Fantástico, suas influências do baião misturadas com o rock’n’roll, e a gênese de canções como Meu Amigo Pedro, Maluco Beleza e outras joias do repertório raulseixista.
Com uma direção sensível e ritmo envolvente, Raul Seixas: Eu Sou é uma verdadeira pérola audiovisual. Para fãs e curiosos, é uma chance de revisitar (ou descobrir) o universo de um artista que nunca se encaixou em rótulos e talvez por isso mesmo tenha se tornado eterno. Disponível no Globoplay.
THE BEAR: QUARTA TEMPORADA
Depois de uma terceira temporada que deixou um certo gosto amargo, como pagar caro por um prato sofisticado e sair insatisfeito, The Bear retorna mais afiada em sua quarta temporada. A série acompanha Carmy (Jeremy Allen White), um jovem chef talentoso e obsessivo que herdou o restaurante decadente do irmão e tenta transformá-lo em um ponto gastronômico de alto nível.
Agora, com o restaurante reformulado e a equipe cada vez mais pressionada, a busca pela cobiçada Estrela Michelin se torna o novo objetivo. Quase uma obsessão para Carmy, essa missão não é apenas profissional: é uma forma de provar algo para si mesmo, para sua equipe e talvez até para o fantasma do irmão que deixou para trás.
A quarta temporada mergulha ainda mais fundo nas relações tensas da cozinha, no perfeccionismo exaustivo do protagonista e nos dramas pessoais de personagens como Sydney (Ayo Edebiri), Richie (Ebon Moss-Bachrach) e Tina (Liza Colón-Zayas). A série segue com sua estética nervosa, montagem acelerada e diálogos intensos, uma experiência quase sensorial para quem assiste.
Para quem sofre de ansiedade, o aviso continua: respire fundo antes de dar o play. Mas se você gosta de uma trama bem escrita, com atuações poderosas e emoção à flor da pele, The Bear segue sendo um dos pratos mais marcantes do streaming atual. A quarta temporada está disponível no Disney+.
SANDMAN: SEGUNDA TEMPORADA
Apesar das polêmicas envolvendo denúncias graves relacionadas a Neil Gaiman, suas histórias permanecem vivas. Sandman é um dos quadrinhos mais cultuados da DC Comics, criado no final dos anos 1980, e escrito para um público adulto. A obra gira em torno dos Perpétuos, entidades cósmicas que personificam aspectos fundamentais da existência: Destino, Morte, Destruição, Desejo, Desespero, Delírio e, claro, o próprio Sonho.
Sandman, também conhecido por inúmeros nomes como Morpheus, Oneiros, Senhor dos Sonhos e Kai’ckul, assume diferentes formas conforme o olhar de quem o invoca. É ele o protagonista da série, uma figura solene, poderosa e introspectiva, que transita entre mundos reais e imaginários, afetando a vida dos humanos e das próprias divindades.
A segunda temporada da adaptação da Netflix foi dividida em duas partes. A primeira já encantou o público com histórias inspiradas em mitologias diversas, trazendo reflexões profundas sobre humanidade, perdas e desejos. A segunda parte estreou nesta última sexta-feira e aprofunda ainda mais os dilemas do Senhor dos Sonhos.
Apesar de seu visual deslumbrante e atuações sólidas, a série tem alguns tropeços de representação, como por exemplo a personagem Desespero, retratada como uma mulher obesa que veste roupas apertadas, em uma escolha que pode sugerir estereótipos desnecessários e que pouco acrescentam à narrativa.
Ainda assim, Sandman segue como uma adaptação visualmente ousada, cheia de simbolismo e densidade emocional. Uma experiência que mistura fantasia sombria com questões existenciais. A série está disponível na Netflix.
DEXTER: RESURRECTION
Pode até parecer cedo para cravar qualquer julgamento, mas até o 4º episódio lançado, Dexter: Resurrection já demonstra um retorno às raízes que consagraram a série como uma das favoritas entre os fãs de histórias sombrias e psicologicamente complexas. O serial killer que mata outros serial killers está de volta, e, desta vez, com um rumo que pode, enfim, fazer jus ao legado deixado para trás.
A nova temporada parte exatamente de onde Dexter: New Blood terminou, uma tentativa controversa de encerrar a trajetória do personagem que, para muitos fãs, apenas aprofundou a frustração. Agora, com a aparição de Harrison Morgan, o filho de Dexter, a narrativa ganha um novo ânimo. O jovem carrega não apenas a sombra do pai, mas também sinais de que pode ser mais do que apenas um coadjuvante em sua história. Há uma tensão crescente, uma conexão emocional e psicológica que reacende o que Dexter sempre soube fazer de melhor: explorar a fronteira entre o bem e o mal dentro de seus protagonistas.
Com direção segura, roteiro afiado (sem trocadilho) e aparições que deixa a série mais glamorosa, como a participação de Uma Thurman, Krysten Ritter e Peter Dinklage, Dexter: Resurrection resgata o peso dramático dos melhores anos da série.
Mas a pergunta que paira no ar, episódio após episódio, é inevitável: desta vez, será que Dexter finalmente terá um desfecho digno?