Eleição 2026: o eleitor ficou sem resposta

O impacto das ausências e das decisões judiciais do debate que não existiu

Por: Eduardo Moura | coluna Em Conexão
02/10/2026 às 09h29 Atualizada em 02/10/2026 às 09h56

Moro em Buenos Aires, acompanho diariamente o que acontece no Brasil e, neste domingo, vou votar aqui para presidente.

A distância não dimini meu vínculo com o país e nem a preocupação com quem vive nele. 

No domingo, 4 de outubro, mais de 158,7 milhões de brasileiros estarão aptos a votar.

Na reta final da campanha, perderam uma oportunidade de comparar propostas e observar os candidatos à Presidência diante de perguntas que não poderiam controlar.

Dentro e fora do Brasil, quem saiu perdendo foi o eleitor.

Debate da Globo cancelado

Seria simplificar o episódio atribuir tudo à ausência de Lula. O presidente já havia informado que não compareceria.

Flávio Bolsonaro, que estava confirmado, desistiu horas antes, alegando censura após uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral.

Ao mesmo tempo, decisões judiciais alteraram as regras do encontro. A Globo anunciou o cancelamento sob o argumento de insegurança jurídica.

As responsabilidades são diferentes, mas convergem no prejuízo imposto ao público. Quem disputa a Presidência precisa aceitar perguntas que não escolheu, ouvir críticas que não controla e explicar propostas diante de adversários.

Evitar esse confronto pode ser conveniente para a campanha, mas deixa o eleitor com menos elementos para decidir.

Esse é o problema de tratar a participação em debates apenas como cálculo eleitoral. A campanha avalia quanto seu candidato pode perder, quando deveria considerar também o que deve à sociedade.

Quem pede o voto para governar milhões de pessoas precisa demonstrar disposição para prestar contas antes de chegar ao poder.

Um debate pode se perder em ataques pessoais, mas ainda permite testar promessas.

Quanto custará determinada medida? De onde virá o dinheiro? Por que uma solução anunciada agora não foi adotada antes? A resposta sob pressão ajuda a revelar o que a propaganda cuidadosamente editada costuma esconder.

estúdio TV Globo 

 

Decisões do TSE e do STF

O Judiciário acrescentou outro problema a esse cenário. A ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a exibição do púlpito vazio de Lula e perguntas dirigidas ao candidato ausente, embora essas possibilidades constassem das regras acordadas pelas campanhas.

O argumento foi evitar desequilíbrio diante da impossibilidade de resposta. Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, determinou a inclusão de Renan Santos. Dias antes, Nunes Marques havia assegurado a participação de Romeu Zema.

Garantir direitos e corrigir irregularidades faz parte da função da Justiça. Isso exige, também, decisões previsíveis e fundamentos claros, sobretudo quando elas alteram um debate pouco antes da transmissão.

Quando regras previamente acertadas são modificadas na última hora, os tribunais precisam responder pelos efeitos dessas intervenções sobre o direito do público à informação.

Naquela noite, o espaço reservado à discussão sobre saúde, emprego e segurança acabou ocupado por uma disputa sobre púlpitos, convites e liminares.

A Justiça ganhou protagonismo, os candidatos trocaram acusações e as perguntas que interessavam à população ficaram sem resposta.

Também é difícil aceitar que a ausência de um candidato justifique a retirada de outro. O compromisso de quem comparece deve ser com o cidadão que deseja ouvi-lo.

A eleição não pertence exclusivamente aos favoritos, e os demais concorrentes têm propostas que precisam ser examinadas.

 

O prejuízo para o eleitor

O episódio expõe uma inversão preocupante. As campanhas calculam o risco de responder, os tribunais discutem as condições do confronto.

Já o eleitor perde uma oportunidade de avaliar quem pretende governá-lo. Pede-se à população que escolha com responsabilidade, enquanto se reduz o espaço para uma escolha informada.

É por isso que vou votar em Buenos Aires neste domingo. A frustração com a campanha não elimina minha responsabilidade com o futuro do Brasil.

Ela reforça a necessidade de examinar propostas, trajetórias e a disposição de cada candidato para prestar contas. A recusa em debater também deve entrar nessa avaliação.

Há um limite para a paciência de quem acorda antes do sol, pega ônibus lotado e chega ao hospital sem conseguir atendimento.

Para esse cidadão, as consequências das decisões do poder aparecem no salário que não alcança o fim do mês, na demora por uma consulta e nas horas perdidas no transporte.

É cansativo acompanhar uma política que exige tanto da população e oferece tão poucas respostas, enquanto o Judiciário se torna personagem frequente dos conflitos que deveria ajudar a resolver.

Quem trabalha, paga suas contas e enfrenta essas dificuldades merece mais do que assistir a uma nova disputa entre autoridades.

Na noite em que poderia cobrar explicações dos candidatos a presidente, ficou esperando.

 

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Eduardo Moura
Eduardo Moura
Jornalista com experiência na cobertura de temas ligados ao Poder Judiciário, política e comunicação institucional. Atuou em veículos como TV Globo, TV Justiça, Record e EBC, além de ocupar cargos de coordenação em órgãos como o Superior Tribunal de Justiça e o Tribunal Superior Eleitoral. Atualmente, mora em Buenos Aires e editor-chefe do portal Lead Notícia.
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