As bets na Argentina

Do bingo às bets, a Argentina convive com um mercado bilionário e vê crescer os impactos das apostas sobre a saúde e a renda das famílias.

Por: Redação
29/09/2026 às 07h00

TV, celular e os jogos de apostas na Argentina

O Brasil decidiu apertar o botão de desligar. Na última sexta-feira, 25 de setembro, o governo brasileiro assinou uma medida provisória que proíbe as bets no país.

A decisão alcança apostas esportivas e jogos online e determina a retirada das plataformas do ar a partir de outubro. O presidente Lula chamou as casas de apostas de “câncer” e justificou a medida pelo impacto do jogo sobre o endividamento e a vida das famílias.

A comparação pode soar dura. Os números brasileiros ajudam a explicar por que o governo chegou até aqui.

Dados sobre o Brasil

Um estudo do Banco Central mostrou que, entre janeiro e agosto de 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros fizeram transferências para empresas de apostas. As plataformas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês.

O BC estimou que aproximadamente 15% desse dinheiro ficava com as empresas depois do pagamento dos prêmios.

O dado mais incômodo estava na base da pirâmide. Apenas em agosto daquele ano, cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões por Pix para empresas de apostas. A mediana enviada por apostador foi de R$ 100.

O problema continuou crescendo. Segundo dados divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda e citados pelo governo federal, as bets retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025.

O Ministério da Saúde estima ainda em R$ 38,8 bilhões por ano os custos sociais associados ao jogo, incluindo saúde, perda de qualidade de vida e outros efeitos relacionados à dependência.

jogos de apostas em Buenos Aires

As bets na Argentina

Daqui de Buenos Aires, a decisão brasileira levanta uma pergunta inevitável. Se o Brasil resolveu proibir, o que acontece do outro lado da fronteira?

A resposta é menos simples. Na Argentina, não existe uma legislação nacional única para organizar o mercado das apostas online.

Aqui, a regulamentação dos jogos de apostas não é centralizada pelo governo nacional. Cada província, equivalente a um estado brasileiro, define sua própria legislação.

O país tem 23 províncias, além da Cidade Autônoma de Buenos Aires. Hoje, 20 dessas 24 regiões já permitem algum tipo de jogo online regulamentado.

Na prática, significa que Buenos Aires pode ter uma regra e Córdoba outra. Cada governo local determina quantas empresas podem operar, quais exigências precisam cumprir e como será feita a fiscalização.

Existe também tributação nacional. A Argentina cobra um imposto indireto sobre apostas realizadas por plataformas digitais.

Em julho deste ano, durante a Copa do Mundo, a arrecadação desse imposto chegou a aproximadamente 17,8 bilhões de pesos, alta real de 27,8% em relação ao mês anterior.

Nos primeiros sete meses de 2026, a arrecadação acumulava crescimento de 40% na comparação anual.

Seria tentador olhar esses números e concluir que as apostas representam apenas mais uma atividade econômica tributada pelo Estado. O problema aparece quando saímos da arrecadação e olhamos para quem está jogando.

O jogo já estava aqui

Na Argentina, as bets chegaram a um mercado onde o jogo já era legal e regulado. Em Buenos Aires, por exemplo, os bingos foram autorizados por lei em 1990.

Hoje, estimativas privadas calculam que o conjunto dos jogos de azar no país, entre cassinos, loterias, bingos, corridas e apostas online, movimente cerca de US$ 6,4 bilhões por ano.

Desse total, aproximadamente US$ 1,5 bilhão viria do jogo online. 

Bingo no centro de Buenos Aires

Os números argentinos

Uma pesquisa nacional publicada em 2026 pela revista do Ministério da Saúde da Província de Buenos Aires encontrou um dado expressivo. Entre 1.313 argentinos entrevistados, 23% disseram apostar regularmente pela internet.

A participação era maior entre pessoas mais jovens e entre os grupos de menor escolaridade e menor nível socioeconômico. Entre adolescentes, o sinal de alerta é ainda maior.

O estudo Kids Online Argentina, realizado por UNICEF e UNESCO com mais de 5.900 crianças e adolescentes, mostrou que 24% dos jovens entre 12 e 17 anos já apostaram dinheiro pela internet. Isso representa mais de meio milhão de adolescentes argentinos.

A porta de entrada costuma aparecer por volta dos 13 anos. O futebol ocupa papel central, assim como as carteiras digitais instaladas no celular. Seis em cada dez adolescentes dizem conhecer alguém que já apostou.

Há um detalhe que transforma o problema argentino em algo ainda mais difícil de medir. Segundo um guia produzido pelo governo argentino em parceria com UNICEF, 80% dos acessos feitos da Argentina a sites de apostas online ocorrem em plataformas ilegais.

É aí que qualquer tentativa de calcular o impacto econômico encontra um buraco. Os sites legais pagam impostos e os clandestinos não. 

Por isso, ao contrário do Brasil, a Argentina não possui hoje uma estatística oficial nacional capaz de dizer com segurança quanto dinheiro as famílias gastam todos os meses com bets.

Existe arrecadação conhecida no mercado formal. Existe pesquisa sobre comportamento. Mas existe também uma enorme economia subterrânea do jogo.

bets x jovens na Argentina

O que dizem os especialistas

Lucía Fainboim, especialista argentina em cidadania e criação digital, resumiu recentemente a dimensão do fenômeno de uma forma bastante direta. Ele afirma que “hoje um garoto que não aposta é uma exceção”.

Para a especialista, o problema não começa apenas na plataforma, começa também quando crianças muito novas recebem acesso praticamente irrestrito ao dinheiro digital.

A psicóloga Débora Blanca, especialista em ludopatia e tecnoadicções, fez outro alerta. Ela destaca que as apostas online “arrasaram” com os paradigmas anteriores de prevenção. A velocidade com que surgem novos aplicativos e formas de jogar, segundo ela, deixa famílias e instituições permanentemente atrás do problema.

Javier Quesada, especialista em saúde do UNICEF Argentina, chama atenção para algo que vai além da conta bancária. O jogo pode levar ao endividamento, isolamento, extorsões e perda de autoestima. Para ele, o problema mais profundo não é apenas econômico, mas a sensação de fracasso que aparece quando o adolescente perde e passa a esconder a situação da família.

A Casa Rosada e as bets

Onde Javier Milei entra nessa discussão? Até agora, o governo argentino escolheu um caminho muito diferente daquele adotado por Lula.

Em maio, a administração Milei enviou ao Congresso um projeto de prevenção da ludopatia e regulamentação dos jogos de azar online.

A proposta trata a dependência do jogo como uma questão de saúde pública, prevê maior atuação da Sedronar e procura reforçar o combate às plataformas clandestinas e o controle sobre o acesso de menores.

O governo, portanto, não propôs acabar com as apostas online. A estratégia é manter o mercado legal e tentar ampliar controle, prevenção e fiscalização.

Esse desenho provocou críticas porque o projeto enviado pelo Executivo é menos restritivo do que uma proposta anteriormente aprovada pela Câmara dos Deputados.

Segundo o jornal La Nación, o texto de Milei não proíbe de forma ampla a publicidade das casas de apostas, os bônus de boas-vindas ou os patrocínios esportivos. O foco maior está nas plataformas clandestinas e na proteção de menores.

Em agosto, o governo avançou em outra frente. Uma resolução nacional determinou que anúncios de jogos e apostas tragam obrigatoriamente a indicação “+18” e o alerta de que jogar compulsivamente é prejudicial à saúde. As províncias podem aderir às regras.

É justamente aí que Brasil e Argentina começam a seguir caminhos opostos.

O Brasil experimentou a legalização, regulamentou o mercado, arrecadou impostos e, diante do crescimento do endividamento e dos danos sociais, decidiu voltar atrás e proibir as bets.

Brasil e Argentina bets

A Argentina segue apostando na regulação

O governo Milei procura separar duas coisas. De um lado, o jogo legal, que paga impostos e pode ser fiscalizado. Do outro, um gigantesco mercado clandestino que atravessa fronteiras digitais e chega ao celular de adultos e adolescentes.

O problema é que essa separação é muito mais bonita no papel do que na tela do telefone.

Quando quatro toques bastam para abrir uma conta, transferir dinheiro e apostar em quem fará o próximo gol, a distância entre entretenimento e problema financeiro pode ser menor do que parece.

 

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