
Quem vive na Argentina sabe que Javier Milei dificilmente passa despercebido. Nesta quarta-feira (23), não foi diferente.
Diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, o presidente argentino voltou a fazer o que costuma fazer dentro e fora do país. Criticou o sistema, atacou a burocracia e tentou colocar a Argentina no centro da conversa.
Desta vez, porém, houve um tema que falou mais alto. As Malvinas. Milei classificou a disputa pelas ilhas como uma “causa nacional” e voltou a cobrar do Reino Unido a retomada das negociações sobre a soberania do arquipélago.
O assunto ganhou ainda mais peso depois de novos atritos entre Buenos Aires e Londres nos últimos dias.
É um tema capaz de atravessar quase todas as diferenças políticas por aqui. Direita ou esquerda, governo ou oposição, a reivindicação argentina sobre as Malvinas permanece presente no debate público.
Milei sabe disso e deu ao assunto um espaço que não havia dado com a mesma intensidade em seus discursos anteriores na ONU.

Só que houve uma contradição difícil de ignorar. Milei subiu justamente à tribuna das Nações Unidas para dizer que a própria ONU se tornou uma “organização inútil”.
Acusou o organismo de não cumprir seu papel e afirmou que a Argentina não ficará simplesmente esperando uma solução internacional para a questão das ilhas.
Não foi o único recado. O argentino voltou a mostrar sintonia política com os Estados Unidos e Israel e também entrou em outro debate do momento.
Defendeu menos restrições ao desenvolvimento da inteligência artificial, em sentido oposto ao discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, que pediu regras internacionais e supervisão para reduzir os riscos da tecnologia.
Visto daqui de Buenos Aires, o discurso ajuda a entender um pouco do Milei de 2026.
O presidente que chegou ao poder prometendo romper com praticamente tudo continua usando o confronto como linguagem política. Ao mesmo tempo, quando fala das Malvinas, abraça uma das pautas mais antigas e tradicionais da política argentina.
Talvez esteja aí uma das imagens mais curiosas desta passagem por Nova York. Milei critica a ONU, mas precisa da ONU. Questiona o multilateralismo, mas usa sua maior vitrine. Ataca velhas estruturas, mas recorre a uma reivindicação que atravessa gerações na Argentina.
Na política, até quem promete romper com o passado descobre que alguns assuntos simplesmente não ficam para trás.
O Brasil também entrou no discurso político de Milei. O presidente argentino disse esperar que o país rompa com o que chamou de “curso socialista decadente” e volte a “abraçar as ideias da liberdade”.
A fala foi uma crítica direta ao governo Lula e veio acompanhada de mais um sinal de apoio a Flávio Bolsonaro na eleição presidencial de 2026. Milei já havia participado, em julho, da convenção do PL que oficializou a candidatura do senador.