O Brasil perdeu o grande Pai

Polarização reduz o impacto de escândalos sobre o voto.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
24/09/2026 às 18h45 Atualizada em 24/09/2026 às 19h11

Numa padaria, alguém lê no celular que a Polícia Federal tem mensagens de Flávio Bolsonaro negociando com Daniel Vorcaro, o banqueiro preso do Banco Master, dinheiro para um filme sobre o pai. O homem ao lado, eleitor de Flávio, não contesta a notícia nem pede a fonte. Ele diz: "E o Lula?".

Repare no que aconteceu. Ele não negou o fato. Tirou a conversa do terreno do fato e levou para o terreno do lado. Esse gesto de dois segundos explica as pesquisas de setembro melhor do que qualquer debate na TV.

Os números primeiro. Em julho, Lula liderava por algo entre 6 e 12 pontos, conforme o instituto. Em meados de setembro, o Datafolha marcava 39 a 36, o PoderData 37 a 36, a Quaest 36 a 31. No segundo turno simulado pela AtlasIntel, Flávio aparece com 47,2% contra 46,8% de Lula.

Nesse intervalo, o ministro André Mendonça autorizou investigação sobre pagamentos ligados ao filme Dark Horse. A PF interceptou mensagens de um assessor do senador negociando uma emenda de R$ 199 mil com Robson Calixto, o Peixe, condenado no caso Marielle.

Soube-se que a Bravo Grafeno, empresa de capacetes de Flávio e Carlos Bolsonaro, funciona na mesma sala em Brasília que ao menos 16 firmas ligadas ao Careca do INSS, preso desde setembro de 2025 por comandar descontos ilegais em aposentadorias.

O contador da Bravo Grafeno, Alexandre Caetano dos Reis, aparece nas investigações como sócio do Careca numa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. Nesta semana, a piauí revelou que Flávio voou de Fort Lauderdale a Brasília em janeiro de 2025, com a família, num Legacy 650 do qual Vorcaro detinha um terço das cotas.

Pouco antes, o senador tinha gravado um vídeo para dizer que nunca entrou em avião do Vorcaro. O patrimônio declarado chegou a R$ 8,1 milhões. Durante a campanha, Flávio voltou a chamar Adriano da Nóbrega de "oficial exemplar". A intuição diz que ele deveria cair, e ele subiu.

O saber que não contamina

Em 1964, o psicanalista Octave Mannoni resumiu numa frase o mecanismo que Freud chamou de desmentido (Verleugnung): "Eu sei, mas mesmo assim". Não é ignorância. O sujeito sabe, e esse saber convive com uma crença contrária sem nunca a tocar. Os dois ficam em cômodos separados da mesma casa.

A lógica do escândalo supõe um eleitor que não sabe. Parte do princípio de que falta informação e de que, com ela, o voto muda. O eleitor de Flávio não precisa ser informado da rachadinha, da mansão de milhões, de Queiroz. Ele sabe de tudo desde 2018, e cada nova manchete cai no cômodo do saber, onde não incomoda ninguém.

Quem está falando?

Kahneman chamou de substituição de atributo o hábito de responder a uma pergunta fácil no lugar de uma difícil. "Isso é verdade?" dá trabalho: exige ler o inquérito, pesar provas, esperar o julgamento. "Quem está dizendo isso?" se responde na hora.

Num campo polarizado, toda notícia vem com remetente. Para o eleitor bolsonarista, a PF, o STF e a grande imprensa são as mesmas instituições que prenderam o pai. A denúncia contra o filho não chega como informação sobre Flávio. Chega como mais um capítulo da perseguição, e passa a confirmar o que devia desmentir. Quanto mais grave a acusação, mais ela prova que o sistema quer tirá-lo do jogo. O escândalo vira atestado de autenticidade.

O teste de lealdade

Em 1956, Leon Festinger infiltrou pesquisadores numa seita que previa o fim do mundo para uma data marcada. O mundo não acabou. A seita não se dissolveu: os membros mais comprometidos passaram a fazer proselitismo com mais fervor. Quem já pagou caro por uma crença não pode abandoná-la sem admitir que o preço foi em vão.

Cada escândalo funciona como um desses testes. Quem sai mais fraco sai do grupo, e quem fica fica mais preso a ele. Por isso a denúncia seleciona e endurece. Ela não diminui o eleitorado de Flávio, só o purifica, e um eleitorado purificado é o que qualquer campanha quer num segundo turno apertado.

A rejeição conta a outra metade da história. No Datafolha feito entre 15 e 17 de setembro, 47% dizem que não votariam em Flávio de jeito nenhum, o mesmo índice de Lula. Em março eram 45%. A Quaest, a campo entre 17 e 20 de setembro, registra 56% para ele e 55% para o presidente.

Em seis meses de inquéritos, a rejeição de Flávio andou dois pontos, dentro da margem. O escândalo não criou antieleitores, porque eles já existiam, e não tirou eleitores, porque estes já sabiam. Cada denúncia caiu sobre um país partido em duas metades quase iguais, e cada metade leu a notícia confirmando o que já pensava.

O mecanismo não pertence a um eleitorado específico. Desmentido, substituição e teste de lealdade fazem parte do funcionamento psíquico comum e operariam em qualquer torcida. O que os torna decisivos em 2026 é a estrutura do campo, onde já não existe um terceiro neutro para receber a informação e mudar de ideia.

O árbitro e o Pai

Quando a psicanálise fala em lei, não está falando do Código Penal. Pense numa brincadeira de pega-pega. Uma criança toca a outra fora do combinado, e alguém grita "não vale!". Ninguém consulta regulamento, não há juiz, e mesmo assim as duas param, porque reconhecem que existe uma regra acima delas.

É dessa lei que Lacan fala: o pacto invisível que faz um "não vale" valer para todos, anterior a qualquer código escrito e condição para que os códigos sejam obedecidos. Ele chamou de Nome-do-Pai a função que sustenta esse pacto, num trocadilho com o som, em francês, de nom (nome) e non (não). Não é um homem de carne e osso. É o lugar a que as duas partes de uma disputa recorrem para saber quem tem razão.

Freud contou a origem desse lugar em Totem e tabu. Na horda primitiva, um pai tirânico gozava de tudo e não se submetia a nada. Os filhos o mataram, e a lei só nasceu depois, quando eles entenderam que nenhum deles deveria ocupar aquele lugar de novo.

A lei é o pai morto: vale porque ninguém a encarna, nem mesmo quem a aplica. Por isso uma denúncia só derruba alguém onde esse lugar é reconhecido pelos dois lados. Um processo judicial derrubava políticos quando o tribunal valia como tribunal para todo mundo, inclusive para quem perdia.

Em Como as democracias morrem, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt descrevem o mesmo lugar com vocabulário de futebol. As democracias de hoje raramente caem com tanques na rua. Morrem quando o líder eleito passa a tratar juízes, polícia e imprensa como inimigos e tenta capturar os árbitros.

O bolsonarismo seguiu o roteiro à risca: o STF virou alvo de manifestação, a urna eletrônica virou suspeita, a imprensa virou "extrema imprensa".

O projeto, porém, nunca foi um país sem Pai. O autoritário descrito no livro não quer jogo sem árbitro. Quer apitar. A captura falhou: o Supremo resistiu, e Jair Bolsonaro foi julgado e preso. Sobrou o efeito colateral, um árbitro que metade do país deixou de reconhecer.

A extrema direita não conseguiu ocupar o lugar da lei, mas conseguiu esvaziá-lo, e nesse vazio prospera o pai imaginário. Esse pai não garante a lei para todos, só protege os seus.

Levitsky e Ziblatt insistem num ponto que a esquerda brasileira prefere pular: as proteções da democracia também se desgastam quando os árbitros entram em campo para vencer. A Lava Jato, por suas falhas, forneceu a narrativa da perseguição antes de Flávio precisar dela, e o próprio STF declarou Sergio Moro parcial no caso de Lula.

O inquérito das fake news, aberto de ofício pelo tribunal que depois julgaria os investigados, entregou o mesmo argumento ao outro lado. A extrema direita quis a queda do Pai e trabalhou por ela, mas não trabalhou sozinha.

Sem fiador comum, o fato vira opinião, e a opinião vira identidade. Atacar a identidade de alguém não o convence: faz com que ele se defenda. Quem aposta em derrotar Flávio com dossiê está falando com um eleitor que já leu o dossiê.

Num país sem Pai, a pergunta desse eleitor nunca foi se o candidato é limpo. A pergunta é se ele é dos nossos, e cada nova denúncia responde que sim.

 

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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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