Uma candidatura que nunca foi escolhida

Flávio Bolsonaro chegou à disputa presidencial sem enfrentar concorrência interna no próprio campo.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
26/08/2026 às 17h53

De dezembro a agosto, a candidatura de Flávio Bolsonaro passou pelo endosso do pai, pela convenção do PL e pelo registro no TSE sem que a base bolsonarista precisasse, uma única vez, comparar Flávio com um concorrente dentro do próprio campo.

Isso diz mais sobre o vínculo que sustenta a candidatura do que qualquer escândalo, e não tem nada a ver com quem vai ganhar a eleição.

Em dezembro de 2025, Jair Bolsonaro indicou o filho Flávio para a disputa presidencial de 2026. Em maio, veio o escândalo Bolsomaster: mensagens revelando negociação de R$ 134 milhões com o banqueiro preso Daniel Vorcaro.

Em julho, a série Vaza Flávio trouxe novos documentos, e a própria madrasta, Michelle Bolsonaro, criticou o enteado em público. No dia 25 daquele mês, a convenção do PL confirmou a candidatura sem disputa interna. Em 15 de agosto, o registro foi protocolado no TSE.

Cinco marcos, cinco confirmações. E, em nenhum deles, a base do bolsonarismo precisou comparar Flávio com outro nome do próprio campo e preferi-lo por algum motivo.

Um teste, e outro teste diferente

Em outubro, o eleitor brasileiro vai comparar Flávio com Lula, e talvez com outros nomes num segundo turno. Esse teste é real, o resultado está em aberto, e não é o assunto desta coluna.

A pergunta aqui é anterior a essa disputa: antes de chegar até ela, em algum momento a base do próprio bolsonarismo precisou escolher Flávio em vez de um concorrente dentro do seu próprio campo? A resposta, do endosso do pai ao registro no TSE, é não.

Escolher supõe comparação: pesar nomes, avaliar entregas, preferir um em detrimento de outro. Indicação de pai para filho não é isso. É sucessão. Convenção sem disputa interna não é isso. É ratificação de uma decisão já tomada em outro lugar. Registro no TSE é ato administrativo.

Tarcísio de Freitas, cotado meses depois como alternativa mais competitiva dentro da direita, tinha anunciado a opção pela reeleição em São Paulo em setembro de 2025, antes mesmo de Bolsonaro indicar o filho. Não houve, portanto, nem aquele momento em que a base teria dois nomes concretos diante de si e precisaria decidir entre eles dentro do próprio campo.

A candidatura de Flávio nasceu sem concorrente interno, e seguiu sem concorrente interno até o registro se fechar.

O que o escândalo não teve chance de interromper

Bolsomaster e Vaza Flávio são fatos: mensagens, documentos, valores, datas. Só que fato nunca foi o que sustentou Flávio como candidato do seu campo.

O que sustenta é afeto: pertencimento a um sobrenome, lealdade construída por anos, a promessa implícita de proteção contra um inimigo comum, o mesmo material de que são feitos os circuitos políticos que aqui já chamei de passivos. Não é que a base tenha examinado os fatos e decidido perdoá-los.

É que fato e afeto nunca competiram pelo mesmo espaço, porque a vaga já estava ocupada por sucessão antes de o primeiro fato aparecer.

Escândalo é fato. Lealdade é afeto. Fato não vence afeto sozinho, precisa de outro afeto mais forte para isso, e nenhum apareceu.

Espinosa é quem formula essa regra com mais precisão: um afeto só cede a outro afeto mais forte, nunca a um fato isolado. Aqui, esse teste nem chegou a acontecer. A sequência toda (indicação, convenção, registro) nunca abriu espaço, dentro do campo, para fato e afeto disputarem coisa nenhuma.

Isso não é exclusividade de partido

O mesmo desenho aparece sempre que um campo político troca a comparação interna pela sucessão, seja ela de sangue, de padrinho político ou de aparelho partidário fechado.

O sintoma é sempre o mesmo: etapas que parecem processo democrático (convenção, registro, pesquisa) sem que nenhuma delas, de fato, tenha exigido de ninguém, dentro daquele campo, uma escolha entre alternativas reais.

A pergunta vale para qualquer candidatura, de qualquer sigla: antes da disputa contra o adversário de fora, em algum momento o eleitor daquele campo teve duas opções internas concretas diante de si e precisou escolher, ou só assistiu a uma sucessão sendo formalizada em etapas?

No caso de Flávio Bolsonaro, essa resposta específica já está dada desde dezembro. O teste contra Lula, esse sim, ainda está por vir.

 

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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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