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coluna | Subjetividade e Poder
Há uma dor discreta e profunda em não saber se algo acabou. Entre o apego e a resiliência, entre o medo e o desejo, existe um espaço de escuta onde a escolha deixa de ser reação e vira consciência. É sobre esse lugar — político, íntimo e humano — que falo hoje.
Há momentos em que tudo parece pedir um fim, uma relação, um projeto, um modo de viver. E, ainda assim, a gente insiste.
Tentamos manter o fogo aceso quando a lenha já virou cinza. Mas também há vezes em que o que parece fim é apenas mudança de forma. E é aí que começa o dilema: é o fim mesmo, ou só mais uma variação do ciclo?
Essa dúvida é das mais difíceis de suportar.
Não desistir é apego ou é força?
Permanecer é coragem ou medo? Partir é fuga ou é desejo?
Vivemos presos nessa indecisão, e ela dói. Dói porque o que chamamos de “decisão” quase nunca nasce de nós, mas do discurso que nos atravessa.
O discurso, seja o da cultura, da família, do trabalho ou do amor, dita o que devemos querer. Ele nos ensina quando é hora de insistir, quando é hora de mudar, o que é nobre e o que é covarde. E assim, o que parece escolha íntima muitas vezes é apenas obediência a um roteiro social. Ficamos quando “o certo” é persistir. Partimos quando “o certo” é evoluir. Mas raramente paramos para ouvir o que, de fato, desejamos.
E o desejo… o desejo nunca se satisfaz. Ele não quer o objeto, quer o movimento.
Ele se alimenta da falta, e é justamente isso que o torna humano e trágico.
Seguimos em busca de algo que nunca se cumpre: uma relação perfeita, um trabalho estável, uma forma de vida que não doa. Mas o desejo não quer o descanso. Ele quer o deslocamento. E quando finalmente nos deslocamos e chegamos ao ponto seguinte, o desejo se desloca de novo para outro objeto, outra promessa, outro ideal. É um movimento sem fim, e é nele que o sujeito se constrói, mas também se perde.
Por isso, o dilema entre permanecer e partir é político. Vivemos sob discursos que colonizam o desejo: de um lado, o da estabilidade o ideal da continuidade, do vínculo inquebrável, da vida sem rupturas; de outro, o da performance, o imperativo de recomeçar, reinventar-se, seguir em frente. Ambos aprisionam, porque ambos falam em nosso lugar.
Saber se é hora de ficar ou de ir exige uma pausa, e essa pausa é o gesto mais difícil e mais livre que existe. É nela que o sujeito se escuta, não para encontrar uma resposta definitiva, mas para sustentar a pergunta.
Sustentar a pergunta significa não apressar a resposta. Quando a gente corre para responder, para preencher o vazio, o que faz é silenciar o desejo, porque o desejo vive justamente na tensão da pergunta.
Em termos políticos, sustentar a pergunta é também resistir à lógica da pressa e da produtividade, que exige decisões imediatas, fechamentos rápidos, clareza o tempo todo. É um gesto de desobediência simbólica: não vou resolver agora, vou escutar um pouco mais.
Em termos amorosos, é o oposto do impulso de desistir ou insistir por medo. É permanecer presente, sem precisar definir o que vem depois. É olhar para o fim possível e dizer: não sei ainda — e tudo bem não saber.
Sustentar a pergunta é, portanto, um exercício de liberdade. Porque quem precisa de resposta imediata ainda está obedecendo ao discurso, e quem aguenta o silêncio, começa a ouvir o desejo.
Cada vez mais acho que a maturidade consiste em suportar o intervalo. Esse tempo em que o ciclo não acabou, mas também já não é o mesmo. O tempo em que o discurso quer nos empurrar para uma resposta, e o desejo pede silêncio. É nesse espaço de incerteza que o novo, finalmente, encontra chance de nascer.