De Eichmann a Gaza: quando a banalidade do mal se torna mais um genocídio

coluna | Subjetividade e Poder

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
30/09/2025 às 06h00

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Hannah Arendt viu em Eichmann um homem medíocre, capaz de justificar o extermínio em nome da obediência. Hoje, a mesma lógica reaparece em Gaza, onde a violência se disfarça de rotina e transforma até jovens modernos e progressistas em peças de uma engrenagem genocida.

Quando Hannah Arendt se sentou diante de Adolf Eichmann, em 1961, esperava encontrar o “arquiteto do horror”, o monstro frio que planejou a deportação de milhões de judeus para os campos de extermínio. Em vez disso, deparou-se com um homem sem brilho, medíocre, quase ridículo em sua postura burocrática. Ele não tinha o olhar de um sádico, mas o discurso repetitivo de um funcionário: dizia, o tempo todo, que apenas “cumpria ordens”.

Para Arendt, havia aí algo quase cômico — não porque houvesse graça na tragédia, mas porque era chocante perceber que o rosto de um dos maiores crimes da história era o de alguém tão pífio. E é justamente dessa constatação que surge a expressão “banalidade do mal”: a ideia de que a violência mais brutal pode se realizar de forma rotineira, mecânica, sem monstros sanguinários, mas por pessoas comuns que renunciam a pensar e se escondem atrás da obediência.

prédios destruídos em Gaza (foto: UNICEF)

Mais de 60 anos depois, essa reflexão não perdeu atualidade. Basta olhar para o presente: o genocídio do povo palestino. Bairros inteiros destruídos, hospitais bombardeados, crianças soterradas, famílias expulsas. E, como justificativa, as mesmas frases burocráticas que Arendt identificou: “direito à segurança”, “operações legítimas”, “cumprimento da lei”. A violência ganha o disfarce da normalidade e se transforma em estatística.

O mais perturbador é perceber como a banalidade do mal atravessa também uma geração que, à primeira vista, parece moderna e progressista. Israel é celebrado no mundo como país vibrante, de juventude conectada, liberal nos costumes, referência em inovação tecnológica e diversidade cultural. Tel Aviv é retratada como capital global da liberdade sexual e de gênero. Mas essa mesma juventude, ao ingressar no serviço militar obrigatório, é absorvida pela lógica de ocupação e passa a executar ordens do governo em Gaza e na Cisjordânia. Jovens que se veem como livres tornam-se parte de uma máquina genocida. Esse contraste é talvez o retrato mais nítido da banalidade do mal: até os que se consideram progressistas podem ser engolidos pela engrenagem quando deixam de pensar criticamente sobre suas ações.

E nós, de fora, também não estamos imunes. A banalidade do mal se alimenta do silêncio e da indiferença. Quantas vezes aceitamos práticas injustas no cotidiano com o mesmo gesto de Eichmann — “apenas cumpro meu papel”? É na normalização que a violência se fortalece.

Arendt, porém, não nos deixou sem saída. Ela insistia que a resposta está na coragem de pensar, sentir e agir. Pensar, para não aceitar narrativas que transformam vida em número. Sentir, para não deixar que a dor do outro se torne ruído de fundo. Agir, para que a indignação se traduza em solidariedade e em recusa ao silêncio.

E essa lição não é só política, é existencial. Arendt sabia das contradições da vida: consta que ela própria viveu um amor intenso e impossível com Martin Heidegger, o grande filósofo que se alinhou ao nazismo. Essa ferida biográfica a ensinou que pensar não é abstração, mas mergulho nas tensões humanas. Por isso sua filosofia é tão viva: porque nasce da experiência, do confronto entre dor e lucidez.

Se há algo a aprender com Arendt — uma judia que fugiu do nazismo, que viu seu povo ser perseguido e que nunca pôde viver plenamente o amor por um homem que escolheu servir ao regime nazista — é que o mal não precisa de monstros para existir. Basta que muitos desistam de pensar.

Hoje, diante do genocídio palestino, essa lição ecoa com urgência. A banalidade do mal está justamente aí: no soldado que diz cumprir ordens, no político que legitima a violência com discursos técnicos, no cidadão comum que se cala. Pensar, sentir e agir é recusar essa engrenagem. É a única forma de não deixar que a violência se torne rotina — e de manter viva a humanidade que ainda nos resta.

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Emílio Há 1 ano Brasília DFTexto belíssimo! Obrigado !
Edna Galvão Há 1 ano BsbTexto potente. A lembrança de Arendt é um alerta contra a indiferença que normaliza a violência.
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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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