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Nos últimos dias, um vídeo do influenciador Felca ganhou enorme repercussão e colocou em evidência um tema delicado: a adultização de crianças nas redes sociais. A discussão se espalhou, com denúncias, prisões, ações judiciais e até projetos de lei no Congresso Nacional. Mas todo esse burburinho é só a ponta do iceberg. O que está em jogo é a forma como a infância está sendo moldada, quase em série, pelos algoritmos que governam a internet.
Uma pergunta central que pode ser feita é: de quem é o poder de escrever a infância hoje? E a resposta já não é mais as famílias, escolas ou comunidades. É o feed.
As plataformas não apenas permitem que crianças se mostrem, elas determinam como devem se mostrar. E fazem isso com a mesma lógica que vendem tênis, pacotes de viagem ou qualquer outro produto: oferecendo e fabricando desejo, reconhecimento e pertencimento. O corpo infantil, nesse cenário, vira mais uma mercadoria de engajamento.
Do ponto de vista subjetivo, isso é inquietante. A infância, que deveria ser tempo de experimentos, brincadeiras e descobertas, fundamentais na formação dos indivíduos como sujeitos autônomos, acaba sendo apresentada nas redes como um palco pronto: performances já moldadas, likes usados como aprovação e seguidores no papel de jurados. O olhar do outro, que sempre foi decisivo na formação de cada um de nós, agora é mediado por algoritmos que sabem exatamente qual performance gera mais audiência — e, como consequência, mais lucro.
E não adianta culpar só pais distraídos ou influenciadores oportunistas. O problema é maior. Existe um sistema inteiro capturando subjetividades em formação e vestindo-as com fantasias de consumo.
Hoje, quem de fato escreve a infância não é mais a escola, nem os pais, nem a TV. É o capital-nuvem. Esse poder invisível, concentrado nas grandes plataformas digitais, decide quais imagens circulam, quais danças viralizam, quais corpos ganham visibilidade e quais são apagados. Não se trata apenas de tecnologia: é um capital que não fabrica brinquedos, fabrica narrativas. Dos servidores aos contratos de publicidade, ele define o que significa ser criança em 2025.
No limite, as crianças se transformam em um mercado de derivativos para o capital-nuvem (diferente do capital industrial ou financeiros, não depende de fábricas ou bancos, mas de plataformas que capturam, processam e vendem dados). Essas crianças não são apenas usuárias precoces, mas ativos que garantem lucro futuro. Cada visualização, cada curtida, cada performance infantil serve como antecipação de consumo: o valor está na promessa de fidelizar desejos ainda em formação. A infância, assim, vira um investimento especulativo de longo prazo.
Chamemos isso pelo que é: não é só capitalismo digital, é algo que muitos chamam de tecnofeudalismo. Poucos conglomerados - Google, Meta, TikTok, Apple - controlam a infraestrutura essencial. São como feudos modernos: quem quiser existir precisa pagar pedágio em dados. E nós, vassalos digitais, entregamos voluntariamente nossos rastros em troca de curtidas. As crianças, nesse jogo, são mercadorias valiosas: oferecem atenção precoce, pura, disputada a peso de ouro.
Enquanto isso, nós adultos discutimos privacidade e proteção de dados, mas esquecemos que os pequenos já estão na linha de frente dessa engrenagem, como uma linha de produção de imagens desejáveis, feitas sob medida para agradar a audiência.
Também existe aqui uma dimensão emocional que não pode ser ignorada. Postar vídeos, buscar likes, aceitar cookies: tudo isso não é só distração. É o desejo humano de ser reconhecido. O algoritmo ocupa esse lugar de espelho: devolve uma imagem que confirma a nossa existência, como imaginamos que ela deveria ser, e não como de fato ela é. Assim, em vez de mostrar quem somos, ele devolve uma caricatura vendável. Para os adultos já é alienante; para crianças em formação, é devastador.
E o mais curioso é que aceitamos tudo isso como se fosse natural. Acreditamos que temos “livre escolha” porque decidimos o filtro da foto. Mas nossas trilhas digitais são mais previsíveis que regravação de novela das nove.
O debate sobre adultização é urgente, não apenas para regular publicidade ou punir abusos, mas para resgatar algo mais básico: o direito das crianças de serem simplesmente crianças.
Porque, se a infância for moldada pelo capital-nuvem e pelos algoritmos, o que vai sobrar de espaço para sonhar sem plateia? Para brincar sem audiência? Para inventar mundos que não cabem em 30 segundos de vídeo?
No fim das contas, a pergunta é simples: vamos continuar fingindo que está tudo bem enquanto a infância é escrita em código binário? Ou vamos admitir que proteger crianças não é só apagar vídeos, mas enfrentar um sistema que transformou o desejo em mercadoria antes mesmo da puberdade?