Bets: por que a Educação também precisa entrar nesse debate?

Presença das bets no futebol e nas redes expõe crianças e adolescentes à lógica da recompensa rápida e leva o debate para dentro da escola.

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
27/09/2026 às 10h56 Atualizada em 27/09/2026 às 11h26

bets na sala de aula

Há algo que deveria nos inquietar para além do dinheiro perdido nas apostas esportivas: o que estamos ensinando às nossas crianças e aos nossos jovens sobre desejo, espera, frustração e recompensa?

A pergunta parece distante da escola, mas não é.

Ela chega todos os dias à sala de aula. A aposta esportiva não começa necessariamente quando o adolescente abre uma conta e coloca dinheiro.

Antes disso, existe um processo de normalização. A bet aparece na camisa do time, no estádio, na transmissão do jogo, no intervalo comercial, nas redes sociais, no celular e nas falas de influenciadores.

O futebol, paixão nacional, transforma a aposta em parte da paisagem cotidiana. É justamente aí que precisamos olhar para o problema com maior atenção.

O psicólogo B. F. Skinner, ao estudar o comportamento, demonstrou a força dos esquemas de reforçamento. Quando uma recompensa aparece de maneira variável e imprevisível, o comportamento pode se tornar particularmente persistente.

O chamado reforçamento de razão variável ajuda a compreender por que, em determinadas situações, não é necessário ganhar sempre para continuar tentando. Basta a expectativa de que a recompensa poderá vir.

reforçamento de razão variável

 

Nas apostas, essa lógica ganha uma dimensão contemporânea. Não se aposta apenas para ganhar. A pessoa aposta para experimentar a expectativa de ganhar. É o “será que agora vai?”.

A neurociência acrescenta outra peça importante a esse quebra-cabeça. A dopamina não deve ser reduzida à ideia simplista de “substância do prazer”. Ela participa de processos relacionados à motivação, à aprendizagem e à antecipação da recompensa.

A incerteza, o resultado inesperado e até mesmo o chamado “quase-acerto” podem contribuir para manter o comportamento de busca.

É um mecanismo particularmente preocupante quando pensamos nos adolescentes, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente no que diz respeito à autorregulação, ao controle de impulsos e à avaliação das consequências de longo prazo.

Mas o jovem não está sozinho nesse ambiente. Ele está cercado por modelos. Quando um influenciador mostra uma aposta vencedora, publica um suposto ganho ou apresenta a atividade como divertida e acessível, oferece-se muito mais do que uma informação publicitária: oferece-se um modelo de comportamento.

E, na adolescência, a influência dos pares pode ser enorme. Quantas vezes pais e professores já ouviram: “Meu amigo disse que dá para ganhar”? O amigo recém-conhecido pode adquirir, naquele momento, uma autoridade que anos de orientação familiar e escolar não conseguem alcançar.

 

Isso nos leva ao futebol

Em abril de 2025, o então técnico do Flamengo, Filipe Luís, fez uma comparação que merece ser lembrada. Ele contou que, quando criança, assistia à Fórmula 1 e via publicidade de cigarros nos carros. Disse que hoje isso não seria mais permitido e imaginou que, no futuro, poderíamos olhar para o futebol atual e estranhar a presença maciça das casas de apostas.

O treinador também afirmou que já havia recebido propostas para fazer publicidade de bets e que recusava esse tipo de trabalho por conhecer os danos associados ao vício.

A comparação com o cigarro não significa que os dois fenômenos sejam idênticos. O valor da fala está em outro lugar: na possibilidade de percebermos historicamente como determinadas associações entre esporte, consumo e comportamento podem ser naturalizadas em uma época e questionadas em outra. Há uma imagem que sintetiza essa contradição.

De um lado, o adolescente ouve que não deve apostar. Do outro, vê a marca da bet na camisa de seu clube, no estádio, no microfone da entrevista, no backdrop da coletiva, na transmissão do jogo e na tela do celular. Qual dessas mensagens será mais poderosa?

Não precisamos imaginar que toda publicidade produz automaticamente um jogador compulsivo. Seria uma conclusão que a ciência não autoriza.

Mas podemos reconhecer que a exposição repetida participa de um processo de normalização social.

escola, futebol e bets

É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre apostas. Ela passa a ser sobre formação humana.

A escola ensina uma temporalidade quase oposta àquela oferecida pelas plataformas de recompensa instantânea.

Aprender exige esperar. É preciso estudar sem saber imediatamente o resultado, aceitar o erro, refazer uma atividade, ouvir uma correção, persistir diante da dificuldade e compreender que determinadas conquistas só aparecem depois de muito tempo.

A bet oferece outra temporalidade: aposta, expectativa, resultado, nova aposta. A escola frequentemente trabalha com esforço, espera, aprendizagem e resultado.

Como educar para a espera em uma sociedade que monetiza a impaciência?

Pais e mães precisam educar para o limite em um ambiente que, muitas vezes, trabalha exatamente na direção contrária: mais estímulo, mais velocidade, mais consumo, mais comparação e mais recompensa. Não se trata de culpar as famílias.

Tampouco de atribuir à escola a tarefa de resolver sozinha um problema social. Trata-se de reconhecer que família, escola, sociedade, empresas e poder público participam, em diferentes níveis, do ambiente no qual nossas crianças aprendem a viver.

Por isso, a proteção de crianças e adolescentes precisa ocupar o centro da discussão.

estudantes e jogos de apostas

 

O Estado brasileiro já havia ampliado, em julho de 2026, as restrições à publicidade de apostas: passou a exigir advertências sobre dependência, perdas financeiras e a ideia de que aposta não é investimento, além de vedar anúncios que prometam ganho fácil ou se dirijam a crianças e adolescentes (Agência Brasil, 2026). Mas, em 25 de setembro, o debate deu uma guinada mais ampla.

Sobre a MP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a Medida Provisória nº 1.394/2026, publicada em edição extra do Diário Oficial da União.

A MP proíbe, em todo o território nacional, a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line, e institui um comitê interinstitucional para fiscalizar a exploração e a publicidade ilegal.

A regra alcança operações autorizadas pela União, pelos estados e pelo Distrito Federal; outras modalidades lotéricas previstas em lei não são abrangidas.

A medida tem força de lei desde a publicação, mas sua continuidade depende da apreciação do Congresso Nacional (Presidência da República, 2026; Correio da Manhã, 2026).

A transição também foi anunciada com prazos definidos: após a publicação, novos depósitos foram vedados; os usuários puderam solicitar o resgate de seus saldos até 23h59 de 5 de outubro; e sites e aplicativos deveriam sair do ar a partir de 6 de outubro.

A publicidade e os patrocínios já contratados podem permanecer durante o período de transição, até 5 de outubro, conforme a cobertura da medida (Correio da Manhã, 2026). É, portanto, uma mudança de grande alcance, cujo desfecho institucional ainda depende do Congresso.

A notícia rapidamente levou a discussão para além do texto jurídico. Nas redes e no debate público, a medida foi recebida por meio de argumentos distintos: defensores enfatizaram os danos sociais, o endividamento e os relatos de dependência; críticos questionaram o momento político e a viabilidade da proibição; representantes do setor apontaram o risco de migração para plataformas clandestinas; e clubes e agentes do esporte expressaram preocupação com contratos de patrocínio e receitas.

Outro lado

O candidato Flávio Bolsonaro, por exemplo, chamou a iniciativa de “populista” e “eleitoreira”, enquanto entidades do setor contestaram a proibição e anunciaram que pretendiam buscar sua reversão (Times Brasil, 2026; Correio da Manhã, 2026).

Não devemos tratar a repercussão na internet como se fosse uma opinião única da sociedade. Ela revela, antes, um conflito de prioridades: de um lado, a proteção da saúde e da vida familiar; de outro, os efeitos econômicos, esportivos e jurídicos de uma interrupção abrupta. A ponderação desses efeitos é necessária, mas não pode apagar as pessoas concretas que enfrentam prejuízos e sofrimento causados pelo jogo.

Quando a decisão foi comentada por uma pessoa próxima, ouvi a frase: “Só porque está perto da eleição está fazendo isso para agradar a população.” Respondi que a política serve também para isso: para ouvir as pessoas e responder às demandas coletivas. Tem, sim, de ouvir o clamor da população, principalmente daqueles que estão perdendo seus familiares para os jogos e para os vícios.

Esse diálogo não elimina a necessidade de examinar com rigor a oportunidade, a legalidade, os efeitos e a execução da MP. Tampouco exige que concordemos com toda decisão governamental.

O que afirmo é que a proximidade de uma eleição, por si só, não torna ilegítima uma demanda social nem invalida a obrigação de escutá-la. Talvez esteja exatamente nessa janela de oportunidade a possibilidade de fazer todos olharem para um problema gigantesco que insistem em coocar embaixo do tapete.

Quando famílias relatam que perderam a convivência, a segurança financeira ou a saúde de alguém para o jogo, não estamos diante de uma abstração de campanha: estamos diante de um problema público que pede resposta.

professores no combate aos jogos de aposta

A questão permanece: como proteger efetivamente uma geração quando o mercado das apostas está profundamente integrado à cultura esportiva, às redes sociais e às relações de pertencimento? E como fazer com que a política pública combine proteção, fiscalização, cuidado em saúde e alternativas de atendimento para quem já enfrenta dependência?

Talvez devêssemos parar de perguntar apenas quanto as bets movimentam. Talvez devêssemos perguntar também: que comportamentos estamos reforçando? Que relação com o dinheiro estamos ensinando? Que lugar estamos dando à espera, ao esforço e à frustração? E que sociedade queremos oferecer às crianças que ainda estão aprendendo a desejar?

O problema das bets não está apenas na possibilidade de alguém perder dinheiro. Está também na possibilidade de uma geração aprender, desde cedo, que a recompensa deve ser rápida, que a espera é insuportável e que o risco pode ser transformado em entretenimento. Se quisermos proteger nossas crianças, não basta dizer a elas: “Não apostem”.

Precisamos olhar para o mundo que construímos ao redor delas. Porque, antes de aprenderem a apostar, elas aprendem o que a sociedade lhes ensina a considerar desejável.

 

Fontes:
.Presidência da República. Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026.
.Correio da Manhã. Lula assina MP que proíbe bets no Brasil. 26 set. 2026. 
.Times Brasil | CNBC. Lula assina MP para proibir bets e Flávio acusa governo de estelionato eleitoral. 25 set. 2026.
.Agência Brasil. Novas regras proíbem publicidade de bets com promessa de ganho fácil. 11 jul. 2026. 

 

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Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
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