Estamos preparando nossos jovens para transformar o mundo?

Educação socioemocional amplia debate sobre resiliência e responsabilidade individual.

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
19/09/2026 às 17h24 Atualizada em 19/09/2026 às 18h09

 

Há uma mudança importante na educação das novas gerações. Meninos e meninas encontram hoje mais espaço para falar sobre sentimentos, reconhecer emoções, pedir ajuda e discutir saúde mental.

Entre os meninos, essa mudança pode representar uma ruptura com uma formação masculina historicamente marcada pela ideia de que chorar é fraqueza, pedir ajuda é incapacidade e sofrimento deve ser suportado em silêncio.

É uma mudança necessária. Mas, justamente por reconhecermos sua importância, precisamos perguntar: o que estamos chamando de formação socioemocional e a serviço de que projeto de formação humana ela está sendo colocada?

A Base Nacional Comum Curricular incorporou competências relacionadas ao autoconhecimento, à cooperação, à empatia, à responsabilidade, ao projeto de vida e à cidadania.

A formação docente também passou a incorporar essa linguagem: a BNC-Formação de 2019 prevê atenção às dimensões intelectual, física, cultural, social e emocional dos estudantes, além de desenvolvimento socioemocional e mediação de conflitos. Portanto, essa agenda integra as políticas educacionais contemporâneas.

Formação socioemocional

O problema começa quando uma dimensão legítima da formação humana é deslocada para uma lógica de responsabilização individual.

Ensinar uma criança a reconhecer a própria raiva, compreender uma frustração, lidar com uma perda, falar sobre medo ou buscar ajuda não significa transformar a escola em consultório psicológico. Significa reconhecer que sentir faz parte da condição humana e que emoções não determinam automaticamente os comportamentos.

Uma criança pode sentir raiva e não ter autorização para bater. Um adolescente pode sentir ciúme e não ter direito de controlar o outro. Um estudante pode estar frustrado com um resultado e, ainda assim, precisar aprender a lidar com a frustração.

Acolhimento não é permissividade; limite não é autoritarismo. Depois de décadas ensinando, sobretudo aos meninos, que sentimentos deveriam ser escondidos, o desafio atual é construir uma cultura em que seja possível falar sobre eles sem abandonar a responsabilização pelos atos.

Resiliência escolar

Nesse contexto, a palavra “resiliência” merece atenção. Ela pode significar ajudar crianças e adolescentes a enfrentar dificuldades, lidar com frustrações e construir recursos para atravessar adversidades.

Entretanto, há um risco quando passa a ser apresentada como competência individual para sobreviver a qualquer condição.

É preciso perguntar: resiliente para quê? Para enfrentar uma dificuldade e encontrar caminhos opara superá-la ou para adaptar-se a condições que permanecem intocadas?

Quando uma criança enfrenta dificuldades de aprendizagem, podemos trabalhar sua autonomia, persistência e capacidade de pedir ajuda. Contudo, não podemos transformar essas características em explicação suficiente para seu desempenho.

A aprendizagem depende também das condições objetivas em que ocorre: qualidade da escola, condições de trabalho docente, tempo pedagógico, número de estudantes por turma, materiais, alimentação, acesso à cultura e desigualdades sociais, entre outras determinações.

O estudante não existe fora da sociedade. Por isso, uma determinada leitura da educação socioemocional pode acabar individualizando aquilo que também é socialmente produzido.

Se o estudante não consegue aprender, desenvolva resiliência. Se está ansioso, desenvolva autorregulação. Se não consegue planejar seu futuro, construa um projeto de vida. Se fracassa, reorganize suas competências. A pergunta que desaparece é: em que condições esse sujeito está vivendo e aprendendo?

Trabalho docente

A mesma contradição aparece no trabalho docente. Ampliamos as expectativas sobre o que a escola deve fazer, mas nem sempre ampliamos as condições para que ela faça.

Espera-se que o professor ensine, avalie, planeje, promova inclusão, medie conflitos, acolha estudantes, reconheça sinais de sofrimento, desenvolva competências socioemocionais, incentive autonomia, trabalhe projeto de vida e dialogue com as famílias.

Mas quem forma esse professor para tantas tarefas? E com que condições?

A TALIS, pesquisa internacional coordenada no Brasil pelo Inep, acompanha desenvolvimento profissional, trabalho docente e ambiente de ensino e aprendizagem. Seus resultados reforçam a importância de analisar as práticas pedagógicas em relação às condições concretas de trabalho.

Não basta acrescentar responsabilidades à profissão docente e chamar isso de inovação pedagógica. Acolher não pode significar sobrecarregar.

O professor pode acolher, escutar, perceber sinais de sofrimento, trabalhar relações, convivência, ética e conflitos. Isso, porém, é diferente de exigir que faça intervenção psicológica ou seja responsabilizado pela saúde mental dos estudantes.

Há situações que demandam profissionais especializados e políticas públicas intersetoriais. A escola tem função educativa fundamental, mas não pode ser responsabilizada isoladamente por problemas que ultrapassam sua função pedagógica.

 

Formação humana

É nesse ponto que a discussão encontra a mercantilização da formação. Não precisamos rejeitar o desenvolvimento socioemocional para perceber que determinadas formulações dessa agenda podem aproximar-se de uma racionalidade de mercado.

Persistência, autocontrole, responsabilidade, autonomia, flexibilidade, resiliência e projeto de vida são características importantes, mas podem assumir finalidades distintas.

Podem contribuir para uma formação humana crítica, democrática e coletiva ou ser convertidas em atributos individuais necessários para que cada sujeito se torne mais adaptável, competitivo e produtivo.

Pesquisa publicada na Educação em Revista, a partir da análise de materiais didáticos de Projeto de Vida aprovados pelo PNLD de 2021, identificou relações entre determinadas formulações das competências socioemocionais e uma racionalidade neoliberal marcada por concorrência, individualidade, resiliência e autonomia.

Isso não significa que toda educação socioemocional seja neoliberal, mas indica a necessidade de analisar criticamente o conteúdo e a finalidade dessas propostas.

A pergunta, então, é: estamos formando sujeitos capazes de compreender e transformar a realidade ou sujeitos cada vez mais preparados para adaptar-se individualmente a ela?

Protagonismo juvenil

Essa questão aparece também no chamado protagonismo juvenil. Participar, argumentar, tomar decisões, conhecer direitos, compreender a realidade e atuar coletivamente pode ser profundamente democrático. Mas “você é responsável pelo seu destino” pode esconder uma armadilha quando transforma sucesso e fracasso em resultados quase exclusivamente individuais.

O jovem que conseguiu venceu porque teve determinação; o que não conseguiu precisa desenvolver mais resiliência. Nesse raciocínio, as condições sociais tornam-se pano de fundo e a desigualdade corre o risco de desaparecer atrás da linguagem das competências.

Talvez seja necessário recuperar, portanto, a dimensão social do “socioemocional”. Emoções não são produzidas no vazio. Medo, vergonha, insegurança, autoestima, esperança, pertencimento e confiança são atravessados pelas relações sociais e pelas experiências concretas dos sujeitos.

Pesquisas internacionais mostram, ainda, diferenças nas competências socioemocionais associadas a fatores como gênero e condição socioeconômica. Se são socialmente atravessadas, não podem ser tratadas apenas como atributos individuais que cada estudante precisa desenvolver.

A escola pode ensinar cooperação em uma sociedade competitiva, solidariedade em um contexto de individualização e pensamento crítico em uma cultura de respostas rápidas. Pode ensinar responsabilidade sem transformar o sujeito em único responsável por sua trajetória; ensinar resiliência sem ensinar conformismo; falar de projeto de vida sem fazer da vida um projeto empresarial.

É nesse cenário que a formação docente ganha centralidade. Se queremos que professores trabalhem com a dimensão emocional dos estudantes, precisamos evitar dois extremos: imaginar que o professor não precisa fazer nada diante das dimensões emocionais da aprendizagem ou acreditar que ele deve ser responsável por resolver tudo.

Entre eles existe uma concepção pedagógica mais complexa: compreender o desenvolvimento humano, reconhecer emoções, construir relações respeitosas, mediar conflitos, estabelecer limites e criar ambientes em que os estudantes possam falar, escutar, argumentar e conviver, sabendo também onde termina a responsabilidade pedagógica e começa a necessidade de outros profissionais e políticas públicas.

Talvez seja isso que uma formação docente consistente possa oferecer: não um manual de técnicas para “gerenciar emoções”, mas instrumentos teóricos e pedagógicos para compreender o estudante como sujeito histórico, social e singular.

 

Limites educativos

A discussão pode retornar, assim, ao ponto de partida: a necessidade de formar meninos e meninas para reconhecer seus sentimentos sem se tornarem prisioneiros deles. Queremos homens capazes de dizer “estou com medo” sem acreditar que isso diminui sua masculinidade; mulheres e homens capazes de pedir ajuda; crianças que possam chorar sem serem humilhadas.

Mas também queremos sujeitos capazes de ouvir um “não”, enfrentar frustrações, assumir consequências, respeitar limites e responsabilizar-se por seus atos.

Isso não é uma educação sem autoridade. É uma educação que substitui o autoritarismo pela autoridade pedagógica e a permissividade pela responsabilidade. O desafio contemporâneo talvez seja justamente este: acolher sem abandonar; limitar sem humilhar; formar autonomia sem individualizar o fracasso; ensinar resiliência sem naturalizar a desigualdade; reconhecer as emoções sem psicologizar toda a vida escolar.

As competências socioemocionais podem fazer parte da formação humana. Mas precisamos perguntar continuamente: qual formação humana, para qual sociedade e a serviço de quais finalidades?

Uma educação verdadeiramente comprometida com a formação integral não deveria ensinar apenas o estudante a adaptar-se melhor ao mundo que existe. Deveria ajudá-lo a compreendê-lo, posicionar-se diante dele e participar de sua transformação.

 

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Ana Clara Moreira Há 1 hora Z. Oeste SPAlessandra, sou professora há 20 anos, aqui em São Paulo, e me identifiquei muito com essa reflexão. A gente percebe no dia a dia como muitos jovens têm dificuldade para lidar com frustrações, limites e com aquilo que simplesmente não acontece do jeito que eles esperavam. Gostei muito da análise, discussão necessária de um jeito muito próximo da realidade de quem está em sala de aula.
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Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
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