O portal Metrópoles revelou que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, do qual ele é sócio único, emitiu duas notas fiscais de R$ 500 mil cada, no dia 7 de abril de 2025, em favor da Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A., empresa apontada pela Polícia Federal como fachada usada por Daniel Vorcaro para movimentar R$ 58 milhões do Banco Master.
As duas notas foram canceladas no mesmo dia. Dois dias depois, o escritório emitiu uma terceira nota, também de R$ 500 mil, para outra empresa ligada ao mesmo administrador, a Contábil Correa. Essa não foi cancelada. Flávio nega qualquer irregularidade e afirma que as notas canceladas "não movimentaram nada".
Um documento fiscal não nasce sozinho. A nota de serviços é emitida quando o serviço é prestado, quando há medição contratual, ou, em casos específicos, quando há pagamento antecipado. Ninguém preenche esse papel por distração.
A defesa propõe outra lógica: as notas foram canceladas, logo o serviço nunca existiu. É uma inferência que troca uma pergunta difícil por uma fácil. A difícil é "por que essas notas foram emitidas?". A fácil é "essas notas ainda valem para o fisco?". A defesa responde à segunda e finge ter respondido à primeira.
O cancelamento decide apenas o destino tributário do papel. Nada mais. Duas notas de meio milhão de reais não brotam do nada, e apagar seus efeitos depois não apaga o fato de que existiram. Cancelar pressupõe que havia algo a cancelar.
Apague um e-mail e ele some da caixa de entrada. Isso não significa que ele nunca foi escrito. Quem confunde as duas coisas não está fazendo direito tributário, está fazendo mágica.
A pergunta segue intacta: o que motivou a emissão dessas notas para uma empresa que a própria Polícia Federal investiga por movimentar recursos de Vorcaro? Desistência não gera nota fiscal. Serviços prestados geram. Só contratos, comunicações e movimentações financeiras respondem a isso. O cancelamento não responde, apenas empurra a pergunta para depois. E empurrar não é a mesma coisa que responder.
Nesta quinta-feira (23), o ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a investigar os repasses ao filme "Dark Horse", outra ponta do mesmo novelo que envolve Flávio e Vorcaro. Resta saber se a emissão das notas também entrará no escopo da apuração. Enquanto isso não acontece, a pergunta original permanece de pé.
Leia: Mendonça autoriza investigação da PF sobre repasses para filme de Bolsonaro
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