O feminicídio começa com uma ideia

A violência contra a mulher não começa no ato, começa na lógica que transforma controle em direito.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
25/03/2026 às 09h04 Atualizada em 25/03/2026 às 09h22
combate a violência

A ideia de que a mulher deve satisfação, de que o amor é uma forma de posse e de que o vínculo autoriza controle.

Quando essa ideia se instala, o término deixa de ser apenas o fim de uma relação. Passa a ser vivido como insubordinação.

É aí que entra o ressentimento.

O homem que não suporta a perda de sua propriedade interpreta o abandono como traição à ordem que ele acredita ter direito de impor.

A dor que sente pelo abandono é ferida de autoridade, e a sensação de que algo que lhe pertencia escapou.

O discurso red pill dá forma a essa ferida. Nomeia o incômodo, simplifica a explicação e oferece um roteiro de interpretação e de ação. Ensina o homem a ler o término como traição, a autonomia como desvio e a recusa como afronta.

Ao mesmo tempo, indica como reagir: retomar o controle, punir o que foi visto como desobediência e restaurar a ordem que ele acredita ter perdido.

Eles conseguem, com isso, transformar o que era fracasso íntimo em tese coletiva, e o sofrimento vira acusação.

Da frustração à justificativa

O que acontece aí é que, a partir dessa organização, a violência se inscreve em uma linguagem, e, como tal, deixa de ser vivida como ruptura para aparecer como coerência. Passa a fazer sentido dentro de uma lógica que já estava montada.

O gesto extremo não surge como excesso, mas como continuidade de uma narrativa que transforma frustração em injustiça e autoriza a correção pela força.

Nenhum discurso mata por si só, mas prepara o terreno. Reduz o estranhamento diante da ideia de punição, desloca os limites do aceitável e faz o impensável circular como hipótese.

O inaceitável passa a parecer compreensível. E o compreensível, pouco a pouco, ganha estatuto de justificável.

Aqui está o ponto central. Quando a linguagem muda, o limite moral também muda. A violência não aparece mais como quebra da ordem, e passa a ser percebida como resposta dentro de uma ordem reorganizada.

O feminicídio aparece, então, como um ato extremo, mas coerente com essa lógica. Não é explosão. É conclusão.

Por isso tantos casos acontecem depois do término. Porque o momento em que a mulher afirma sua autonomia é o momento em que essa fantasia de domínio entra em colapso.

E os caras não aguentam o colapso.

A gramática da violência

O problema não está apenas no indivíduo que mata, mas na gramática que ele aprendeu a falar. Uma gramática que molda e constrói sua forma de existir, organizando uma subjetividade autoritária, orientada pelo domínio, pela imposição e pela violência contra as mulheres.

Essa gramática hoje encontra abrigo político. Ela circula, se legitima e ganha escala em ambientes ideológicos que tratam igualdade de gênero como ameaça, que reabilitam hierarquias e que oferecem linguagem para o ressentimento masculino se apresentar como justiça. Não é coincidência. É afinidade.

À medida que essa linguagem se espalha, o mundo fica mais perigoso para mulheres, porque, no limite, tanto o militante da machosfera quanto o homem que mata operam a partir do mesmo princípio: a recusa em reconhecer a mulher como sujeito.

E quando o outro não é sujeito, sua recusa deixa de ser um direito. Vira um erro a ser corrigido. É nesse ponto que a política deixa de ser abstrata.

Ela define quais vidas importam, quais violências são toleradas e quais discursos encontram proteção.

Por isso, para as mulheres, a escolha política não é periférica. É concreta. É cotidiana. É sobre segurança, sobre autonomia e sobre a possibilidade de existir sem autorização.

Penso que mulheres precisam votar em mulheres que enfrentam essa lógica. Porque, do outro lado, o que está em jogo não é apenas opinião. Está em jogo a linguagem que autoriza a violência, e as condições que permitem que ela aconteça.

 

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Letícia Há 6 meses BrasíliaAndre, super importante seu texto. Importante falarmos todos os dias sobre esse assunto. Chega de violência contra nós mulheres
Thaís Ribeiro Há 6 meses Setor Oeste GoianiaÓTIMO ARTIGO! Concordo com vc quando vc diz que a violência contra nós mulheres começa com algo simples e vai evoluindo.
EdnaHá 6 meses BsbCirúrgico. O feminicídio nasce da crença de que a mulher deve satisfação e de que o amor é posse. O discurso Red Pill organiza esse ressentimento em roteiro de controle. Precisamos falar mais sobre essa “gramática da violência” que prepara o ato extremo. Parabéns pela coluna, André.
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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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