Barbárie de Itumbiara: quando o amor vira punição 

Crime escancara a lógica do controle e da posse que transforma frustração masculina em violência extrema contra mulheres e filhos.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
14/02/2026 às 17h04 Atualizada em 25/02/2026 às 08h13

O secretário da prefeitura de Itumbiara, Thales Machado, em foto com a mulher e os filhos 

Há algo que muitas mulheres entendem imediatamente, mesmo antes de qualquer análise:o perigo que nasce quando um homem sente que foi desafiado.

Não é apenas sobre ciúme. Não é apenas sobre traição. É sobre controle.

Quando um pai mata os próprios filhos para punir a esposa por uma suposta traição, o que se revela não é um surto inexplicável. É uma lógica antiga: se você me fere, eu destruo o que você mais ama.

Isso não é amor ferido. É poder ferido.

E toda mulher sabe o peso dessa ameaça, mesmo quando ela nunca se concretizou. Está nas frases que já ouviu. Está na forma como muitos homens falam de “minha mulher” como posse. Está no medo silencioso que acompanha separações difíceis. Está na estatística que insiste em mostrar que o momento de maior risco para uma mulher é quando ela decide ir embora.

A cultura da posse

O que chama atenção nesses casos é o absurdo: como alguém pode destruir os próprios filhos?

Mas talvez a pergunta mais honesta seja outra: quantas vezes o amor já foi confundido com propriedade?

Desde cedo, muitas mulheres aprendem que precisam cuidar do ego masculino. Que precisam suavizar conflitos. Que precisam evitar “provocar”. Que precisam medir palavras. Porque sabem que há homens que não suportam frustração.

Quando a masculinidade é construída sobre domínio não é masculinidade, é virilidade, e com isso qualquer autonomia feminina pode ser vivida como humilhação.

violência

E para alguns, a humilhação é insuportável. O gesto extremo não nasce do nada.

Ele nasce de uma cultura que ensinou que perder é ser diminuído, que ser traído é ser ridicularizado, que a honra masculina precisa ser restaurada.

Mas ninguém fala da honra das mulheres. Ninguém fala da violência emocional que antecede a violência física. Ninguém fala do cansaço de viver em alerta.

A honra masculina e o silêncio sobre as mulheres

Quando um homem destrói a própria família para punir uma mulher, ele está dizendo algo brutal: “Se você não é minha, nada mais existe.”

E isso não é paixão. É aniquilação.

O que dói nesses casos não é apenas o crime. É a constatação de que, para alguns homens, os filhos não são sujeitos amados — são extensões de poder. São territórios simbólicos. São instrumentos.

O amor verdadeiro não transforma o outro em arma. E talvez seja por isso que tantas mulheres, ao lerem notícias assim, não sintam surpresa — sintam reconhecimento. Reconhecem o padrão. Reconhecem a lógica do controle. Reconhecem a fúria de quem não aceita não ser mais o centro.

O problema nunca foi a traição. O problema é a incapacidade de aceitar que a mulher é um sujeito livre.

Enquanto houver homens que confundem vínculo com posse, autonomia com afronta, e frustração com autorização para punir, histórias assim continuarão a acontecer.

E é por isso que esse tema não é sobre um indivíduo. É sobre estrutura.

O amor que depende de submissão não é amor. É dominação.

E toda mulher que já precisou diminuir o brilho para não provocar insegurança masculina sabe exatamente do que estamos falando.

 

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Simone Há 8 meses Brasília DFExcelente reflexão!!!!
Nayara Há 8 meses SPEu imagino a dor da mãe, dos avós. Só Deus
Rosane Há 8 meses SpHistória triste
Raiana Há 8 meses Castelo BHObrigada por esse texto André. Pessoal, vamos fazer esse texto chegar ao maior número de homens e mulheres
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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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