Caso Beatriz: entre regras e autonomia

O episódio da pesquisadora e seus reflexos na Pós-Graduação no Brasil

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
24/01/2026 às 12h38 Atualizada em 01/02/2026 às 11h44
Beatriz Bueno - pesquisadora

Entre regras e autonomia: o que o Caso Beatriz Bueno pode revelar sobre a Pós-Graduação no Brasil

 

A recente expulsão da mestranda Beatriz Bueno do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (UFF) reacende um debate antigo, mas ainda pouco enfrentado no meio acadêmico: os limites - explícitos e implícitos - que moldam os temas de pesquisa na pós-graduação stricto sensu no Brasil.

Beatriz, de 28 anos, pesquisava o conceito de “parditude”, uma proposta que busca centralizar a figura da pessoa parda no debate racial brasileiro, defendendo que pardo não é negro e que há uma vivência multirracial específica, marcada por exclusões tanto do lado branco quanto do lado preto.

A proposta, como era de se esperar, gerou reações intensas. Segundo a própria estudante, a resistência ao seu tema começou antes mesmo da aprovação no programa, quando foi orientada a apresentar um projeto mais abrangente para evitar a reprovação no processo seletivo.

Uma vez dentro, no entanto, ela afirma que não teve apoio do orientador e que, após conflitos com colegas e professores, foi alvo de perseguição e manipulação das regras do programa, culminando em sua expulsão.

A UFF, por sua vez, nega qualquer tipo de perseguição. Em nota oficial, a universidade afirma que o desligamento da estudante se deu por critérios objetivos: reprovação em duas disciplinas obrigatórias, o que, segundo o regimento interno, é motivo suficiente para o desligamento de qualquer aluno.

Universidade Federal Fluminense (UFF)

A decisão, segundo a instituição, foi tomada pelo colegiado do programa, com a participação de docentes, representantes discentes e da própria estudante, e respaldada pelas instâncias superiores da universidade.

Bueno contesta essas reprovações, alegando que também foram motivadas por perseguição.

Independentemente do mérito da decisão - e aqui não se trata de tomar partido nem da universidade, nem da ex-mestranda - o caso escancara uma tensão estrutural que atravessa os programas de pós-graduação no Brasil: a distância entre a liberdade teórica de pesquisa e os limites práticos impostos por orientadores, linhas de pesquisa e regras institucionais.

A pós-graduação stricto sensu, que deveria ser o espaço por excelência da produção de conhecimento novo, muitas vezes se transforma em um ambiente de adaptação forçada, em que o estudante precisa moldar seu objeto de estudo às expectativas, interesses e financiamentos já existentes.

É comum que alunos ingressem com projetos ousados, inovadores ou simplesmente diferentes, e logo se vejam pressionados a redirecionar suas pesquisas para temas mais palatáveis, mais próximos das áreas de domínio dos orientadores ou mais alinhados com as linhas de pesquisa do programa.

Essa prática, embora compreensível do ponto de vista da viabilidade acadêmica  (afinal, um orientador não é obrigado a acompanhar um tema que desconhece) pode empobrecer o campo científico como um todo. A diversidade de temas, enfoques e perspectivas é o que garante a vitalidade da pesquisa acadêmica.

Quando se fecha o leque de possibilidades, perde-se a chance de explorar novas fronteiras do conhecimento, de dar voz a experiências marginalizadas e de tensionar os consensos estabelecidos.

No caso de Beatriz, sua proposta de pensar a multirracialidade brasileira fora da lógica da hipodescendência - ou seja, da ideia de que qualquer pessoa com ascendência negra deve ser considerada negra - pode até ser controversa, mas é, sem dúvida, um convite ao debate. E o debate, por definição, é o motor da ciência.

Por outro lado, é preciso reconhecer que nem todo tema é, de fato, adequado à pesquisa acadêmica. A originalidade não pode vir à custa da consistência metodológica, da viabilidade teórica ou da relevância científica.

sede do Ministério da Educação, em Brasília

Os programas de pós-graduação também estão submetidos a regras institucionais, tanto internas quanto externas, como as diretrizes da CAPES e do MEC, que exigem produtividade, coerência entre projetos e linhas de pesquisa, e resultados mensuráveis.

O desafio, portanto, é encontrar um ponto de equilíbrio entre a liberdade de cátedra e a responsabilidade institucional, entre a inovação e a viabilidade, entre o desejo do pesquisador e a estrutura do programa.

O caso de Beatriz Bueno, ainda que envolto em polêmicas e lacunas de informação, nos obriga a olhar com mais atenção para o funcionamento dos programas de pós-graduação no Brasil. É preciso garantir que os estudantes tenham espaço para desenvolver suas ideias, mesmo (e talvez principalmente)  quando elas desafiam os paradigmas estabelecidos.

Ao mesmo tempo, é necessário fortalecer os mecanismos de orientação, acompanhamento e avaliação, para que a pesquisa mantenha seu rigor e sua relevância.

A formação de mestres e doutores não pode ser apenas uma reprodução de saberes já consolidados. Ela deve ser, acima de tudo, um espaço de construção, questionamento e transformação.

E para isso, é preciso coragem institucional para acolher o novo, mesmo quando ele incomoda.

Você já teve alguma experiência ou conhece alguém que passou por algo parecido na pós-graduação?

 

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A republicação é gratuita desde que citada a fonte. Citação formato ABNT: SOBRENOME, Nome do Autor. Título do Artigo. Lead Notícia, 2025. Disponível em: [inserir o link da página do artigo]. Acesso em: [data].

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Renata Falcão Há 8 meses Asa Norte DF Análise perfeita! Não faz sentido o que caso da Beatriz. Imagina! Casos como este evidenciam que a autonomia acadêmica, embora formalmente assegurada, ainda é fragilizada por estruturas institucionais rígidas, pouco abertas à divergência metodológica e teórica. O desafio está em equilibrar regulação e liberdade sem transformar normas em instrumentos de silenciamento intelectual. Vasconcelos meu querido , vc vivem em qual mundo? Eu hein
Tobias Castro Há 8 meses BHComo aqui tb é um espaço de opinião, Vasconcelos discordo totalmente de vc. A universidade perde sua função crítica quando a observância às regras se sobrepõe ao debate plural. A produção científica exige critérios, mas também ambientes capazes de absorver o dissenso, condição essencial para o avanço do conhecimento e para a legitimidade acadêmica.
Vasconcelos Há 8 meses Lago Sul DFDiscordo da ideia de que o conflito central esteja na restrição à autonomia acadêmica. Programas de pós-graduação operam a partir de pactos institucionais claros, e a observância às regras é condição para a coerência científica e para a avaliação pública da pesquisa. Autonomia não pode ser confundida com liberdade irrestrita, sob pena de enfraquecer os próprios critérios que sustentam a legitimidade acadêmica.
Dalva Há 8 meses DFLamentável !!!
Josafá CésarHá 8 meses Vitória Primeiramente, parabéns pela coluna, dra. Alessandra. Acompanho sempre seus textos e também os de outros colunistas do Lead. Os temas são sempre muito relevantes e tratados com profundidade, o que faz diferença no debate público. Minha pergunta é: como reverter esse tipo de situação na pós-graduação? Você acredita que isso seja realmente possível?
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Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
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