O Brasil tem avançado na luta contra o analfabetismo, um dado que merece ser celebrado.
Em 2024, o país registrou cerca de 9,1 milhões de analfabetos, o que representa uma taxa de 5,3% da população acima de 15 anos, o menor índice desde 2016, conforme dados do IBGE.
No entanto, essa conquista numérica não nos permite ignorar um desafio ainda mais complexo e insidioso: o analfabetismo funcional.
Este fenômeno, que afeta alarmantes 29% dos brasileiros, revela que saber decodificar letras e palavras não garante a plena compreensão e uso da informação no cotidiano, um problema que, preocupantemente, tem crescido entre os jovens.
Para entender a dimensão desse quadro, é fundamental distinguir o analfabetismo absoluto daquele que o Inaf Brasil (Indicador de Analfabetismo Funcional) nos ajuda a mensurar.
Enquanto o primeiro se refere à incapacidade de ler e escrever, o analfabetismo funcional descreve a dificuldade de interpretar textos, realizar operações matemáticas básicas e aplicar conhecimentos em situações práticas. É a pessoa que lê um contrato, mas não compreende suas cláusulas; que acessa uma notícia, mas não consegue discernir a veracidade ou a intenção por trás dela.
As consequências são vastas, impactando desde a autonomia individual até a participação cívica e profissional.
Ainda que os avanços sejam notáveis, a concentração do analfabetismo absoluto persiste em regiões como o Nordeste, e é mais prevalente entre idosos, pretos e pardos, evidenciando as profundas desigualdades sociais e raciais que marcam a educação brasileira.
Pesquisadores apontam a pandemia de COVID-19 como um fator determinante, com o fechamento das escolas e a interrupção das aulas presenciais, que aprofundaram lacunas de aprendizado e impactaram a formação consistente.
Nesse cenário, a importância de uma formação educacional robusta e não apenas a obtenção de um certificado de conclusão da educação básica se torna evidente. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê os exames supletivos, que, embora importantes, muitas vezes são utilizados como uma estratégia simplificada para a certificação, sem garantir a aquisição de competências essenciais.
Atrelado a esses dados, temos o enfraquecimento da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil, que perdeu 1,2 milhão de vagas em 10 anos, prejudicando não apenas os estudantes que buscam essa modalidade, mas o próprio fortalecimento do ensino.
Analisando o perfil da EJA, observamos que, apesar de ser uma modalidade que acolhe idosos, a maior parte de seus estudantes (63,9% das matrículas) tem menos de 40 anos.
Além disso, ela se destaca por concentrar um elevado percentual de alunos pretos e pardos (76,8%), segundo o Censo e a PNAD. Isso sublinha seu papel vital na correção de trajetórias educacionais interrompidas e na promoção da equidade.
Recentemente, observa-se um aumento das matrículas na EJA ligadas à educação profissional, o que nos leva a uma reflexão importante: como alinhar as necessidades profissionais e econômicas com uma educação ideal?
No Brasil, temos um contingente de pessoas sem educação básica equivalente à população da Itália ou da França, como bem pontua Wisley Pereira, Superintendente de Educação do SESI). É fundamental estabelecer a diferença entre formação para o trabalho e formação integral.
A primeira foca em habilidades técnicas e conhecimentos específicos para uma profissão, preparando para o mercado. A segunda, a educação integral, é mais ampla, visando o desenvolvimento humano completo – intelectual, físico, emocional, social e cultural – preparando o indivíduo para a vida, e não apenas para o emprego.
Para uma leitura crítica do mundo, sem dúvidas, a educação integral é o melhor caminho. Afinal, como ter acesso ao letramento digital, por exemplo, sem uma base sólida de leitura crítica?
Casos de pessoas sendo enganadas na internet por golpes sofisticados, como namoros com famosos que usam inteligência artificial em videochamadas, revelam um baixíssimo nível de maturidade emocional e consciência da realidade, diretamente ligado à falta de uma formação que desenvolva o senso crítico e a capacidade de discernimento.
Diante dessa realidade, é imperativo que as políticas públicas incentivem a ampliação das matrículas na Educação de Jovens e Adultos e programas de formação continuada de professores para essa modalidade.
Educar jovens e adultos exige do professor, para além da formação pedagógica, uma atenção especial aos processos metodológicos adequados à especificidade da modalidade, à concepção teórica que será adotada e à compreensão do que essa concepção pode trazer de resultados adequados à qualidade social do ensino.
Para tanto, é necessário que o profissional tenha formação pedagógica adequada ao atendimento dessas necessidades. Somente assim poderemos construir uma sociedade verdadeiramente letrada, crítica e autônoma.
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