A recente declaração do Governador de São Paulo (SP), Tarcísio de Freitas (Republicano), em que afirma que "diploma cada vez tem menos relevância" ao defender a expansão do Ensino Médio Técnico nas escolas estaduais, ecoa como um alerta e exige um olhar mais analítico.
Longe de ser uma constatação neutra, essa afirmação simplista ignora complexidades históricas, econômicas e sociais, levantando uma questão fundamental: a quem interessa que jovens se mantenham em trabalhos técnicos e que não tenham acesso ao ensino superior?
Para compreender a intencionalidade por trás de tal discurso, é necessário recordar a perspicaz observação de Darcy Ribeiro: "a crise da educação no Brasil não é uma crise. É projeto!"
A desvalorização do ensino superior, portanto, pode ser interpretada como parte de um projeto maior, que, ao invés de promover a ascensão social e intelectual, busca moldar a educação para atender a demandas imediatas do mercado. Essa visão remete à "Pedagogia da Fábrica" (2011), conforme analisado por Acácia Kuenzer, em que a formação é instrumentalizada para as relações de produção, muitas vezes em detrimento da formação integral e crítica do indivíduo.
Como nos lembra Sacristán (2007), "escolher o discurso é escolher a lente para olhar e em que terrenos vamos nos mover", e discursos como o do Governador de SP não são neutros; eles carregam intencionalidades e visões de mundo que merecem ser questionadas.
Não raro, a crise econômica é utilizada como pano de fundo para justificar a ideia de que é preferível ter uma massa de trabalhadores em subempregos, conformados e agradecidos pela oportunidade, do que cidadãos capacitados técnica e intelectualmente, aptos a lutar por melhores condições e a exigir mais do próprio governo.
Essa perspectiva se agrava quando consideramos a falácia de um "mercado presumido" para o qual o ensino médio, especialmente o técnico, estaria preparando os jovens.
A realidade, contudo, muitas vezes não alcança essa promessa.
Minha pesquisa de doutorado, por exemplo, revela a discrepância entre o discurso e a prática em municípios do interior do Ceará.
Nesses locais, a escassez de oportunidades de cursos técnicos desmascara a ideia de que o aluno será protagonista e poderá escolher seu percurso formativo por meio dos itinerários do Novo Ensino Médio (2018).
A falta de opções concretas contradiz a premissa de autonomia e equidade, expondo a fragilidade de um modelo que, em muitos contextos, não se sustenta. Essa realidade está presente em vários outros estados do país.
Contrariando a narrativa da irrelevância, dados concretos demonstram o valor inegável do diploma universitário. Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) aponta que trabalhadores com ensino superior ganham mais que o dobro de profissionais menos escolarizados.
Além disso, o Censo de Educação Superior de 2023 registrou quase 10 milhões de alunos matriculados, o maior aumento nos últimos nove anos, evidenciando a busca contínua e a valorização da população pelo ensino superior.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) reforça essa disparidade, mostrando que a diferença salarial entre trabalhadores com ensino superior e médio pode chegar a quatro vezes, variando, é claro, de acordo com a área de formação, acesso a ocupações e aproveitamento do conhecimento adquirido.
Para além da inegável vantagem econômica, a formação no ensino superior transcende a mera qualificação profissional, tocando em uma dimensão social crucial.
Embora não garanta automaticamente uma formação emancipatória, ela propicia acesso a conhecimentos diferenciados e, fundamentalmente, contribui para a expansão da consciência crítica.
Nesse sentido, a educação, como bem observou Michael Apple (2010), tem o poder de "mudar a sociedade". Negar ou desvalorizar o acesso ao ensino superior é, portanto, cercear a capacidade de indivíduos e da própria sociedade de questionar, inovar e progredir.
Em suma, a fala do Governador sobre a suposta irrelevância do diploma universitário não se sustenta diante dos fatos históricos, econômicos e sociais.
O diploma, longe de perder seu valor, permanece como um instrumento fundamental para o desenvolvimento individual, a ascensão social e a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.
É imperativo que as políticas educacionais garantam o acesso equitativo e de qualidade ao ensino superior para todos os jovens, reconhecendo-o como um direito inalienável e um pilar essencial para o futuro do país.
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