Estou eu desfilando pelos corredores de um dos meus trabalhos, bem linda, com cachos ao vento e aquele sol das 17h batendo na minha pele marrom, recém conquistada em Salvador. Porque antes ela era quase um amarelo desbotado. Um marrom anêmico.
Quando, de repente, um homem — um senhor pardo, sorridente — me para e diz:
— Parabéns!
Ele disse aquilo com um sorriso tão largo e sincero que, por alguns segundos, eu nem entendi do que se tratava.
E eu, que sou dada — e fico ainda mais dada quando recebo um sorriso — sorri de volta:
— Mas parabéns pelo quê? Deve estar me confundindo com minha colega de trabalho, né? Ela é famosa aqui e dizem que somos parecidas (P.S.: porque todo mundo acha que preto é tudo igual).
Ele balançou a cabeça, insistindo com o mesmo sorriso:
— Parabéns! Amanhã é feriado, né? Dia da Consciência Negra!
Por um momento, pensei em discursar. Pensei em virar militante ali mesmo no corredor. Mas algo em mim travou. Talvez o sorriso sincero dele. Talvez a inocência. Talvez a falta de intenção. Eu não senti maldade naquele homem. (Me julguem! A Gabi sensitiva me disse pra não atacar.)
Eu só sorri, agradeci e dei um abraço. Saí reflexiva — e nem consegui sentir raiva.
Não era um racista ali. Era um homem que representa tantas pessoas que nunca tiveram acesso ao letramento racial. E incluo nessa parcela pessoas negras também. Pessoas negras mais velhas ou idosas.
Pessoas negras sem letramento racial e sem saber seus direitos quando passam por situações de injúria racial e racismo. Mas Gabi, impossível as pessoas não terem informação sobre qualquer tipo de assunto 'hoje'?! É possível sim.
É possível e já vi…Então, de acordo com o “Datagabi”, há pessoas que sofrem preconceitos e microagressões diariamente e só passaram a entender que se tratava de racismo há poucos anos — talvez até meses.
Porque com acesso à internet, vídeos, redes sociais, é possível falar mais sobre o assunto e dar informação e visibilidade ao tema de forma rápida. Hoje é possível notar que há mais filmes, séries em TVs abertas, campanhas políticas e projetos de inclusão.
Não é possível determinar o número exato de pessoas no Brasil sem acesso ao letramento racial, mas as estatísticas de analfabetismo e de experiências com discriminação racial indicam que a maioria das pessoas, especialmente negras, têm acesso limitado ao tema. Apresento abaixo alguns dados importantes:
Os números mostram que houve queda no analfabetismo em ambos os grupos, mas a desigualdade racial persiste de forma significativa. A falta de letramento racial está ligada à exclusão histórica da educação e se manifesta de diversas formas: desde a discriminação no cotidiano até a falta de acesso a oportunidades.
E preciso fazer meu papel de jornalista e dizer que o Governo Federal disponibiliza um curso gratuito de letramento racial. Depois você clica AQUI para conhecer os cursos.
Quero que o letramento racial e a história negra estejam no currículo escolar e sejam ensinados com orgulho, porque são parte da história deste país.
Algumas dessas pessoas talvez nem tenham se descoberto pretas. E olha que, muitas vezes, o “Chá Revelação” vem cedo.
Uma geração inteira que aprendeu a abaixar a cabeça, que não foi empoderada pelo conhecimento, pela história e pela educação. E eu acredito profundamente no empoderamento pela educação. Inclusive, leiam AQUI o texto da colunista Lead, Alessandra Moulin: Mulher negra no Brasil: memória e emancipação
O descobrir-se preta é um processo individual. Geralmente acontece quando a pessoa passa a ter consciência de sua identidade racial, muitas vezes em resposta à discriminação e ao racismo, e começa a valorizar sua ancestralidade, cultura e autoestima.
O meu Chá Revelação, por exemplo, aconteceu depois de anos tentando ser uma adolescente e jovem impecável, inteligente, com bons modos e educação. Lendo a Bíblia e livros sobre como ser a esposa perfeita. A mulher perfeita.
Recebia elogios de homens e garotos sobre eu ser muito bonita e inteligente. Que era para namorar e casar. Mas não com eles. Apesar de toda a cobrança que me fazia para ser perfeita, me vi não sendo escolhida por eles. E eu não conseguia entender o motivo. Até que como um estalo, me vi sendo substituída por uma moça muito bonita, branca, cabelos lisos e pretos impecáveis. Um corpo magro e esbelto. A gata era gata.
Não quero criar rivalidade entre mulheres. Muito pelo contrário: quero criar um ambiente de respeito e sororidade. Sororidade de verdade. E você pode me dizer que o rapaz somente não me quis e está tudo bem.
Mas naquela situação os sinais foram dados. E prometo que mais para frente vamos falar sobre sexualização do corpo negro e como algumas mulheres negras não são escolhidas.
Mas lembre-se: RAINHAS NÃO COMPETEM. (Sejam elas pretas, pardas, indígenas, brancas…)
Nem tente! Eu tenho preguiça, eu sou uma senhora.
O meu Chá Revelação trouxe luz para questionamentos, dores e cobranças que eu me fazia. E aceitar, sofrer e abraçar esse processo me trouxe cura, identidade e força.
Preciso contar pra vocês que, neste mês tão simbólico, eu fiz “check” em um sonho antigo: fui ao meu primeiro festival da vida. Fui ao AfroPunk em Salvador. Em SSA!!
E fui com amigas pretas que o intercâmbio na África do Sul me deu.
Lutar por nossos direitos também é isso: permitir que amigas pretas viajem juntas, ocupem espaços de celebração, e não só de cobrança e desempenho o tempo todo. É deixar a gente fazer nossa “trip de AfroPaty” para descansar, paquerar, se divertir…
Historicamente, mulheres negras se veem obrigadas a ser fortes e nunca demonstrar fraqueza em casa, no trabalho e até nos relacionamentos. Carregam o estereótipo da força inabalável.
Mas lutar também é descansar.
Viajar com minhas amigas pretas me fez me sentir nos filmes que eu via quando criança. Filmes em que meninas brancas viajavam juntas. Minha irmã diz que eu sou a Carrie Bradshaw preta, ou melhor, Afro Carrie Bradshaw, do Sex and the City.
Eu não tive representatividade nos filmes de “menininhas”, mas fico feliz de saber que sou representatividade para alguma jovem pretinha por aí.
Fui ao festival e à cidade pela primeira vez. Salvador, considerada a cidade mais negra fora da África.
De acordo com o Censo 2022 do IBGE, 88,21% da população de Salvador se autodeclara preta ou parda. Lá, é considerado um centro de preservação e celebração da cultura Afro-brasileira.
E viver o AfroPunk lá foi a realização de um sonho.
(P.S.: Ainda vou no AfroPunk em New York… bora?!)
Foram dias de pertencimento, celebração e de ver gente preta se achando linda. Muito linda. Porque é.
Foi tempo de passar por pessoas que eu nunca vi e dizer: “SOCORRO, seu lindooo!”
Foi um festival de diversidade, inclusão e novas amizades. O AfroPunk é potência, cultura e resistência negra. E eu precisava viver isso.
Foram dias de me arrumar com minhas amigas pretas, e isso pode parecer bobo, mas pra mim foi o céu. Eu tinha com quem compartilhar e pedir emprestada uma base que realmente daria com meu tom de pele.
Amo demais todas as minhas amigas não pretas. Conviver com elas me fez, e faz, crescer e amadurecer. Eu me considero uma privilegiada. Porém, comecei a ter amigas pretas há alguns poucos meses. E tem mudado minha vida. (Chorei aqui)
“Pessoas negras se sentem mais seguras emocionalmente quando cercadas de outras pessoas negras, é o poder de existir sem explicar.” (Du Maliki)
Demorei a vir, mas vim!
Minha galera, obrigada pelos comentários e amor deixados na última publicação. Eu leio cada um. Ainda não consigo responder tudo, mas quando der, eu respondo.
Desta vez, nosso “date" será publicado em dezembro, porque vivi novembro intensamente. E novembro, chama atenção, ou melhor, grita pelo reconhecimento do passado enfrentado pela população negra e pela luta contra as desigualdades que ainda persistem.
Mas também é celebração: de cultura, arte, saberes ancestrais e da contribuição imensa da população negra para a identidade brasileira.
O dia, e o mês, da Consciência Negra existem para que a história não seja esquecida.
E para construir um país onde igualdade não seja promessa, mas prática.
Poderia falar sobre Zumbi dos Palmares, sobre a origem da data… mas sei que vocês já viram tudo isso no TikTok, redes sociais, viram vídeos, leram colunas, jornais, matérias na TV e em sites.
Mas seguir celebrando quem somos. Lutando por nossos direitos e ocupando todos os espaços. Vamos sonhar e descansar. Isso também é luta.
Obrigada por me ler e pelo apoio!
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