Mulher negra no Brasil: memória e emancipação

A colunista Alessandra Moulin reflete sobre memória, identidade e a urgência da educação como caminho de emancipação.

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
20/11/2025 às 06h00 Atualizada em 28/11/2025 às 09h14
Dia da Consciência Negra

O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, não foi escolhido ao acaso. A data remete à morte de Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência contra a escravidão e da luta por liberdade.

Foi o Grupo Palmares, formado por jovens negros engajados na valorização da identidade afro-brasileira, que propôs essa data como contraponto ao 13 de maio — dia da assinatura da Lei Áurea.

A escolha não foi apenas simbólica, mas profundamente política: enquanto o 13 de maio marca a abolição formal da escravidão, o 20 de novembro exalta a luta ativa, a resistência e a força de um povo que nunca aceitou passivamente a opressão.

Com o passar dos anos, essa proposta ganhou corpo e se espalhou por diferentes regiões do país, sendo abraçada por movimentos sociais, como o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978.

Esses coletivos passaram a usar o 20 de novembro como um momento de reflexão, denúncia e afirmação da cultura negra no Brasil, enfrentando o silenciamento histórico e exigindo reparações.

O reconhecimento oficial e suas resistências

A importância da data foi reconhecida oficialmente em 2011, quando foi sancionada a Lei nº 12.519, instituindo o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. No entanto, foi apenas em 2023 que a data passou a ser considerada feriado nacional — um avanço que, por si só, revela o quanto ainda há resistência em reconhecer plenamente a relevância dessa pauta.

Afinal, quando é preciso lutar tanto para que um dia de memória seja respeitado, é sinal de que a realidade que ele denuncia ainda está longe de ser superada.

Celebrar o 20 de novembro é, portanto, mais do que lembrar o passado: é um ato de afirmação, de resistência e de compromisso com a justiça. É um convite para olharmos com mais atenção para a história que nos foi negada, para os rostos que foram apagados dos livros, e para os legados que nos foram deixados por aqueles que vieram antes de nós.

Pensar sobre essa data é, acima de tudo, honrar nossos ancestrais e reafirmar que suas lutas continuam vivas em nós.

Ser mulher e preta no Brasil é carregar, todos os dias, uma herança de luta e também de dor. É caminhar com a cabeça erguida, mesmo quando o mundo insiste em nos fazer abaixar os olhos. É um exercício constante de resistência e, ao mesmo tempo, de reconstrução da autoestima.

Falar sobre o Dia da Consciência Negra é também falar sobre mim — sobre a minha trajetória, as minhas raízes e o orgulho que aprendi a cultivar, mesmo diante de tantas tentativas de apagamento.

Racismo, escola e o sentimento de não pertencimento

Alessandra Moulin - Doutora em Educação

Nem sempre foi fácil. Cresci como bolsista em uma escola de renome em Brasília, um espaço onde o prestígio falava mais alto que a empAitia. Lá, fui alvo de chacotas por ser negra, por vir de uma realidade social diferente da maioria dos meus colegas.

Os olhares atravessados, os comentários velados (e outros nem tanto), a sensação constante de não pertencimento… tudo isso me marcou profundamente. Havia um esforço silencioso — e às vezes escancarado — para me lembrar de que aquele lugar não era “meu por direito”. Como se eu estivesse ali por um favor, e não por mérito.

Mas foi no ensino médio, ao ingressar em uma escola pública — uma das melhores da época — que algo dentro de mim começou a mudar. Pela primeira vez, me senti acolhida. Ali, entre jovens que compartilhavam histórias parecidas com a minha, encontrei espaço para ser quem eu era, sem precisar me moldar para caber.

Fiz amizades verdadeiras, que carrego até hoje, e me envolvi de forma ativa na vida escolar. Fui líder de turma por dois anos, participei da comissão de formatura, e percebi que minha voz tinha valor. Pode parecer pouco para quem nunca precisou lutar por reconhecimento, mas para mim, foi transformador. Ser valorizada pelo que eu sou — e não pela cor da minha pele ou pela minha condição financeira — foi um divisor de águas.

Foi nesse período que comecei a me posicionar de forma mais crítica. Aprendi a não aceitar qualquer lugar que me indicassem, a questionar, a reivindicar. E essa consciência só se aprofundou durante minha formação pedagógica no ensino superior.

Os processos educativos que vivi moldaram quem sou hoje. Me ensinaram que a educação pode — e deve — ser um instrumento de emancipação, de reconstrução da identidade, de fortalecimento da autoestima. Estar em espaços que nos fazem olhar para dentro, reconhecer nosso valor e entender a potência da nossa história é fundamental.

É por isso que, mesmo que o ideal fosse não precisar de um "Dia da Consciência Negra", ele ainda é absolutamente necessário. Porque vivemos em uma sociedade que insiste em negar nossa importância, que tenta silenciar nossas vozes e apagar nossas contribuições.

Ter um dia para lembrar, refletir e afirmar quem somos é um ato político, um gesto de resistência e de amor-próprio. É uma forma de dizer: estamos aqui, somos parte fundamental da história deste país, e não vamos mais aceitar sermos colocados à margem.

A consciência negra não é apenas uma data no calendário. É um chamado à memória, à justiça e à valorização de tudo o que fomos, somos e ainda seremos.

 

Clique aqui e ouça o podcast 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Siga:  .Instagram: @prof.alemoulin 
           .YouTube: @draalessandramoulin 
           .Podcasts: Conexões Verbais

 

✅ Clique aqui para seguir o Lead Notícia no WhatsApp

 

A republicação é gratuita desde que citada a fonte. Citação formato ABNT: SOBRENOME, Nome do Autor. Título do Artigo. Lead Notícia, 2025. Disponível em: [inserir o link da página do artigo]. Acesso em: [data].

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
GABRIELLE VIEIRA DA SILVAHá 10 meses BrasíliaTexto necessário! A educação nos empodera!
Samuel Há 11 meses Barra Ituia Salvador Emocionante! Obrigado pelo texto Dra Alessandra
Carla Silva Há 11 meses Campo Grande RJParabéns pelo texto Dra Alessandra. Ótima análise e reflexão
Robson César Há 11 meses Recife Parabéns Dra Alessandra pelas conquistas! Parabéns a todas as mulheres negras pelas conquistas
Mostrar mais comentários
Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
Ver notícias
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,02 +0,03%
Euro
R$ 5,62 +0,11%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 440,526,60 -0,63%
Ibovespa
204,302,33 pts -0.74%
Publicidade
Publicidade
Enquete
...
...
Publicidade