P.S.: eu escrevi esse texto ouvindo a música: Home - Good Neighbours. Gosto de escrever ouvindo alguma música. Sempre que possível vou deixar uma dica e você pode colocar aí e vamos começar nossa conversa. Você pode me contar sobre as suas músicas também. Eu vou amar saber. Juro.
Você já vai entender o título… mas primeiro:
Oie, gatas! E gatos! (já que tenho leitores homens, vocês são bem-vindos no nosso clubinho!)
Descansados?
Eu confesso que não sei como começar este texto, mas me recordo de dizer que sempre serei eu.
Então, preciso contar pros gatos que fiquei travada sobre o que falar no nosso segundo encontro.
E olha que, quando me apresentei aqui — com toda a empolgação e felicidade —, eu disse que tinha (e tenho) vários temas pra gente conversar, e que não sabia por onde começar também.
Ou seja, temos um problema recorrente (juro que tô rindo sozinha aqui).
Quando eu sento para escrever, o que imagino é — e, por favor, imagina aí comigo: estamos sentados à mesa, tomando um café de domingo. E tem que ser o de domingo, aquele que a gente toma sem pressa (eu amo domingos).
Estamos conversando sobre as conclusões e reflexões da semana que passou e, com isso, tomando fôlego e aprendendo pra próxima que se inicia.
Falamos sobre o trabalho, as relações e sobre nós mesmos. Ah, e está tocando uma musiquinha boa de fundo, em volume ambiente.
Mas por que estou te contando tudo isso? Só pra dizer que é assim que me sinto nesse espaço — e pra agradecer por me ler na estreia.
Agradecer pelos comentários carinhosos (eu li todos!), pelos compartilhamentos e, principalmente, pelas trocas que tive. Pelas histórias que chegaram até mim.
Lembra que eu disse que seria mais legal se houvesse troca? Pois é, eu senti saudades de escrever mais, e olha que a gente começou essa relação agora. Talvez eu seja uma emocionada!
Mas, por enquanto, nossos encontros serão mensais — é o que essa senhora aqui consegue.
Eu gostaria de ter vindo antes, mas, como disse, estava travada. Fiquei assustada com o engajamento que vocês me deram (inclusive, parabéns pra vocês!).
Mas também fiquei com medo — aquele medo que faz a gente paralisar. E é sobre isso que quero falar.
Eu fui treinada. Lembra disso?
Até os meus 30, 31 anos, eu sentia — e sabia — que tinha sido treinada pra vida ou para enfrentar qualquer coisa. Tive a certeza quando, depois que meu pai saiu de dias de internação em uma UTI por causa da pandemia de Covid-19, eu o ouvi dizer para alguns familiares algo como:
“Eu estou orgulhoso das meninas. Elas conseguiram — e conseguem — resolver tudo. Enquanto eu estava inconsciente, eu treinei elas pra isso.”
Durante a adolescência e juventude, eu resolvia problemas, tinha respostas rápidas, dedicava meu tempo a estudar e crescer profissionalmente.
Sempre soube o que queria. Sempre muito responsável e focada.
Tinha — e ainda tenho — minhas listas de metas e objetivos. Agora também tenho um quadro de visualizações com fotos magnéticas. Afinal, eu preciso aprimorar.
Fui treinada pra ser, sempre que possível, a melhor.
Cresci ouvindo frases como: “Gabrielle, não corra atrás de algo, corra na frente! Um soldado não sente medo, não sente frio, não sente fome!"
Fui criada com frases motivacionais ou para me impulsionar — e gosto disso. Sou grata por todo o incentivo que tive dos meus pais; sem isso, eu não teria “metido o pé” nas portas que entrei.
Eu sei que meu Dad (o chamo assim carinhosamente, porque se hoje I speak English é porque ele me incentivou e foi exemplo) sempre me motivou do jeito dele, com as vivências que tem.
Lembro de sair para entrevistas de emprego e ele me dar dicas sobre roupa e cabelo, dizendo pra eu deixar preso, mais “comportado”.
Ao mesmo tempo, ele não gostava quando minha mãe alisava meu cabelo.
Acho que, no fundo, ele sabia que pra uma menina preta, nem tudo seria fácil.
Olhando pra trás, vejo que muita coisa foi pra me proteger e criar uma casca forte para enfrentar o mundo com “sangue nos olhos”. Mas também gerou uma autocobrança grande. Vieram junto o senso de responsabilidade cedo demais e o fardo de carregar e ajudar a todos. Aquele fardo que toda mulher preta conhece. Ele nasce do contexto social, das experiências e da estrutura de uma sociedade racista e desigual.
Ficar um dia no sol numa fila gigante pra conseguir uma bolsa na faculdade dos meus sonhos foi até tranquilo.
Acordar dias seguidos às 5h da manhã e sair do Entorno do Distrito Federal pra estudar em Brasília também foi tranquilo.
Fazer faculdade, estágio, curso de inglês e ainda ajudar nas tarefas de casa, tranquilo.
Ter dois empregos aos 30 pra realizar o sonho adolescente de estudar inglês fora, tranquilo também.
Mas, por muito tempo, eu acreditei que minha vida seria só luta — nunca celebração de conquistas, sejam ela pequenas ou grandes. Porque tudo é mais difícil pra gente, negronas. E faz com que a gente não enxergue tudo que já fizemos até aqui.
Quando vi o engajamento e comentários de vocês na minha primeira publicação, pensei: “Meu Deus! Estão falando de quem? Eu sou uma farsa?”
“Como essas pessoas querem me ler? Elas sabem que eu sou meio doida?”
Fiquei com medo de a coluna dar certo.
Fiquei com medo de muitas pessoas me lerem.
Fiquei com medo de coisas boas acontecendo.
Por coincidência — ou não — estou lendo o livro O medo de dar certo, da Natália Sousa. Uma terapia em forma de livro. Recomendo!
O medo de dar certo nos faz abandonar projetos, sonhos, amores que poderiam acontecer. Faz a gente abandonar uma longa estrada de preparo antes de chegar ao objetivo.
Às vezes estamos tão no automático, lutando e fazendo acontecer, que
esquecemos o verdadeiro propósito. E quando ele chega, não sabemos lidar. Ou não nos vemos naquele lugar. Ou acreditamos que aquele espaço não nos pertence.
E foi isso que aconteceu aqui. Eu pensei em mandar uma mensagem pro meu lindo editor-chefe e dizer:
"Melhor a gente parar o que nem começamos. Não vai dar certo."
Fiquei com medo das críticas que ainda virão. Porque, quando a gente se propõe a se abrir num ambiente virtual e ser acessada por mais pessoas, o normal é isso.
Precisei revisitar minha história. Lembrar como a Gabizinha se esforçou. Lembrar dos dias que só eu sei como foram. Lembrar das dores, da vergonha, da raiva.
Me vesti dessa história e entendi: é com ela que cheguei até aqui — e é com ela que vou continuar construindo o que virá.
Só você sabe a história que carrega — e essa é a sua força. Não digo pra você viver do passado, mas às vezes é preciso revisitar ele, mesmo que haja lembranças ruins.
Lembrar de tudo o que fez e passou para chegar até aqui. Ser grata, reconhecer seu esforço, ser gentil com você. E se permitir viver o bom. E reforço aqui que o bom não é somente coisas materiais, as vezes é um reconhecimento. Ou só ter paz.
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