Mulheres em movimento: conquistas e futuro

Um diálogo com a doutora em Psicologia Clínica e Cultura Giovana Vieth sobre gênero, igualdade e os desafios das mulheres na sociedade contemporânea.

Por: Ticiana Duailibe | coluna Palco e Vida
02/12/2025 às 06h00 Atualizada em 08/02/2026 às 17h57
Giovana Duailibe de Abreu Vieth

Hoje, na minha coluna Palco e Vida, recebo alguém que faz parte da minha história, da minha formação afetiva e da minha admiração diária: Giovana Duailibe de Abreu Vieth.

Ela é psicóloga, pedagoga, mestra e doutora em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB).

É dessas mulheres que estudam o mundo com profundidade e, ao mesmo tempo, o vivem com intensidade.

Ao longo de 16 anos de trajetória acadêmica, mergulha nas discussões de gênero, forma alunos, pesquisa, ensina e debate.

Hoje, é servidora concursada do Tribunal de Justiça do Maranhão, mãe dedicada de Guilherme, de 11 anos, e de Rafael, de 7 anos. Para minha alegria, é também minha irmã. 

Nesta entrevista especial, abrimos juntas uma conversa que atravessa vida, sociedade, escolhas e caminhos possíveis para as mulheres atuais.

Ticiana: Giovana, começo a nossa conversa perguntando: como você enxerga o papel da mulher na sociedade atual?

Não há dúvidas acerca do crescimento, tanto em números, quanto em representatividade, do papel da mulher na atualidade. Se pegarmos dados recentes, por exemplo, no que diz respeito à participação feminina em empregos formais, observamos um aumento crescente ao longo dos anos.

 

Mas temos que nos atentar aos recortes que devem ser feitos ao analisarmos papéis de gênero: estamos falando de que mulheres? Qual classe social elas pertencem? Qual sua escolaridade? Até bem pouco tempo, até mesmo em pesquisas acadêmicas, as mulheres que eram “objeto de estudo” eram apenas as consideradas brancas, escolarizadas e inseridas em classes sociais médias e altas.

 

Dessa forma, é necessário que todo estudo que versa sobre o gênero e suas políticas esteja pautado em, no mínimo, recortes de raça e de classe.

Ticiana: O que mudou nos últimos anos em relação à participação das mulheres em espaços de decisão?

Giovana Duailibe de Abreu Vieth

Apesar de algumas melhorias (como o dobro de CEOs mulheres em empresas grandes), a participação feminina em cargos realmente estratégicos ainda é muito baixa. A desigualdade salarial entre mulheres e homens em posições de chefia é significativa, reforçando que a presença feminina não significa necessariamente igualdade de poder ou remuneração.

A interseccionalidade (gênero + raça) agrava a disparidade: mulheres negras têm ainda menos acesso a vagas de liderança. Além disso, barreiras culturais e institucionais (como a dupla jornada – trabalho + cuidados familiares) continuam sendo um obstáculo importante. No setor público, há avanços, mas ainda não há paridade.

Gênero e igualdade

Ticiana: Onde ainda percebemos os maiores desequilíbrios entre homens e mulheres?

Os maiores desequilíbrios entre homens e mulheres aparecem em áreas onde estruturas sociais, culturais e econômicas ainda favorecem amplamente os homens. O mercado de trabalho, a área política, a violência de gênero, o trabalho doméstico e de cuidado, a educação e a economia e acesso a recursos são alguns dos principais campos onde essas desigualdades são mais visíveis.

Machismo

Ticiana: Você já enfrentou situações de machismo no seu percurso pessoal ou profissional? Como lidou com elas?

Acredito que todas as mulheres, de algum modo, já passaram por situações de machismo nos dois âmbitos. No profissional, é bastante comum que algumas funções de chefia sejam delegadas a homens, ou por se acreditar que eles possuem uma racionalidade “natural”, ou pela crença de que são as mulheres as principais responsáveis pelos filhos – logo não poderiam exercer nenhuma função que exigisse tempo e disponibilidade.

 

No pessoal, é notório que as cobranças sociais feitas às mulheres são completamente diferentes do que se espera dos homens: mulheres são educadas para silenciar, apaziguar, cuidar e amar. Já os homens estão comprometidos socialmente com a praticidade, o dinheiro, a agressividade, o trabalho. As mulheres que não desejam corresponder a esse ideal patriarcal estão sempre sujeitas a estarem à margem, a serem criticadas e não aceitas, já que ousam tentar romper com o que se espera delas.

Ticiana: De que forma o machismo estrutural ainda influencia escolhas, oportunidades e comportamentos?

Como nossa sociedade foi construída desde sempre sob uma lógica patriarcal, infelizmente o machismo estrutural está em tudo. A autora Valeska Zanello (2022) discute o que se entende por “tecnologias de gênero”: são produtos culturais que representam e reafirmam valores, estereótipos e performances de gênero.

 

Então são milhares de filmes, propagandas, músicas, livros e outros produtos culturais que foram pensados e executados para afirmar o machismo estrutural. A mesma autora aponta também sobre os modos de subjetivação de cada gênero.

 

Enquanto mulheres ainda se subjetivam pela via do amor e do cuidado com o outro, os homens seguem a lógica social da subjetivação pela via da eficácia (virilidade sexual e laborativa). Por fim, todos esses aspectos influenciam escolhas, oportunidades e comportamentos dos gêneros.

Representatividade e futuro

Ticiana: O que você espera para o futuro das mulheres no Brasil?

O futuro das mulheres no Brasil depende de diversos fatores, como sociais, econômicos, políticos e culturais. Da mesma forma que precisamos analisar o que esperamos de uma forma realista, também temos expectativas. Acho que podemos esperar – e torcer –, para os próximos anos, por maior presença das mulheres em cargos de liderança, bem como avanços na educação. Já conseguimos vislumbrar mudanças culturais e novas gerações mais conscientes quanto as questões de gênero.

 

Com o constante crescimento dos movimentos feministas, observa-se uma ampliação do debate público e mudanças de comportamento. As políticas públicas de equidade devem ganhar força também. Entretanto, ao analisarmos de uma forma mais realista, percebemos que ainda estamos longe de resoluções no âmbito do mercado de trabalho (diferenças salariais, sobrecarga de dupla jornada, representação em cargos de liderança).

 

Outro ponto que ainda parece longe de ser solucionado é a violência de gênero, em todas as suas formas (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral). Precisamos de conhecimento acerca delas, além de mais denúncias e de melhor acolhimento às vítimas.

Ticiana: Que mensagem você deixaria para jovens meninas que sonham em ocupar espaços de liderança?

Sugiro que pesquisem sobre seus direitos e deveres. Sobre igualdade de gênero. Que consigam identificar seus incômodos, mesmo que todos ao redor considerem “besteira”. Que se aprofundem no conhecimento de todos os tipos de violência.

 

Que entendam que podem ser subjetivadas na sociedade de outras formas, e que existem outros tipos de caminhos além do casamento e da maternidade. Que busquem independência financeira. Que procurem literatura, experiências e estudos que promovam letramento de gênero. 

 

 

Siga: Instagram: @ticianaduailibe

 

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Marco Duailibe Há 10 meses São Luís - MAPerguntas inteligentes, respostas sensatas. Perguntas bem elaboradas, respostas bem fundamentadas. Primas e mulheres que tenho profunda admiração.
Monique Furtado Duailibe Frazão Há 10 meses Rio de Janeiro RJ Ótima entrevista!! Parabéns às duas, assunto mais que necessário.
Silvana Há 10 meses Sao luis - MaExtremamente necessária essa reflexão. Texto bem elaborado e inteligente. Parabéns
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Ticiana Duailibe
Ticiana Duailibe
Artista, cantora, bailarina, empreendedora e assessora de comunicação na Câmara dos Deputados. Casada há 10 anos com Amanda e mãe de Laura e Pedro, me defino como “mãe leoa”. Lancei um disco com Roberto Menescal, criei a marca de óculos ABREU e a loja Fábrica Chic. Vivo da arte de comunicar, empreender e transformar o cotidiano em experiências autênticas, criativas e cheias de beleza. Agora que você já conhece um pouco da minha trajetória, te convido a mergulhar comigo no universo desta coluna. Um espaço onde compartilho minha visão de mundo, minha paixão pela arte, pela beleza e pelos detalhes.
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