Cotas: justiça histórica e não caridade

A colunista Alessandra Moulin discute o papel das cotas na redução das desigualdades no Brasil

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
18/11/2025 às 06h00 Atualizada em 21/11/2025 às 16h53

Mais do que uma política de acesso, as cotas raciais e sociais são uma reparação histórica e um instrumento de transformação. Ignorar os contextos estruturais que moldam o desempenho acadêmico é perpetuar desigualdades em nome da meritocracia.

“Cotistas não recuperam defasagem durante o curso superior.” Essa foi a manchete de um estudo publicado pela Unesp em outubro de 2025.

A pesquisa, conduzida por três professores da universidade, analisou o desempenho de mais de 14 mil estudantes de cursos como Física, Biologia e Pedagogia, e concluiu que alunos que ingressam por meio de cotas tendem a apresentar desempenho inferior ao longo da graduação — e que essa diferença não se reduz com o tempo.

A repercussão foi imediata. Para os autores, os dados indicam que a política de cotas precisa ser rediscutida, e que a universidade não deve assumir para si a responsabilidade de resolver os problemas sociais do país e focar nos problemas acadêmicos (sua missão precípua).

Mas será que é possível falar de desempenho acadêmico sem considerar o racismo estrutural, a desigualdade histórica e as barreiras sociais que moldam o acesso ao conhecimento no Brasil?

O que os dados não contam

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Ou seja, alguns aspesctos os dados não contam! O estudo da Unesp parte de uma lógica quantitativa e tecnocrática, que considera apenas notas, reprovações e aprovações como critérios de avaliação. Mas ignora o que está por trás desses números: trajetórias de exclusão, desigualdade de oportunidades, e o peso de séculos de racismo institucional.

Como lembra o antropólogo Kabengele Munanga, cotas não são um favor — são um instrumento de justiça histórica. Elas existem para corrigir desigualdades profundas que começam muito antes do vestibular.

Quando um jovem negro, periférico, entra na universidade, ele já venceu dezenas de barreiras invisíveis: escolas precárias, racismo cotidiano, insegurança alimentar, ausência de redes de apoio. E mesmo assim, ele chega! E resiste! Desafios que não cabem nas planilhas.

Permanência, pertencimento e os desafios invisíveis

A presença de estudantes cotistas nas universidades não é apenas uma questão de acesso. É também uma questão de permanência — e de pertencimento. Muitos relatam um senso de deslocamento e inadequação em ambientes que não refletem sua origem social e econômica. Sentem que precisam se esforçar o dobro para provar que merecem estar ali.

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Além disso, enfrentam preconceito e discriminação. Comentários maldosos, olhares atravessados, piadas disfarçadas de opinião. Muitos ainda veem as cotas como um “privilégio”, e não como uma reparação. Há também o trauma. A ansiedade. Mesmo após a aprovação, muitos cotistas vivem com a sensação de que precisam provar seu valor o tempo todo, como se sua presença fosse uma concessão, e não um direito.

Para entender o que os dados não revelam, é preciso ouvir histórias como a de Lita Ribeiro, mulher negra, moradora da favela dos Guararapes e mãe de dois filhos. Durante anos, viveu em função das expectativas dos outros, até decidir, já com os filhos adultos, seguir seu sonho de cursar Serviço Social. Trabalhou como babá, em escritório e na produção do Globo Ecologia, até ficar desempregada.

Foi então que decidiu tentar o vestibular, entrando num cursinho popular. Chorava em casa, mas persistia nas aulas. Após três anos de tentativas, foi aprovada na UERJ em 2017, por meio da lei de cotas.

Ao comemorar sua conquista nas redes sociais com a frase “Mais uma preta favelada na UERJ”, enfrentou ataques e preconceito. Amigos a bloquearam, e muitos desmereceram sua vitória, atribuindo-a apenas à política de cotas.

A pressão foi tanta que ela desenvolveu ansiedade antes mesmo do início das aulas. Ainda assim, Lita resistiu. Trabalhou em uma creche durante o dia e estudava à noite. Recebeu apoio financeiro, participou do Coletivo Denegrir e compartilhou a rotina com outros estudantes negros.

Mais do que uma conquista individual, sua trajetória representa resistência e transformação. Lita voltou a sonhar — com o mestrado, o doutorado e com a possibilidade de mudar a vida de outras crianças como ela (RioOnWatch  2019).

A universidade é neutra?

Diante de analise de historias como a de Rita, podemos dizer que a universidade pode ser neutra? Segundo a antropóloga Rita Laura Segato: não, pois, a universidade é um espaço de disputa simbólica. Pode reproduzir desigualdades... ou pode enfrentá-las.

Em consonância,  em um de seus discursos no Senado, a ex-governadora e senadora Benedita da Silva afirmou: “As universidades públicas não expressam a pluralidade existente na sociedade. A cota mínima não resolve o problema social, mas cria um precedente para minimizar a injustiça e atenuar a exclusão que desfaz, na prática, todas as garantias constitucionais de igual acesso ao ensino.”

Assim, condições equânimes de acesso perpassam por reparação histórica. Para quem ainda não entendeu o significado vou tentar apresentar mais didaticamente:

Imagina que você e seus amigos vão jogar um jogo de tabuleiro. Todo mundo começa no ponto de partida, certo? Mas aí, quando o jogo começa, você percebe que alguns jogadores já estão várias casas na frente, com mais moedas, mais cartas, mais poderes.

Enquanto isso, você começa com quase nada — sem moedas, sem cartas, e ainda por cima tem que jogar com uma venda nos olhos nas primeiras rodadas. Aí você pergunta: “Ué, por que eles começaram com vantagem?” E alguém responde: “Ah, é porque os avós deles jogaram antes e ganharam tudo isso. Você não teve avós no jogo, então começa do zero.” Parece justo? Não, né?

É mais ou menos isso que acontece na vida real com a reparação histórica. Durante séculos, pessoas negras, indígenas e de outras minorias foram impedidas de estudar, trabalhar em certos lugares, ter propriedades ou até circular livremente. Enquanto isso, outras pessoas acumularam riquezas, educação e poder.

Então, hoje, mesmo que a regra do jogo diga que “todo mundo é igual”, nem todo mundo começa do mesmo lugar. A reparação histórica é como dar uma força pra quem sempre foi deixado pra trás — tipo dar moedas extras, cartas especiais ou uma chance de jogar de novo — pra que o jogo fique mais justo pra todo mundo.

Portanto, Cotas não são esmola! São política pública. São justiça. São uma forma de dizer: você também pertence. Você também pode. Quando alguém diz que cotistas não têm desempenho, é preciso perguntar: desempenho pra quem? Pra qual modelo de sucesso? Pra qual tipo de conhecimento?

A universidade precisa mudar. Precisa se abrir. Precisa aprender com quem chega trazendo outras vivências, outras histórias, outras formas de saber. Porque o Brasil não cabe numa sala de aula branca. E a análise de uma politica pública não pode ser medida só por uma nota.

Referências adicionais:
.Autores do estudo citado: Professores Doutores Marcelo Yamashita, Elmer Mateus Gennaro, e Ricardo D’Elia Matheus (Unesp, 2025).
.Outras citações: Kabengele Munanga, Rita Laura Segato, RioOnWatch (a história de Lita Ribeiro por Mareen Butter, 2019)

 

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AndreHá 9 meses BrasiliaA igualdade é um princípio filosófico comum às diversas tradições humanistas. Quando liberais e socialistas divergem a seu respeito, a divergência não é sobre sua importância, mas sobre onde ela se localiza. Para liberais, a igualdade é ponto de partida; para socialistas, é ponto de chegada. Nesse sentido, as cotas nas universidades funcionam, no mínimo, como um instrumento que dialoga com amb
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Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
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