Você já parou para pensar em como reagimos aos fenômenos climáticos? Quando El Niño chega - com suas secas devastadoras e enchentes inesperadas - as manchetes explodem.
Redes sociais se inflamam. Governos anunciam medidas emergenciais. Mas enquanto isso, a educação segue contando histórias de catástrofe em vez de construir compreensão.
O problema não é falar sobre El Niño. É como falamos. Nossa abordagem é fundamentalmente reativa: esperamos o desastre acontecer para então mobilizar recursos, atenção e políticas públicas.
Mas educação deveria ser o oposto. Deveria ser antecipadora. Deveria preparar pessoas para entender os processos, não apenas sofrer as consequências.
Aqui está o incômodo: enquanto a mídia dramatiza números de chuva e seca, raramente perguntamos quem sofre mais. E a resposta é incômoda porque revela uma estrutura que preferimos ignorar. El Niño não afeta a todos igualmente.
Comunidades pobres, majoritariamente negras, localizadas em periferias das cidades ou em zonas rurais vulneráveis, enfrentam o fenômeno sem infraestrutura adequada, sem saneamento básico, sem acesso à informação qualificada. Isso é racismo ambiental - e é uma questão educacional.
Racismo ambiental não é um termo abstrato de ativistas. É a realidade concreta de famílias que vivem próximas a lixões enquanto condomínios fechados respiram ar puro. É a criança que bebe água contaminada enquanto outras áreas investem em filtros sofisticados. É uma comunidade que sofre enchentes porque mora em encostas de risco, enquanto outras áreas têm drenagem planejada. El Niño apenas amplifica essa desigualdade preexistente.
E aqui vem a questão que deveria nos manter alertas: o que nossas escolas estão ensinando sobre isso?
Quando abordamos temas ambientais na educação, frequentemente apresentamos uma narrativa despolitizada: "preserve a natureza", "recicle", "plante uma árvore". Nada de errado com isso, mas é insuficiente. É educação ambiental sem educação política. Sem análise de poder. Sem questionamento sobre por que certos grupos sofrem mais com crises climáticas?
Então, como a educação pode minimizar o racismo ambiental? Não por meio de campanhas de conscientização superficiais. Mas sim por uma educação que:
1º politiza a questão ambiental. Que ensina estudantes a perguntarem: quem decide onde fica o lixo? Quem lucra com a degradação ambiental? Quem sofre as consequências? Por que comunidades negras e pobres estão sempre nas áreas de risco?
2º conecta fenômenos climáticos como El Niño com estruturas sociais. Que mostra como mudanças planetárias não são neutras — elas atingem diferentemente conforme raça, classe, gênero, localização geográfica.
3º prepara para o futuro de forma ativa, não reativa. Que desenvolve em estudantes e comunidades escolar a capacidade de antecipar crises, de pensar estrategicamente sobre resiliência comunitária, de imaginar soluções que considerem justiça social.
4º valoriza saberes locais. Comunidades que vivem em territórios vulneráveis frequentemente possuem conhecimentos acumulados sobre como lidar com fenômenos climáticos. Educação deveria partir desses saberes, não ignorá-los.
Além disso,políticas públicas educacionais deveriam ser ativas, não reativas. Deveria haver investimento antes de El Niño chegar - na formação de professores, na estruturação curricular que permita essas discussões críticas, na garantia de que educadores tenham espaço e recursos para trabalhar essas questões com profundidade.
Porque no fim, educação é sempre uma escolha política. Escolhemos o que ensinar, como ensinar, para quem ensinar. E quando escolhemos ignorar o racismo ambiental, quando oferecemos educação que dramatiza catástrofes em vez de construir compreensão crítica, estamos fazendo uma escolha. Uma escolha que beneficia quem já está protegido e abandona quem mais precisa.
El Niño virá de novo. Mas a educação que oferecemos hoje determinará se, quando chegar, estaremos preparados para enfrentar não apenas o fenômeno climático, mas também a injustiça que ele expõe.
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