A importância da Filosofia e da Sociologia na educação

A colunista Alessandra Moulin reflete sobre o enfraquecimento das disciplinas de Filosofia e Sociologia no ensino brasileiro e o impacto dessa decisão na formação crítica dos estudantes.

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
05/11/2025 às 06h00 Atualizada em 10/11/2025 às 10h39

Nos últimos anos, a educação brasileira tem sido palco de intensas transformações.

Uma das mais controversas é a redução da carga horária de disciplinas como Filosofia e Sociologia no Ensino Médio, especialmente após as mudanças trazidas pelo chamado “Novo Ensino Médio”.

O que está em jogo, no entanto, vai muito além da simples reorganização de horários ou conteúdos: trata-se de uma disputa profunda sobre o papel da escola na formação dos sujeitos e sobre quem tem o poder de decidir o que deve ou não ser ensinado.

Como nos alerta o curriculista Michael Apple, o currículo não é neutro — ele é um território de poder, onde se travam batalhas ideológicas e se define, em última instância, o tipo de sociedade que queremos construir.

O pensamento crítico em risco

ilustração

Segundo Apple, o currículo escolar é uma forma de distribuição de poder e de perpetuação de ideologias dominantes. Ele não apenas reflete a sociedade, mas também a molda, ao selecionar quais saberes são considerados legítimos e quais são descartados.

Ao reduzir a presença da Filosofia e da Sociologia nas escolas, não estamos apenas reorganizando conteúdos: estamos limitando o acesso dos estudantes a ferramentas fundamentais para a leitura crítica da realidade.

Essas disciplinas cumprem um papel essencial na formação de sujeitos pensantes, capazes de questionar, argumentar, refletir e transformar.

A Filosofia e a Sociologia como pilares da reflexão

A Filosofia nos convida a refletir sobre as grandes questões da existência humana — o sentido da vida, a justiça, a liberdade, o bem comum. Já a Sociologia nos oferece instrumentos para compreender as estruturas sociais, as desigualdades, os processos históricos e culturais que moldam nosso cotidiano.

Ambas são, portanto, disciplinas que formam consciências críticas — e é justamente isso que parece incomodar certos setores da sociedade.

A pergunta que se impõe é: qual a lógica por trás do enfraquecimento dessas disciplinas? Seria apenas uma questão técnica ou haveria um projeto político mais profundo em curso?

A resposta parece clara para quem acompanha os debates educacionais: há, sim, um projeto arquitetado para esvaziar o pensamento crítico nas escolas. Afinal, gente que pensa faz barulho — e gente que faz barulho incomoda quem deseja impor uma visão única de mundo.

Essa tentativa de silenciamento não é nova. Historicamente, regimes autoritários sempre buscaram controlar o currículo escolar como forma de manter o status quo.

Nesse contexto, é fundamental resgatar a proposta do educador Dermeval Saviani e sua pedagogia histórico-crítica, que inspira o chamado “currículo saviano”.

Para Saviani, a escola deve ser um espaço de acesso ao saber sistematizado, aquele conhecimento produzido historicamente pela humanidade — inclusive pelos setores dominantes — para que os estudantes, especialmente os das classes populares, possam se apropriar dele e, assim, intervir criticamente na realidade.

A proposta de Saviani não nega a existência de uma cultura dominante, mas defende que o acesso a esse saber é um direito de todos. A escola, portanto, não deve apenas reproduzir o senso comum, mas superá-lo, oferecendo aos alunos as ferramentas necessárias para compreender o mundo em sua complexidade e, a partir disso, transformá-lo.

Pensar é resistir

Filosofar é refletir sobre questões fundamentais da vida humana. É um exercício de liberdade, de busca por sentido, de construção de um olhar mais profundo sobre a existência. Já a Sociologia nos permite enxergar que o que muitas vezes é naturalizado — como a desigualdade, o racismo, o machismo, a pobreza — é, na verdade, fruto de construções sociais e históricas que podem (e devem) ser transformadas.

Essas disciplinas nos ajudam a tirar as lentes do senso comum e a enxergar a realidade com mais clareza. Elas nos ensinam que o mundo não é dado, mas construído — e que, portanto, pode ser reconstruído de forma mais justa e igualitária.

O impacto do Novo Ensino Médio

As mudanças implementadas pelo Novo Ensino Médio, especialmente após as alterações na Lei em novembro de 2024, abriram brechas para que cada rede estadual organizasse seu currículo de forma distinta.

O resultado tem sido uma grande variação entre os estados, com disciplinas como Filosofia e Sociologia sendo comprimidas em apenas um semestre ao longo dos três anos do Ensino Médio. Isso compromete seriamente a formação dos estudantes e evidencia a falta de um projeto nacional coerente e comprometido com a formação integral.

Mobilização e resistência docente

Diante disso, professores de pelo menos 16 estados estão se mobilizando para debater os impactos dessas mudanças. Trata-se de uma luta não apenas por carga horária, mas por um projeto de educação que valorize o pensamento crítico, a cidadania e a formação de sujeitos conscientes de seu papel no mundo.

O papel do diálogo e da escuta

Recentemente, produzi um vídeo no YouTube abordando a situação do Rio de Janeiro, em que analisei aspectos estruturais e sistêmicos do conflito armado que resultou em mais de 120 mortes.

A repercussão incluiu críticas — algumas bastante agressivas — que evidenciam o quanto o debate público está polarizado e como muitas pessoas sequer compreendem o contexto mais amplo das discussões.

Apesar da hostilidade, optei por não apagar os comentários, pois acredito que reconhecer o direito do outro à expressão, mesmo quando discordamos, também é um ato político e pedagógico. Ensinar, afinal, é também saber escutar.

Defender o pensamento crítico é defender a democracia

Esse tipo de postura é exatamente o que a Filosofia e a Sociologia nos ensinam: a importância do diálogo, da escuta, da argumentação e da convivência com a diferença.

É por isso que essas disciplinas são tão essenciais — e é por isso que precisamos defendê-las com firmeza.

Reduzir o espaço da Filosofia e da Sociologia na escola é uma forma de calar vozes, de limitar horizontes, de impedir que os jovens compreendam o mundo em que vivem e se reconheçam como agentes de transformação.

É, portanto, uma escolha política — e como toda escolha política, deve ser debatida, questionada e, se necessário, combatida.

Educar é, acima de tudo, um ato de resistência. E resistir, hoje, é garantir que nossos estudantes tenham acesso ao pensamento crítico, à reflexão filosófica e à análise sociológica. Porque um povo que pensa é um povo que não se deixa manipular — e isso, para alguns, é profundamente ameaçador.

REFERÊNCIAS

APPLE, Michael W. Educação e poder. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
APPLE, Michael W. Ideologia e currículo. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2006.
SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. 41. ed. Campinas: Autores Associados, 2021.
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 13. ed. Campinas: Autores Associados, 2008.

 

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Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
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