O medo como política pública

O colunista André Cavalcanti analisa o paradoxo entre apoio e medo nas operações policiais em favelas cariocas

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
03/11/2025 às 11h15 Atualizada em 13/11/2025 às 15h15
operação da polícia no Rio de Janeiro

As imagens da operação no Complexo do Alemão e na Penha ainda ecoam: helicópteros sobrevoando o céu cinza, tiros, corpos cobertos por lençóis brancos.

Enquanto isso, as pesquisas mostram um paradoxo perturbador. A maioria da população apoia a operação policial e, ao mesmo tempo, diz sentir medo.

O medo e o apoio caminham juntos. Quanto mais medo, mais apoio à violência. Quanto mais insegurança, maior o desejo de entregar poder a quem promete proteção.

Essa dinâmica revela algo essencial sobre o modo como o poder atua hoje: o medo não é apenas um sintoma da violência, mas o mecanismo que a legitima.

O medo institucionalizado como política pública

O medo, quando institucionalizado, vira política pública. A necropolítica, conceito de Achille Mbembe, descreve exatamente isso: o Estado que se afirma não pela capacidade de garantir a vida, mas pela de decidir quem pode morrer. A sociedade, paralisada pelo medo, chama isso de segurança.

Segundo a AtlasIntel, mais de 80% dos moradores de favelas cariocas disseram apoiar a operação.

Pesquisas da Genial/Quaest e da Datafolha mostraram índices próximos a 60% entre os moradores do Rio. Mas, nos mesmos levantamentos, a maioria relatou sentir-se menos segura depois da operação. O medo aumenta, mas também a adesão à violência.

O ciclo do medo e da legitimidade

O poder entende esse jogo. A cada morte, reafirma sua força; a cada aplauso, sua legitimidade.

O medo cria o inimigo, e o inimigo justifica o medo. É um ciclo perfeito: o Estado fabrica a ameaça que depois promete combater. O medo produz um tipo específico de subjetividade: o sujeito obediente, que renuncia à dúvida e à reflexão em troca de proteção.

É um sequestro da subjetividade. O sujeito, tomado pelo medo, perde o direito de pensar e passa a desejar ser governado.

A política do medo se alimenta da simplificação. Divide o mundo em bons e maus, inocentes e criminosos. A complexidade desaparece, e a violência ganha moral.

A necropolítica precisa dessa simplificação para funcionar. Ela não mata só com armas; mata com discursos, com silêncio, com indiferença.

Reconfiguração da moral pública

O medo reconfigura a moral pública. O cidadão que teme a violência deixa de enxergar o outro como pessoa. O morador da favela passa a ser visto como risco, e não como vítima.

A pobreza se transforma em ameaça, e o racismo se disfarça de política de segurança.

Quando o medo domina, até a compaixão se torna suspeita. Quem lamenta os mortos é acusado de defender bandido; quem pede investigação é tratado como inimigo da ordem.

O medo anestesia a empAitia e transforma a violência em rotina.

Fé sequestrada pela lógica do medo

Comunidade do Alemão RJ

A fé também é capturada por essa lógica. Há quem celebre chacinas em nome da limpeza espiritual, confundindo justiça divina com extermínio terreno.

A religião, sequestrada pelo medo, deixa de ser espaço de misericórdia e vira justificativa moral para a violência. O amor cristão é substituído por uma pedagogia da punição.

Essa conversão emocional é o triunfo da necropolítica: governar os afetos para governar os corpos.

O medo deixa de ser um sentimento e se torna uma linguagem. É a gramática que articula o discurso político, o noticiário e a opinião pública.

A aprovação de operações letais não revela confiança no Estado, mas cansaço e desespero. O medo faz as pessoas aceitarem qualquer coisa, desde que prometa segurança.

É a rendição da subjetividade, o abandono da capacidade de imaginar outro modo de viver.

A política do medo não atua apenas na segurança pública. Ela atravessa a economia, a mídia, as relações de trabalho. Está na propaganda que vende proteção, no discurso que culpa o pobre pela pobreza, na retórica que transforma o sofrimento em moralidade.

O medo é o elo invisível entre o cidadão e o poder. Ele oferece a ilusão de pertencimento: quem teme junto acredita estar do mesmo lado. Por isso o medo é cultivado. Ele não é um efeito colateral; é um projeto.

Romper o ciclo do medo

moradores protestam no Rio de Janeiro

Romper com essa lógica é um desafio político. Significa recuperar o direito de pensar antes de obedecer. Significa lembrar que a segurança não é ausência de vida, e que a paz não pode ser construída sobre o silêncio imposto pela bala.

O medo nos faz acreditar que a violência é inevitável, que a barbárie é natural. E quando acreditamos nisso, o poder já venceu.

Porque um povo com medo não sonha, não se organiza, não reivindica. Um povo com medo obedece.

O medo é o nome emocional do autoritarismo. Ele prepara o terreno para o retrocesso, para o aplauso às políticas de extermínio, para o silêncio diante da injustiça. E quando o medo se torna política pública, a morte ganha legitimidade.

Coragem para recuperar a humanidade

É preciso coragem para sair desse ciclo. Coragem para sentir o medo sem obedecer a ele. Coragem para enxergar no outro o mesmo direito à vida que queremos para nós. Coragem para admitir que o medo é, muitas vezes, o rosto mais sofisticado da dominação.

Enquanto o medo continuar sendo o motor das decisões políticas, o país continuará confundindo segurança com obediência e justiça com vingança. A verdadeira transformação começa quando o sujeito recupera sua capacidade de desejar, não apenas sobreviver, mas viver.

A política do medo mata antes de matar

A política do medo mata antes de matar. Mata o pensamento, o afeto, o reconhecimento. E é justamente aí que o poder vence: quando o medo nos convence de que a morte do outro é o preço da nossa segurança.

Em síntese

O medo deixou de ser uma emoção para se tornar um método de governo. Ele se disfarça de prudência, mas serve à dominação. Ao naturalizá-lo, entregamos o poder sobre nossas vidas àqueles que lucram com o pavor.

O desafio é recuperar o espaço do desejo, da escuta, da humanidade, antes que o medo, mais uma vez, decida quem deve morrer.

 

Instagram: @andrelccaval / YouTube: @andrelc539

 

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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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