Entre a lei e a consciência: o voto de Barroso e o limite do Estado sobre o íntimo

O colunista André Cavalcanti analisa o voto de Barroso e reflete sobre o limite do Estado diante da liberdade e da moral.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
21/10/2025 às 06h00 Atualizada em 29/10/2025 às 13h56

Quando o Estado decide o que é moral, ele deixa de proteger a liberdade e passa a administrar culpas. Há temas que testam os limites da democracia. O aborto é um deles.

O voto do ministro Luís Roberto Barroso na ADPF 442, ao tratar da descriminalização da interrupção da gestação nas primeiras semanas, recoloca a pergunta essencial: até onde o Estado pode ir quando o que está em jogo é a consciência individual?

Barroso começa dizendo o óbvio — que ninguém é “a favor” do aborto — e, no entanto, esse óbvio tem sido sistematicamente apagado no debate público. Em torno do aborto, formou-se um campo de batalha simbólico no qual não se discute política, mas se disputa moral.

E quando a moral se converte em política, o resultado costuma ser autoritarismo.

A clareza de Barroso é desconcertante porque desloca o eixo da questão: não se trata de ser “a favor” ou “contra”, mas de decidir se uma mulher que passa por esse drama deve ser presa. O problema, portanto, não é a interrupção da gestação, mas a pretensão do Estado de ocupar o lugar da consciência — o mesmo lugar que as religiões ocuparam por séculos, definindo quem pode, quem deve e quem será punido.

O limite entre o público e o íntimo

O voto propõe um limite. Há um espaço de experiência humana que o Estado não deve violar, sob pena de se transformar em instância moralizante e punitiva.

A subjetividade — o direito de decidir sobre o próprio corpo e destino — não pode ser criminalizada sem que a democracia se desfigure.

Quando o Estado se autoriza a intervir na intimidade das escolhas existenciais, ele não protege a vida: ele administra culpas.

A criminalização do aborto, como mostra Barroso, não reduz o número de casos. Apenas empurra as mulheres para a clandestinidade e a violência institucional. E como sempre, são as mais pobres que pagam o preço. As ricas viajam, as pobres sangram.

O que está em jogo não é apenas o direito à escolha, mas o direito de não morrer por ela.

É aqui que a discussão ultrapassa o campo jurídico e entra no território da subjetividade e do poder.
A lei, quando se pretende moral, abandona o princípio de igualdade e se torna o espelho de um desejo coletivo de controle.

O corpo da mulher, ao longo da história, foi esse campo de exercício do poder: a Igreja o vigiava em nome da pureza, o Estado em nome da ordem, e o patriarcado em nome da moral. A criminalização do aborto é apenas mais uma forma de manter esse corpo sob tutela.

Sob o olhar de Lacan, poderíamos dizer que o Estado tenta ocupar o lugar do Grande Outro — a instância simbólica que dita o que é permitido e o que é pecado, o que pode ser desejado e o que deve ser reprimido.

O voto de Barroso, ao contrário, devolve ao sujeito a responsabilidade sobre seu próprio desejo.
Não é o Estado que deve decidir o que uma mulher pode fazer de si, mas ela mesma, arcando, é claro, com as consequências simbólicas e éticas de sua escolha.

É o retorno da responsabilidade, não a negação da ética.

O voto como gesto de cuidado e racionalidade democrática

O ponto mais ousado do voto talvez esteja na recusa em usar o direito penal como instrumento de moralização.

Ao defender que o aborto seja tratado como questão de saúde pública, Barroso desloca o discurso do castigo para o cuidado.

É um gesto de racionalidade democrática, mas também de humanidade.
Afinal, um Estado que prende mulheres por abortar é o mesmo que falha em educar, em oferecer contracepção e em acolher. Criminalizar é mais fácil que cuidar.

É interessante notar como o voto também se dirige às convicções religiosas, reconhecendo sua legitimidade, mas negando seu monopólio sobre a vida pública.

Barroso lembra que é possível ser contra o aborto e, ao mesmo tempo, contra a criminalização.
É o reconhecimento de que a ética pessoal e o direito coletivo são planos distintos — e confundir um com o outro é dissolver a laicidade do Estado.

A liberdade de crença não pode se converter em poder de coerção.

A frase que expõe o controle de gênero

Quando o ministro diz que “se os homens engravidassem, o aborto já não seria crime há muito tempo”, ele toca o nervo exposto do problema: a moral que sustenta a criminalização não é sobre vida, mas sobre controle — controle de gênero, de corpo, de autonomia.

A frase é mais que uma provocação: é um diagnóstico da estrutura de poder que organiza a nossa moral pública.

Talvez a grande contribuição do voto de Barroso seja lembrar que a democracia se mede não pelo número de leis, mas pelo grau de confiança que deposita na consciência das pessoas.

O Estado que confia pune menos e educa mais. O que desconfia, vigia, pune e se disfarça de moral.
Num país ainda dividido entre mandamentos e direitos, entre dogmas e autonomia, o voto de Barroso é um convite à maturidade democrática.

Ele nos lembra que liberdade não é a ausência de lei, é o direito de não ter a lei dentro da própria consciência.

 

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Mariana CostaHá 10 meses Vila Progredior, São PauloExcelente texto, André! Seu texto ilumina a importância de respeitar a autonomia das mulheres e o papel do Estado na proteção da liberdade individual. Um voto pela humanidade e pela democracia.
Edna Galvão Há 10 meses Brasília Como mulher e cidadã, leio seu texto com admiração. Ele nos lembra que o Estado não deve ser guardião da moral, mas protetor da liberdade. Ao expor o controle histórico sobre o corpo feminino, mostra que o debate não é sobre aborto, e sim sobre Poder.
Jailson Soares Há 10 meses Limeira SPPerfeito! Um dos melhores texto que li sobre o tema. Parabéns!
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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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