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Tem coisa que só a Argentina explica, ou talvez nem ela.
Na segunda-feira (6), o presidente Javier Milei subiu ao palco, em Buenos Aires, com uma guitarra nas mãos e o título de “autor do momento”.
Lançava seu próprio livro, La Construcción del Milagro. Só que o lançamento virou outra coisa: um show de rock, luzes piscando, hits clássicos e discurso político em formato de espetáculo.
Rockstar, economista, presidente e agora frontman da própria narrativa. Milei transforma a crise em performance. Enquanto a inflação sobe, o peso despenca e o país tenta entender como vai atravessar mais uma tormenta, ele canta. Literalmente.
O livro, esse coadjuvante da noite, ficou ali, tímido, ao fundo. O protagonismo era da persona Milei: cabelão, microfone e um palco digno de turnê. E não dá pra negar, o homem sabe entreter. Tem energia, timing.
Só que política não é palco. O aplauso não paga conta nem acalma o mercado.
O problema não está em cantar. Está em achar que o solo de guitarra substitui o solo econômico. Que a catarse coletiva da plateia resolve a falta de rumo político.
Milei gosta de provocar, e faz isso bem. Mas, às vezes, parece mais preocupado em manter o show do que em consertar o som.
Enquanto ele toca Demoliendo Hoteles, há quem esteja demolindo paciência. A inflação segue demolindo salários. E a esperança, essa sim, precisa de um verdadeiro milagre para não desafinar de vez.
No fim da noite, Javier Milei deixou o palco ovacionado. Guitarra em punho, gritos, luzes, emoção. E o público saiu com a sensação de ter visto algo grande, mas talvez sem saber exatamente o quê.
Um presidente? Um artista? Um personagem? Talvez um pouco de tudo.
Enquanto a Argentina tenta entender o que é governo e o que é performance, Milei segue ali, no centro do palco. Tocando seu rock político, entre solos, crises e aplausos.
Presidente argentino cantou com deputados aliados durante evento para divulgar obra que reúne seus discursos e textos. Governo enfrenta escândalo envolvendo sua irmã e tenta apoio econômico dos EUA.
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