Ao ligar a TV nesta quarta-feira (27), as imagens estavam em todos os canais: a van presidencial acelerando, seguranças tensos, gritos, pedras voando.
Não eram apenas as redes sociais que multiplicavam o vídeo do ataque a Javier Milei, os telejornais repetiam a cena em câmera lenta, enquanto apresentadores descreviam cada detalhe do tumulto em Lomas de Zamora, região metropolitana de Buenos Aires.
Nas ruas, na academia, nos cafés e parques, o assunto era o mesmo: o presidente argentino cercado por manifestantes e retirado às pressas de uma carreata em plena campanha.
A versão oficial veio rápida. A ministra da Segurança, Patricia Bullrich, apontou o kirchnerismo como responsável por uma emboscada. Porta-vozes do La Libertad Avanza chamaram o episódio de “terrorismo político”.
Mas a cena vai muito além do discurso. Ela é um retrato cru de um país em ebulição, dividido entre apoiadores fervorosos e uma multidão crescente que rejeita a austeridade imposta por Milei, sentida no bolso de milhões de argentinos.
Milei, que se projetou como o homem disposto a demolir “a casta política”, agora vê sua imagem corroída pelo desgaste do governo. A inflação ainda alta, cortes profundos em programas sociais e denúncias de corrupção envolvendo sua irmã e principal conselheira, Karina Milei, formam o pano de fundo para o episódio.
O que antes era apenas rejeição política, agora toma forma nas ruas, em pedras lançadas contra a comitiva presidencial.
A menos de dez dias das eleições legislativas na província de Buenos Aires e a pouco mais de um mês do pleito nacional, a cena de Milei cercado não é apenas um incidente isolado: é símbolo de um país à beira do esgotamento social.
O presidente, que sempre escolheu o confronto como marca de liderança, agora sente o peso do confronto voltado contra ele.