Educação Política, Currículo e Democracia

A inclusão da educação política no currículo escolar é essencial para formar cidadãos críticos, reduzir a desinformação e fortalecer a democracia.

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
02/10/2025 às 06h00 Atualizada em 13/10/2025 às 08h48

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No debate sobre educação política, é indispensável reconhecer a contribuição de autores que pensaram o ensino como prática social e formativa.

Paulo Freire e Dermeval Saviani representam, no Brasil, duas vozes centrais nesse campo: Freire, com sua visão da educação como ato político e libertador, e Saviani, com a defesa de uma escolarização que integre a reflexão crítica e a formação cidadã desde cedo.

Complementam o quadro autores clássicos e contemporâneos da filosofia e da sociologia — como Aristóteles, Max Weber e Pierre Bourdieu — que ajudam a situar a política além do ato governamental, como dimensão constitutiva da vida em sociedade.

Vivemos um momento em que a política está cada vez mais presente na vida cotidiana dos cidadãos; por isso, a educação política torna-se central para a formação de uma sociedade consciente e atuante. Diante da grande diversidade cultural e social do Brasil, surgem desafios significativos para formar cidadãos críticos e bem informados.

Nesse contexto, faz-se necessária a democratização do acesso ao conhecimento político, pois apenas assim será possível reduzir desigualdades na capacidade de participação e deliberação pública.

A contribuição de Paulo Freire

Paulo Freire, educador reconhecido mundialmente, sempre enfatizou que a educação é um ato político. Em Política e Educação (1992), ele aprofunda a ideia de que o ensino não pode se resumir à mera transmissão de conteúdos técnicos; deve, antes, promover a consciência crítica dos estudantes sobre o mundo em que vivem.

Para Freire, “a educação para a libertação, responsável diante da radicalidade do ser humano, tem como imperativo ético a desocultação da verdade” (Freire, 1992). Essa desocultação refere-se à necessidade de revelar as estruturas de poder e dominação social, econômica e política — e aqui convém esclarecer que o termo “política” é usado em sentido amplo, filosófico e sociológico, não restrito à política partidária.

Sob uma perspectiva filosófica, a política é entendida desde os clássicos como a busca do bem comum e da convivência justa entre os seres humanos.

A visão dos clássicos: Aristóteles e Weber

 

Aristóteles

Aristóteles, por exemplo, afirmou que o ser humano é um “animal político” por natureza, indicando que sua realização plena se dá em comunidade (Aristóteles, 2009). Já na sociologia, Max Weber analisa a política como exercício do poder legítimo, isto é, a capacidade de impor uma ordem com base em formas institucionalizadas de autoridade (Weber, 2004).

Pierre Bourdieu

Pierre Bourdieu amplia essa compreensão ao mostrar que a política ultrapassa o Estado: ela está presente em diversos campos sociais e é objeto de disputa entre agentes que procuram definir o que é considerado legítimo (Bourdieu, 1997). Assim, compreender política implica reconhecer que ela é uma construção social contínua sobre como viver juntos, decidir coletivamente e transformar o mundo.

Saviani e a defesa da transversalidade

Dermeval Saviani complementa essa perspectiva com uma ênfase pedagógica direta: em Política e Educação (1989), ele defende que a educação política deve integrar o currículo escolar desde as etapas iniciais.

Para Saviani, ensinar sobre o funcionamento do sistema político, os direitos e deveres do cidadão e a importância do engajamento é fundamental para formar sujeitos capazes de participar conscientemente da vida democrática. Por isso, a educação não deve limitar-se a atividades esporádicas; precisa ser organizada de modo transversal e sistemático, articulando conteúdos como a Constituição Federal, a organização social e as políticas públicas.

A ausência de uma base educacional sólida favorece a desinformação, que por sua vez alimenta polarizações e radicalismos. Sem uma formação crítica, cidadãos tornam-se mais suscetíveis a manipulações e a discursos populistas que não servem ao bem coletivo.

Portanto, prevenir esses fenômenos exige uma educação clara e direta sobre os mecanismos políticos, além do desenvolvimento de habilidades de leitura crítica da mídia, de avaliação de fontes e de compreensão do ciclo de produção das políticas públicas.

Para que a educação política cumpra esse papel emancipador, é preciso ir além de iniciativas isoladas. É necessário pensar a organização curricular de forma integrada — isto é, transversalizar a educação política nos diferentes componentes curriculares e promover práticas pedagógicas que incentivem o diálogo, a análise de casos reais, a investigação local e a participação estudantil.

Ao mesmo tempo, formar professores e oferecer materiais pedagógicos adequados são medidas essenciais para que essa política educativa se traduza em aprendizagem efetiva.

Conclusão

Embora o interesse pela política entre os brasileiros tenha crescido nos últimos anos, ainda há um longo caminho para que todos os cidadãos adquiram o conhecimento e as competências necessárias para participar ativamente dos processos democráticos.

Democratizar a educação política é, portanto, uma urgência. Como lembram Paulo Freire e Dermeval Saviani, uma educação verdadeiramente transformadora não apenas informa, mas emancipa — prepara indivíduos para analisar criticamente, deliberar e agir em prol do bem comum.

Nesse sentido, a escola tem papel estratégico: formar sujeitos críticos, informados e capazes de construir coletivamente um projeto de sociedade mais justo e plural.

Referências:

ARISTÓTELES. Política. Tradução de Nestor Silveira Chaves. São Paulo: Martin Claret, 2009.

BOURDIEU, Pierre. O campo político. In: BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

FREIRE, Paulo. Política e Educação: Ensaios. São Paulo: Cortez, 1992.

SAVIANI, Dermeval. Política e Educação: Ensaios. Campinas: Autores Associados, 1989.

WEBER, Max. A política como vocação. In: WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Tradução de Helmut Schneider. São Paulo: Cultrix, 2004.

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Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
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