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O 7 de setembro, data que marca a declaração de Independência do Brasil por Dom Pedro I em 1822, não é apenas um marco cronológico; é um rito público de afirmação da existência política e histórica de um povo. Ao longo dos séculos XIX e XX, a data foi ganhando contornos cívicos e militares - com desfiles, cerimônias e eventos escolares - que consolidaram a celebração como um momento coletivo para reafirmar soberania, pertencimento e identidade nacional.
Minhas lembranças de infância estão impregnadas dessas manhãs de setembro: famílias reunidas, ruas cheias, o cheiro de lanche, pipoca e sol, crianças com bandeirinhas, esquadrilha da fumaça, avós que comentavam com orgulho cada pelotão e cada banda. Para muitas famílias brasileiras, os desfiles eram - e continuam sendo - um grande evento familiar, uma ocasião de encontro entre gerações que partilham histórias, memórias e o carinho pelas tradições cívicas. Lembro com um saudoso caninho dos domingos privilegiados na casa de meus avós que moravam em frente ao “eixão”, importante avenida de Brasília.
Esse encontro festivo tem significado profundo para a compreensão de cidadania. O desfile escolar, a passagem dos contingentes militares e civis e as homenagens públicas são espaços onde se aprende, simbolicamente, o que é pertencer a uma nação: orgulho da pátria, respeito pela soberania e o exercício da democracia. As escolas, ao participarem, não só celebram a data, mas formam cidadãos conscientes de seus direitos e deveres e da importância de sua identidade enquanto povo.
Há alguns anos vivi uma experiência que jamais esquecerei: desfilar no grupamento feminino de Oficiais da Força Aérea. Sentir os olhares, ouvir os aplausos e perceber a identificação das pessoas enquanto passávamos foi uma emoção que sintetiza o que tais cerimônias podem provocar - um momento de união e reconhecimento mútuo entre população e forças que representam o Estado.
No entanto, é inegável que, hoje, o 7 de setembro tem sido transformado, por muitos, em palco político. Manifestações com pautas partidárias e polarizadas tomaram a data, desviando o foco de sua essência: a celebração de uma nação independente.
Não se trata aqui de discutir as pautas ou de negar o direito à manifestação - a manifestação é, sim, um instrumento legítimo de poder e persuasão - mas de afirmar que existe um valor intrínseco nessa data que merece ser preservado para além das disputas momentâneas
A verdade é que, nas últimas décadas, temos nos perdido em debates binários - direita contra esquerda - ao ponto de atribuir cores e símbolos nacionais a preferências políticas específicas. Para alguns, usar verde e amarelo hoje aparece como adesão a um grupo ou candidato; para outros, é (e deveria ser) um gesto puramente patriótico. Essa apropriação partidária empobrece o sentido coletivo da data e impede que o 7 de setembro exerça plenamente sua função de celebração da identidade nacional.
Não proponho silenciar vozes nem negar a importância das reivindicações sociais e políticas. Protestos, passeatas e mobilizações são ferramentas essenciais de democracia e mudança. Reafirmo, porém, que é crucial resgatar o caráter de união e reflexão cívica que a data pode oferecer. Nas escolas, na família e nos espaços públicos precisamos conversar sobre o significado desse dia, ensinar sua dimensão histórica e debater como preservá-lo como espaço de cidadania e reconhecimento da existência de um povo soberano.
Devemos ter orgulho das cores verde, amarelo, azul e branco - das formas, símbolos e histórias que compõem nossa bandeira. Elas representam um país feito por diversas regiões, culturas e vivências. Recuperar o senso de nação não significa apagar diferenças; é, antes, construir um sentido de pertencimento que permita conviver com a diversidade sem transformá-la em campo exclusivo de disputa política.
Somos, afinal, seres históricos e políticos. Defender o direito de manifestar opiniões e lutar por causas justas é parte dessa condição. Mas seria muito valioso que o 7 de setembro voltasse a ser, sobretudo, uma data de identidade comum - um dia para reafirmar que somos, acima de tudo, brasileiros, e que nossa pluralidade pode (e deve) conviver com o respeito, a empAitia e o cuidado com o outro.
Finalizo convidando à reflexão: que possamos ser, emocionalmente, mais maduros - brilhar como “brasileiros” conscientes - e recusar que pautas diferenciadas e antagônicas se tornem palco para o ódio e a falta de empAitia. Precisamos cuidar de nossa capacidade de dialogar, reconhecer o direito de manifestar e, ao mesmo tempo, preservar espaços de união e respeito.
Somos todos brasileiros; vamos honrar essa condição com responsabilidade, afeto e compromisso com a democracia e soberania, reafirmando as palavras de nosso maravilhoso hino nacional “Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada! Brasil!”.
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