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O Dia da Raça, celebrado em 5 de setembro, foi instituído pelo governo de Getúlio Vargas em 1939 por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). A data tinha como objetivo exaltar a miscigenação brasileira - resultado da combinação entre brancos, negros e indígenas - e promover a ideia de uma “nova raça brasileira”, associada a um sentimento de unidade e a noções de democracia racial.
As comemorações, especialmente em escolas, incluíam desfiles cívicos que reforçavam o patriotismo, com destaque para o pelotão da bandeira e a participação de alunos. Em muitas cidades, essas atividades integravam os desfiles do 7 de setembro, Dia da Independência, consolidando a data no calendário cívico nacional.
No entanto, a retórica da democracia racial sempre foi controversa. Embora exalte a convivência harmônica entre grupos étnicos, essa narrativa tende a ocultar as desigualdades raciais estruturais que persistem no país. Refletir sobre o Dia da Raça exige, portanto, identificar tanto suas intenções simbólicas quanto suas limitações políticas e sociais.
Dados recentes reforçam a necessidade dessa leitura crítica. O Censo de 2022 mostrou que pretos e pardos representam 55,5% da população, mas permanecem sub-representados em posições de poder e decisão. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, em 2024 apenas 14,25% dos juízes se declaravam negros; o IBGE aponta que menos de 3% dos cargos gerenciais são ocupados por negros; e nas eleições de 2022, aproximadamente 26% das cadeiras na Câmara dos Deputados foram ocupadas por pessoas negras. Esses indicadores evidenciam barreiras estruturais à inclusão e à mobilidade social.
Além da sub-representação, as denúncias de racismo seguem alarmantes. Entre janeiro e novembro de 2024, o Disque 100 registrou mais de 5,2 mil denúncias de racismo e injúria racial, ocorrendo em variados contextos, inclusive no ambiente virtual. Esses registros sublinham a urgência de políticas públicas efetivas, sistemas de monitoramento e iniciativas educativas que enfrentem tanto as manifestações explícitas quanto as formas veladas de discriminação.
Reconhecer as contribuições culturais e históricas dos diferentes grupos étnicos não basta se não vier acompanhada de ações concretas para reduzir desigualdades. O Dia da Raça pode e deve ser um momento para ampliar o debate: Explicitando as desigualdades persistentes, defendendo reparações históricas e promovendo medidas de inclusão — como ações afirmativas, maior representatividade em espaços decisórios e políticas de acesso à educação e ao mercado de trabalho.
As escolas têm papel central nesse processo. Ao integrar nos currículos discussões sobre a formação étnica do país, as contribuições de cada grupo e as dinâmicas de desigualdade racial, é possível formar cidadãos mais críticos e conscientes. Educação, representatividade e políticas públicas coordenadas são instrumentos essenciais para transformar o reconhecimento simbólico da miscigenação em mudanças estruturais reais.
Em suma, ao revisitar o significado do Dia da Raça, é necessário equilibrar a celebração da diversidade com uma análise honesta das desigualdades que persistem, articulando memória, crítica e ações concretas rumo a uma sociedade mais justa, inclusiva e diversa.
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*A republicação é gratuita desde que citada a fonte. Citação formato ABNT: SOBRENOME, Nome do Autor. Título do Artigo. Lead Notícia, 2025. Disponível em: [inserir o link da página do artigo]. Acesso em: [data].