Superando a intolerância: o foco da dialética no debate social e educativo

coluna | Sala de Aula

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
26/08/2025 às 00h00 Atualizada em 28/08/2025 às 09h44

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Vivemos em um momento complexo em que a sociedade parece estar cada vez mais polarizada. A oposição enfática às ideias contrárias e o desprezo pelo diálogo construtivo revelam uma crise profunda na forma como as pessoas se relacionam com as diferenças. Intolerância e extremismos têm se tornado a norma, prejudicando o debate saudável, fundamental para o processo democrático.

A dialética, ao contrário da lógica binária, busca compreender a complexidade das interações e dos fenômenos humanos. Enquanto a lógica binária categoriza duas vertentes, como: certo ou errado; 0 ou 1; falso ou verdadeiro; ligado ou desligado; a dialética propõe uma visão mais nuançada, permitindo que diferentes perspectivas sejam consideradas e até integradas. Este processo envolve a confrontação de ideias antagônicas, resultando em um entendimento mais abrangente e contextualizado da realidade.

No contexto educativo, a dialética é uma ferramenta poderosa. Paulo Freire (1921-1997), renomado educador brasileiro, em sua vasta produção bibliográfica critica a chamada "educação bancária", na qual o conhecimento é simplesmente depositado nos estudantes, transformando-os em receptores passivos. Freire defende uma educação que promova a reflexão crítica e a participação ativa, em que estudantes têm espaço para expressar seus pensamentos e questionar o mundo ao seu redor.

A formação pedagógica, portanto, deve incentivar um diálogo aberto e respeitoso. Não se pode desmerecer a importância de formar indivíduos capazes de debater de forma inteligente e articulada. Ao adotar uma abordagem dialética, os educadores estimulam os estudantes a se engajar em conversas significativas, desafiando as visões de mundo e promovendo um ambiente de aprendizado colaborativo.

Pesquisadores destacam que, durante a infância, o cérebro ainda está em fase de desenvolvimento, e as crianças frequentemente manifestam suas frustrações por meio de comportamentos mais primitivos, como birras e agressões, sejam elas físicas ou verbais. Essas manifestações, no entanto, são parte de um processo natural de crescimento. Com o tempo, à medida que as crianças são socializadas, aprendem a reconhecer e gerenciar suas emoções, desenvolvendo habilidades para expressar suas frustrações de maneira mais construtiva e apropriada. Essa transição é fundamental para que esses comportamentos não se tornem uma constante em suas interações sociais.

Estas atitudes, no entanto, devem evoluir para formas mais sofisticadas de comunicação e interação. Uma educação que prioriza o diálogo permite que as crianças aprendam a articular suas opiniões e a ouvir as dos outros, moldando sua capacidade de agir em grupo de maneira construtiva.

Assim, o debate torna-se não  apenas saudável; mas um dos pilares de uma sociedade democrática. A capacidade de se opor respeitosamente a diferentes ideias deve ser cultivada, não temida. O "binarismo cognitivo" não apenas simplifica as questões, mas também aliena as pessoas de um entendimento mais complexo sobre o real.

Um bom exemplo sobre como estamos nos moldando a essa lógica, binária e pouco inteligente, são as plataformas digitais e os algoritmos que as sustentam; promovendo um impacto profundo na forma como consumimos informação e interagimos nos ambientes virtuais. Esses algoritmos são projetados para analisar nossos comportamentos e preferências, oferecendo conteúdo que reforça nossas crenças e interesses. Essa dinâmica cria uma espécie de "bolha", onde somos constantemente expostos a ideias e opiniões semelhantes às nossas, limitando nossa capacidade de ver o quadro completo. O resultado é uma experiência online polarizada, em que a diversidade de pensamento é sufocada e a inovação das ideias fica em segundo plano, tornando-nos mais isolados em nossas visões de mundo.

Para quebrar essas bolhas e enriquecer nossa perspectiva, é essencial buscar ativamente conteúdos diversos e desconfortáveis. Ao nos expormos a diferentes pontos de vista, ampliamos nosso entendimento sobre realidades alheias e fortalecemos nossa empAitia. Essa prática não apenas desafia nossas convicções, mas também promove um diálogo mais produtivo e significativo entre as diferentes vozes da sociedade. Nesse contexto, a construção de uma cidadania informada demanda uma navegação consciente pelas redes sociais, buscando a pluralidade e reconhecendo que as ideias de outras pessoas podem nos ensinar e enriquecer nosso próprio pensar.

Quando somos incapazes de ver além do nosso ponto de vista, corremos o risco de transformar o diálogo em confrontos desnecessários. A frase 'Todo ponto de vista é a vista de um ponto' é uma citação do teólogo Leonardo Boff (86 anos), que ressalta que cada indivíduo possui uma perspectiva única sobre o mundo, influenciada por suas experiências e seu contexto. Essa reflexão sublinha a relevância da compreensão e da empAitia, reconhecendo que a verdade pode ser entendida de maneiras diversas.

Retomando Paulo Freire, é importante ressaltar que a educação não é neutra. As escolhas feitas por educadores, desde os referenciais teóricos que utilizam até as metodologias e formas de avaliação, refletem suas próprias convicções ideológicas. Portanto, ao ensinar, não se trata apenas de transmitir conteúdo, mas de formar cidadãos críticos e capazes de estruturar seus argumentos de maneira significativa.

 Diante desse cenário, é imperativo que a educação contemporânea busque promover um ambiente dialético, em que o debate respeitoso e a pluralidade de vozes sejam valorizados. A formação pedagógica deve preparar os estudantes não apenas para absorver conhecimento, mas também para se tornarem participantes ativos em suas comunidades. Só assim poderemos aspirar a uma sociedade mais justa, onde a diversidade de pensamentos é não apenas aceita, mas celebrada.

Dessa forma, a luta contra a intolerância e o extremismo passa, em grande medida, pela formação de indivíduos críticos e educados, que consigam articular suas ideias e posicionamentos dentro de uma perspectiva dialética e respeitosa, promovendo um diálogo que enriquece a formação individual quanto da coletividade.

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*A republicação é gratuita desde que citada a fonte. Citação formato ABNT: 
SOBRENOME, Nome do Autor. Título do Artigo. Lead Notícia, 2025. Disponível em: [inserir o link da página do artigo]. Acesso em: [data].

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OlgaHá 1 ano SPo texto pontuou bem ''incapazes de ver além do nosso ponto de vista''. O que est'acontecendo com o planeta?
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Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
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