
Todo 7 de Setembro, o Brasil volta à mesma imagem. Dom Pedro às margens do Ipiranga, espada levantada e o famoso “Independência ou Morte”.
Foi assim que aprendemos na escola. Só que a história, como quase sempre, é mais complicada do que a cena que ficou.
A Independência não aconteceu em um único dia. Foi resultado de um processo político que já estava em andamento antes de setembro de 1822, ressaltado pela historiadora Lilia Schwarcz.
O Ipiranga virou o grande símbolo e símbolos têm força. Às vezes, até mais força do que os próprios fatos.
Morando fora, passei a olhar para essa data de outro jeito. Aqui na Argentina, e em boa parte da América Latina, a independência é lembrada por guerras, revoluções e confrontos com as antigas metrópoles.
O Brasil fez uma ruptura diferente. Separou-se de Portugal, mas continuou monarquia, comandada pelo filho do rei português.
Há também uma parte menos confortável dessa história. O país se tornou independente, mas a escravidão continuou por mais 66 anos.
Negros, indígenas, mulheres e a população pobre ficaram praticamente fora das decisões sobre o Brasil que estava nascendo. A liberdade do país não significou, naquele momento, liberdade para todos.
O historiador João Paulo Pimenta, professor da USP, chama atenção justamente para esse olhar mais amplo.
Ao tratar da Independência, o historiador defende que a história não seja explicada apenas por grandes personagens transformados em heróis.
É preciso considerar também as forças coletivas e a participação de indígenas, escravizados e outros grupos que fizeram parte daquele processo.
O historiador Sérgio Guerra Filho resume bem essa contradição ao dizer que “o Sete de Setembro não dá conta da diversidade de experiências vivenciadas nas províncias”.
Talvez seja justamente essa a melhor forma de olhar para a data hoje. Menos como uma fotografia congelada de 1822 e mais como uma história que ainda pede perguntas.
O Brasil que passa pela janela do Brasil
Elas não faltam em 2026. O Brasil chega a este 7 de Setembro no meio de uma das maiores crises recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), provocada pelos desdobramentos das investigações do Banco Master e por acusações envolvendo integrantes das próprias instituições que deveriam fiscalizar o poder.
Ao mesmo tempo, o país caminha para uma eleição presidencial cada vez mais marcada por esse desgaste.
Visto de fora, isso chama ainda mais atenção. A América Latina conhece bem democracias tensionadas, desigualdade, corrupção e instituições que precisam provar, o tempo todo, que as regras valem para todos.
Dois séculos depois das independências, essa talvez continue sendo uma das grandes questões da região.
Ministros do STF
Porque independência não é apenas ter bandeira, hino e fronteira. Ela precisa ser sentida por quem trabalha, paga aluguel, pega ônibus, depende da escola pública ou do SUS e tenta fazer o salário chegar ao fim do mês. É aí que uma ideia tão grande começa a fazer sentido na vida real.
Talvez seja essa a diferença de olhar o 7 de Setembro estando longe. Há saudade, claro. Mas a distância também ajuda a enxergar o país sem tanta cerimônia.
Celebrar a Independência importa. Perguntar quem realmente consegue vivê-la importa ainda mais.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a linha editorial do veículo.
▪️◽️ Leia as manchetes do dia ->