No Vini Jr., a voz também é posição

Ao responder em português durante a Copa, Vini Jr. lembrou que a disputa por reconhecimento passa também pelo direito de falar a partir do próprio lugar.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
16/06/2026 às 20h29 Atualizada em 26/06/2026 às 12h04
imagem: CBF

Pode parecer só uma escolha de idioma. Vini Júnior, numa coletiva de Copa do Mundo, decide responder em português. Pronto. Pequeno, banal, quase invisível no meio do barulho do futebol. Mas tem gesto que carrega mais história do que aparenta. Esse é um.

Repara: Vini não estava em Madri. Não vestia o branco do Real. Estava de seleção brasileira. Ao escolher o português, escolheu também a quem estava falando. Falava ao torcedor daqui, ao país que o fez, às crianças que se enxergam nele, a todo mundo que um dia precisou traduzir a própria existência pra ser levado a sério.

Língua é poder. Separa quem pertence de quem pede licença. Tem idioma que entra na sala do poder como se fosse dono. Outros batem na porta. O português, falado por mais de 200 milhões de pessoas, ainda aparece no circuito global como língua de periferia, tolerada pela tradução, quase nunca tratada como centro.

Um jornalista pergunta em espanhol a um brasileiro que joga na Espanha. Faz sentido. É aí que mora a arm

adilha. O mundo se acostumou a ver o talento do Sul global como corpo exportável: corre, dribla, encanta, enriquece clube europeu, vende camisa, lota estádio. Em troca, espera que esse corpo também entregue a voz, o sotaque, os modos. Que se adapte. Que agradeça.

Vini quebrou isso sem discurso. Só escolheu a língua.

O peso vem de quem ele é: homem negro, nascido em São Gonçalo, criado longe dos salões onde o futebol europeu decide quem vale quanto. O menino do Mutuá chegou ao topo do mundo sem deixar que o topo tivesse a palavra final sobre ele.

Vini é alvo constante de racismo na Espanha. Não é episódio isolado, é estrutura, se repete com a tranquilidade das coisas toleradas. A cada insulto, parte do debate vira o jogo contra ele. "Ele provoca." "Dança demais." "Reclama demais."

O racismo funciona assim: agride e depois cobra da vítima uma pedagogia da elegância. Quer o negro talentoso, desde que domesticado. Quer o brilho, desde que venha com gratidão silenciosa.

Por isso a língua importa. Falar português ali não foi recusar comunicação. Foi escolher destinatário. Vini parecia dizer: eu sei falar com vocês, mas hoje falo com os meus. Isso, sozinho, já desloca a hierarquia.

imagem: CBF

O colonialismo não acabou quando os impérios perderam as colônias. Sobrevive nos hábitos, nas expectativas, no que a gente acha "mais profissional", "mais internacional". Sobrevive quando a Europa ainda se imagina como régua da civilização.

Quando o talento latino ou africano só existe de verdade depois de carimbado por clube, prêmio e jornal europeu.

A subjetividade colonizada aprende cedo: subir é se afastar da origem. Trocar a fala, suavizar o sotaque, esconder o bairro, embranquecer os modos. O poder convence o sujeito de que, pra ser reconhecido, ele precisa caber na forma que o domina.

Vini faz o contrário. Não pede desculpa por ocupar espaço. Não deixa transformarem a alegria dele em culpa. Não trata racismo como mal-entendido. Incomoda porque mexe numa fantasia velha: a de que o menino pobre, negro e da periferia deveria chegar ao topo como quem recebeu um favor.

Ele chegou como quem sabe que produziu valor, move multidão, faz a engrenagem girar.

O corpo negro pode ser espetáculo, desde que não vire pensamento. Pode ser potência, desde que não vire posição. Vini está transformando o corpo dele em posição.

Nenhum gesto resolve sozinho uma estrutura de séculos. Mas tem gesto que abre uma fresta. Por ela passou um homem negro, brasileiro, periférico e admirado no mundo inteiro se recusando a deixar o centro falar por ele.

Naquele instante, o português parou de ser tradução. Virou afirmação. A camisa da seleção não estava só no corpo. Estava na língua.

 

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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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