A Copa em que a fronteira venceu o futebol

Antes de a bola rolar, o jogo mais importante desta Copa já tinha sido decidido, e não foi num gramado. Foi num balcão de imigração.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
14/06/2026 às 10h53 Atualizada em 21/06/2026 às 15h50
Omar Abdulkadir Artan

Omar Abdulkadir Artan é árbitro somali. Tinha sido escalado pela própria FIFA para apitar no Mundial dos Estados Unidos: credencial emitida, convite na mão, o crachá da entidade mais poderosa do esporte pendurado no pescoço.

Foi barrado mesmo assim, na chegada, sem nunca pisar num estádio. As autoridades migratórias americanas decidiram que ele não entraria, e pronto.

A cena diz mais sobre o nosso tempo do que qualquer discurso de abertura. A organização que se vende como uma espécie de ONU da bola, capaz de sentar inimigos históricos sob as mesmas regras e no mesmo gramado, descobriu na pele onde termina a sua autoridade.

Termina na fila de um aeroporto do país anfitrião. A FIFA escalou o homem. O Estado americano disse não.

E o caso de Artan não é exceção. Delegações de países que Washington considera inconvenientes chegaram cercadas de desconfiança. O Irã, claro, virou alvo automático. Jogadores e dirigentes vindos das bordas do mapa, aquelas regiões que o noticiário trata como problema antes de tratar como gente, relataram revistas a mais, perguntas a mais, esperas que não recaem sobre todo mundo do mesmo jeito.

Ninguém precisou dizer em voz alta. A regra já estava escrita no próprio fluxo: tem quem entre pela porta da frente e tem quem entre sob suspeita.

Qualquer pessoa que já viajou conhece aquele instante. Você entrega o passaporte, o agente passa os olhos na tela, e por dois ou três segundos a sua vida inteira fica suspensa no julgamento de um desconhecido que não move um músculo do rosto.

Para muita gente, é só uma burocracia chata antes do táxi. Para muitas outras, é o momento em que se descobre o que aquele documento significa lá fora: se ele abre portas ou se ele acende um alerta vermelho.

Porque a fronteira moderna faz bem mais do que filtrar corpos. Ela fabrica identidades. Decide quem é visitante e quem é risco, quem é normalidade e quem carrega uma suspeita colada ao próprio nome. A fila da imigração talvez seja hoje o lugar mais honesto do planeta. É ali, em silêncio, que se decide quem pertence e quem está apenas sendo tolerado.

Durante trinta anos nos venderam o contrário. A globalização prometia um mundo sem costura, com mercadorias, dinheiro, informação e gente circulando cada vez mais livres, as fronteiras virando detalhe de mapa. Os grandes eventos globais seriam a festa máxima dessa promessa. Só que a promessa virou pelo avesso.

Voltaram os muros, as tarifas, os nacionalismos, a velha lógica dos blocos. E os Estados Unidos de Donald Trump se tornaram o símbolo mais visível dessa guinada.

É nesse mundo que a Copa começa hoje. Não num país qualquer, mas no epicentro de uma visão que prefere a soberania ao multilateralismo e a segurança nacional à hospitalidade. Uma visão em que o "sejam todos bem-vindos" virou um discreto "depende de quem você é".

E aqui está o que deveria assustar a FIFA mais do que qualquer mala de propina. A entidade sobreviveu a décadas de corrupção, delação premiada e dirigente algemado em hotel suíço porque nunca perdeu uma única coisa: a aparência de ser universal. Conseguia convencer o planeta de que pairava acima dos interesses nacionais.

Mas uma organização global só continua global enquanto trata seus convidados como iguais. No instante em que aceita que uns entram como hóspedes e outros como suspeitos, ela deixa de ser a casa de todos e vira inquilina do país que manda.

O futebol vai sobreviver a tudo isso. Ao Trump, à FIFA, às tretas geopolíticas da nossa época. O jogo sempre foi maior que os seus donos. Mas a Copa do Mundo, como ideia, talvez esteja virando outra coisa diante dos nossos olhos.

Durante quase um século, acreditamos que o futebol era capaz de suspender as fronteiras por algumas semanas. De abrir, no meio de um mundo dividido, um território comum onde todo mundo parecia falar a mesma língua, por mais ilusório que isso fosse.

Desta vez, não. Desta vez foram as fronteiras que entraram em campo. E estão ganhando de goleada.

 

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Ilmo Santos Há 2 meses Goiânia Artigo brilhante. Me tocou!
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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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