O Maracanã além de Neymar

O Brasil busca recuperar um sentimento de pertencimento que a polarização fragmentou.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
01/06/2026 às 13h07 Atualizada em 14/06/2026 às 15h49
foto divulgação CBF

O Brasil foi ao Maracanã buscar algo que não encontra há anos

 

A ovação foi real. Mas não era para ele. Era para a sensação de ser brasileiro junto, sem ter que escolher um lado. Era para um espaço que o país perdeu nos últimos anos e não sabe exatamente como recuperar. Neymar foi o pretexto. A saudade era outra.

E é exatamente por isso que o que aconteceu no Maracanã merece mais atenção do que está recebendo.

Quando uma nação elege um herói, raramente está olhando para ele. Está olhando para a imagem de si mesma que deposita nele. O Brasil colocou em Neymar décadas de fantasia coletiva: a ginga, o talento nato, a capacidade de vencer onde outros nem tentam.

Quando ele falhou, a raiva foi desproporcional a qualquer derrota esportiva. Porque o que foi ferido não era admiração. Era projeção. E quando o espelho quebra, a dor é de quem olhava, não de quem estava refletido.

A ovação de agora tem a mesma natureza. O Brasil não foi ao estádio endossar os valores de Neymar. Foi buscar um objeto perdido: a camisa amarela como espaço de todos.

Durante décadas ela funcionou assim. Não importava classe, partido, religião ou região. Era um dos poucos momentos em que pessoas muito diferentes conseguiam dizer "nós" ao mesmo tempo. Quando esse símbolo foi capturado pela polarização, transformado em uniforme de manifestações e associado internacionalmente à extrema direita brasileira, o que se perdeu não foi uma camisa.

Foi um mecanismo de pertencimento. Milhões de brasileiros passaram a não poder vesti-la sem fazer uma declaração política que não queriam fazer.

Essa é uma das maiores derrotas simbólicas da história recente do país.

O problema é que Neymar é um veículo frágil para recuperá-la.

Ao longo dos anos ele construiu uma persona que contradiz qualquer projeto de símbolo plural. O silêncio sistemático diante de questões de raça. A distância ostensiva da origem periférica de onde veio. O ego que raramente encontrou espaço para o coletivo.

Um jogador que emerge das periferias do Brasil e vira as costas para elas não é uma figura de unidade nacional. É uma figura de ascensão individual que olha para baixo e não se reconhece.

Quando uma sociedade está carente de pertencimento, ela projeta em qualquer figura disponível. A intensidade da projeção não valida a figura. Revela a carência.

E aqui começa o que ninguém está dizendo com clareza.

A disputa por símbolos coletivos nunca é inocente. Quem consegue se apresentar como encarnação do "nós" nacional constrói um poder que nenhum programa de governo substitui. A direita brasileira entendeu isso antes. O investimento na camisa amarela entre 2018 e 2022 foi deliberado. Custou caro em rejeição, mas estabeleceu uma associação que não se apaga facilmente.

Quando o símbolo agora parece retornar ao centro, o movimento não é simétrico. Quem se beneficia não é o campo que nunca o reivindicou com a mesma intensidade. Quem se beneficia é quem já estava associado a ele.

Uma Copa do Mundo com Neymar como protagonista emocional funciona, objetivamente, como reabilitação de um campo político específico. Independentemente da intenção de quem vai ao estádio torcer.

Por isso os progressistas precisam resistir ao reflexo óbvio.

Torcer contra seria o maior erro possível. Não porque Neymar mereça apoio irrestrito, mas porque o espaço vazio não fica neutro. Fica para quem chegar primeiro. Confirmar a narrativa de que a camisa amarela pertence a um lado e o outro não quer que o Brasil ganhe, seria um presente sem contrapartida, embrulhado em coerência moral.

Símbolos capturados podem ser recapturados. Mas só por quem disputa, não por quem abandona.

O governo Lula tem neste momento uma janela rara. A designação do PCC e do CV como organizações narcoterroristas pelos Estados Unidos gerou reação que atravessou fronteiras ideológicas. Setores que raramente convergem com o governo federal reagiram com incômodo à intervenção americana. Esse nacionalismo difuso está solto, sem forma política definida, procurando um canal.

A Copa pode ser esse canal. Um governo que apareça junto à seleção, que ocupe o espaço do orgulho coletivo, que conecte o entusiasmo do Mundial à afirmação de que o Brasil não aceita tutela externa, tem a possibilidade de transformar dois movimentos distintos numa narrativa única. Não como manobra, mas como política de identidade legítima, que qualquer governo tem o direito de construir.

Deixar esse espaço vazio seria repetir 2018. Quando a energia emocional de uma eleição foi ocupada inteiramente por quem estava disposto a estar lá.

O Maracanã revelou que o desejo de ser brasileiro junto ainda existe.

A pergunta é mais simples e mais urgente do que parece: quem vai estar presente quando esse desejo precisar de uma direção?

Símbolos não esperam. Eles vão sendo preenchidos o tempo todo, por quem chega primeiro, por quem não tem vergonha de estar lá.

O estádio já está cheio. A questão é quem ocupa o campo.

 

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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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