Bolsomaster e a imunidade moral do aliado

Como 53% dos eleitores de Flávio souberam do escândalo e aprovaram mesmo assim

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
26/05/2026 às 14h28 Atualizada em 01/06/2026 às 13h15
Daniel Vocaro e Flávio Bolsonaro

53% dos eleitores do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, sabem do escândalo Bolsomaster. Sabem que ele pediu dinheiro a um banqueiro preso, investigado por lavagem de dinheiro. E aprovam. Esse número explica mais sobre o Brasil de 2026 do que qualquer análise política.

O Datafolha ouviu 2.004 pessoas nos dias 20 e 21 de maio — a primeira pesquisa a captar de fato o impacto das revelações do Intercept Brasil.

A intenção de voto em Flávio caiu: de 35% para 31% no primeiro turno, de 45% para 43% no segundo. Lula passou de 45% para 47%.

Houve impacto real. Mas o candidato segue competitivo. E o dado que explica isso é perturbador: 72% dos próprios eleitores de Flávio já sabiam das conversas com Daniel Vorcaro quando responderam à pesquisa. Mesmo assim, 73% afirmam que ele segue tendo sua confiança.

Não é ignorância. É escolha.

O Intercept documentou em áudios e mensagens que Flávio negociou R$ 134 milhões com Vorcaro — dono do Banco Master, preso e investigado pela Polícia Federal — para bancar o filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro.

Cerca de R$ 61 milhões já foram pagos, parte deles remetida aos Estados Unidos por meio de um fundo ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro. Não há ambiguidade. E mesmo assim, para a maioria da base, o senador agiu certo.

O raciocínio, dito sem eufemismo, é este: já que todos são imorais, fico com o meu imoral de confiança.

A política virou religião moral

Esse paradoxo tem uma explicação. A política brasileira, e global, deixou de ser disputa de ideias para se tornar disputa de pureza. As pessoas não querem apenas vencer. Querem demonstrar que estão do lado certo da história.

E quando todos os campos são percebidos como igualmente corruptos, igualmente hipócritas, o eleitor para de buscar o candidato íntegro. Ele escolhe o seu favorito entre os que considera desonestos.

O filósofo Wilson Gomes já apontou que toda política é, em alguma medida, identitária. O bolsonarismo organiza identidades religiosas e patrióticas. O progressismo organiza identidades de gênero e raça. Não existe política sem "nós". O problema começa quando esse "nós" deixa de ser projeto político e vira seita moral, e o escândalo do aliado passa a ser interpretado não como falha, mas como perseguição.

Freud descreveu algo parecido ao falar do superego: o juiz interno que vigia, compara e pune, mas que nunca fica satisfeito. O que mudou é que esse superego saiu do consultório e foi morar nas redes sociais, e agora opera de forma coletiva, seletiva e tribal. Condena o adversário com rigor absoluto. Absolve o aliado com generosidade sem fundo.

Nietzsche via isso como estrutura de toda moral: ela sempre cria simultaneamente um grupo virtuoso e um inimigo moral. O problema não é ter um "nós". O problema é quando esse "nós" passa a funcionar como imunidade, inclusive imunidade ética.

O paradoxo de chegada

Os movimentos identitários não surgiram do nada. Durante séculos, o "universal" da política excluiu muita gente. Reconhecer isso é reconhecer uma realidade histórica.

Mas a resposta ao universal excludente pode criar outra armadilha: tribos morais incapazes de construir qualquer linguagem comum, e incapazes, sobretudo, de cobrar os seus.

Esse é o ponto de chegada da política-religião: não a elevação ética do debate, mas sua inversão completa. O tribunal que deveria condenar passa a absolver, desde que o réu seja do lado certo.

Uma democracia só sobrevive enquanto consegue transformar inimigos morais em adversários políticos.

Quando perde essa capacidade, ela não morre de uma vez. Vai se esvaziando por dentro, escândalo a escândalo, pesquisa a pesquisa, absolvição tribal a absolvição tribal.

Os 53% disseram tudo.

 

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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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